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Celso Ricardo de Almeida
Fervedouro / MG

Mata o bicho

A igreja estava cheia como de costume, e, não seria exagero se disséssemos que oitenta e cinco por cento da população estava presente na igreja para assistir a Santa Missa.
Como dizem os antigos, "aos domingos precisamos agradecer ao nosso Deus pelas graças que recebemos durante a semana". E era com este intuito que a população de Fervedouro se amontoava na pequena capela de Santa Bárbara, santa está padroeira do município. Lógico que nem todos iam com o mesmo objetivo, outros iam mais para reparar na roupa dos demais ou iam apenas para estrelar mais um novo modelito que provavelmente estaria na moda em alguma capital do país, e também, havia aqueles que iam a igreja apenas para cumprir uma mera formalidade social ou política, mas isto é outra história.
No altar estava Padre Lauro, que era muito querido pela população, mas como ninguém e perfeito havia aqueles que como se diz, "não ia muito com os cornos do Padre", e o principal motivo era que Padre Lauro adorava uma festa, e nelas, só era visto com um copo na mão, bebericava a festa toda não havendo bebida que dispensasse, podendo ser de cerveja a boa e velha cachaça mineira, tudo era enxerido como se fosse água, ou melhor, como se fosse vinho do padre.
Padre Lauro era sempre auxiliado por um sacristão chamado Raimundo sendo mais conhecido como "Mundinho", juntos eles formavam o que todos chamavam de dupla dinâmica. Pois ambos adoravam uma cachacinha.
Mas tirando este problema, se é que se pode considerar um problema a pessoa gostar de tomar uma cachaça de vez em quando, Padre Lauro era muito querido pela população e ministrava com a maior seriedade o sacerdócio, sendo um excelente orador, fazendo pregações memoráveis.
Desta vez estavam ambos no altar, Padre Lauro com a feição séria preparava tudo para a comunhão, ao seu lado Mundinho observava atentamente, tendo volta e meia à atenção dispersa por alguns cupins, popularmente chamados de "aleluias", que por lá teimavam em ficar devido a forte claridade das luzes que ficavam sobre o altar. Aquilo já havia incomodado a todos, inclusive ao Pe. Lauro que numa tentativa de se ver livre dos malditos "aleluias", havia apagado uma das luzes que, não alcançando grandes melhorias.
Chegada a grande hora, um dos momentos mais importantes da Santa Missa, Padre Lauro auxiliado pelo sacristão despeja sobre o cálice o vinho e profere uma oração abençoando o vinho, os "aleluias" parecendo ser puxados pelo cheiro do vinho começa a voarem mais perto do cálice e acidentalmente um dos insetos, ou melhor, um dos "aleluias", pousa próximo ao cálice, Padre Lauro vendo o inseto e imaginando que o mesmo poderia ir até o vinho acena discretamente para o sacristão e diz.
- Mundinho! Mundinho!
O sacristão que distraidamente olhava a multidão, ao ouvir o chamado do padre aproximou - se do mesmo e em baixo tom disse.
- Pode falar!
O Padre apontando para o local onde estava o inseto disse.
- Mata o bicho ai...
Mundinho olhou o Padre e demonstrando não ter entendido o pedido perguntou.
- O que?
Padre Lauro repete, apontando novamente para o local onde estava o inseto.
Mundinho mais que depressa pega o cálice que a pouco o Padre havia colocado vinho e vira todo o conteúdo do mesmo em sua boca. No final limpa a boca com a mão e diz sorridente.
- Está é da boa!
Assustado Padre Lauro olha para o sacristão e pergunta.
- O que você fez?
- Ué, eu bebi o vinho, não foi isso que você me pediu quando me falou mata o picho?
- Não! - Berrou Padre Lauro. - Eu mandei você matar este bicho aqui! - E apontou para o "aleluia" que ainda estava no mesmo lugar.

Era manhã de domingo, num chuvoso dezembro de 2008. Nesta época começamos a rever nossas conquistas, decepções, e fazemos um balanço sobre os acontecimentos do ano que passou. Nesta época a cidade fica um pouco introspectiva, um pouco mais tímida.

Acordei cedo e alguma música da Astrud Gilberto tocava na minha cabeça, um privilégio que há tempos tenho tido, por gostar do gênero e também de tudo que fez parte deste movimento. Lembrei-me que precisava comprar mais um disco de Bossa Nova, imaginei uma coletânea com músicas que eu ainda não tinha, uma espécie de presente de natal pra mim mesmo. Afinal de contas, eu tinha que ter algo meu, e em minha casa, que marcasse os 50 anos da Bossa Nova.

A cidade já estava envolvida por um clima de Natal muito tranqüilo e cintilante. O jornal com as mesmas notícias de sempre e algumas dicas de almoço, ceias e viagens de final de ano. Enquanto fazia um café liguei a TV para assistir aos programas de esporte que gosto, quando de repente entra um repórter desesperado num desses plantões de notícias e anuncia algo estranho! Algo sempre, sempre temido pela sociedade moderna! Chegou o momento... Eles chegaram... Eram imagens impressionantes de diversas regiões do planeta que mostravam seres alienígenas por todos os lados e naves flutuantes desesperadas e implacáveis. Eles não atacavam, não atiravam... Mas queriam algo! Buscavam algo! E nesse momento percebi que o fim da humanidade estaria próximo.

O desespero tomou conta de todas as emissoras e aí tive a idéia de ligar para alguns amigos e todos estavam em pânico! Era o nosso fim! E todos sabiam disso! Os ETs haviam chegado e nem sequer esperaram a passagem do Natal. Eles não atiravam... Eles só procuravam e reviravam tudo que viam pela frente e a população em pânico já não entendia e nem sabia o que fazer... Eram carros e motos nas estradas tentando sair da cidade e eu ali parada, vendo as notícias na TV, sem acreditar, e sem entender.

Todos os extraterrenos de todas as espécies se uniram para invadir a terra e tive a nítida certeza de que era o nosso fim!

Os americanos indignados não tinham ação, pois nunca tinham sentido o peso de um exército absurdamente superior ao seu! Os chineses se espantavam com a velocidade frenética daquelas naves espetaculares que cruzavam os céus. Até a África foi revirada. Os cientistas haviam anunciado que se tratava do maior acontecimento galáctico de todos os tempos.

E o Brasil... O Brasil estava dilacerado. Algumas imagens marcantes ficarão em minha memória para sempre... São Paulo foi atacado por seres gigantes e esquisitos. Eles voavam desesperadamente, e reviravam tudo! A maior comoção foi no Rio! Tudo destrído! Nunca vi coisa igual! Carros tombados, o mar revolto, a ponte Rio-Niteroi estava em pedaços. O morro tentou o contra-ataque, mas sem sucesso.

A polícia se juntou aos bandidos como num exército único, mas nada fazia efeito e nem o redentor escapou, pois os inimigos ETs eram implacáveis. Ipanema e Copacabana jamais seriam as mesmas! Eram as regiões mais destruídas e reviradas de todo o planeta.

Eles realmente buscavam algo valioso. E eu repetia para mim mesmo, "é o nosso fim!".

Motos e carros sem destino como se fosse possível resistir ao ataque! As igrejas se encheram de fiéis. As pessoas se desesperavam nas ruas nas praças e, embora não houvesse ataques diretos, notava-se a gana destes seres em revirar tudo o que viam pela frente e buscarem algo que eu não entendia.

Já eram quase 11:00 da manhã quando a invasão foi cessando e estranhamente todos os ETs fugiam em suas naves velozes. Eles destruíram tudo e se foram quase que instantaneamente.

Nenhuma pessoa sequer foi ferida e novamente os cientistas se indignavam com tamanho paradoxo. "Que loucura, eles arrasaram tudo e se foram. O que queriam? Será que levaram alguém?"

Ninguém no mundo havia sido abduzido, mas a destruição abalou o planeta e daí teve a certeza de que eles realmente algo havia mudado.

O Planeta parou e percebeu que aquele ataque massivo tinha um objetivo único e voraz! Eles levaram todos os discos do Tom! É, to falando dos discos do meu querido Tom Jobim!

Foram pilhas e pilhas da mais suprema obra que se foi, sem deixar rastros e pior, todas suas cópias eletrônicas foram apagadas na mesma medida. Fui até o quarto e percebi que a janela estava aberta e as cortinas ainda balançavam.

"Meu Deus eles passaram por aqui também!" O quarto estava revirado, os armários estavam abertos, e tudo foi revirado e jogado ao chão. Gavetas abertas e completamente desarrumadas! ...

Meus discos também não estavam mais lá. Eles realmente buscavam algo! Eles roubaram nosso Tom e era definitivamente o nosso fim! "

Parabéns Bossa Nova por seus 50 anos, e vida longa a você e a todos que lhe criaram !

Saiba que enquanto você existir eu também existirei.

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009