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O silêncio dos meninos
Ouviamos as meninas, ouviamos somente as meninas chorosas. Como podem os desencarnados exigirem algo, como se ainda caminhassem pela matéria? E quem se alimenta das energias ruins que produzimos? Quem se nutre pelo medo, ou por objetivo infinito de vingança? Vivos! Então consideraremos vivo, qualquer fragmento inteligente que se mantenha entre o labirinto da humanidade, exigindo e buscando. Ou somente caminhando entre nós. Há muitos anos atrás, na parte alta da colina, um homem perdeu seu filho único numa barbárie, um garoto, que entre os sofrimentos que o santificaram, teve partes de seu corpo mutilados lentamente, num tipo de ritual que seu pai desnorteado nunca saberia descrever ao certo. Antes de saltar do despenhadeiro, o homem ainda perguntou aos ventos quem fizera aquilo a seu menino, e os ventos ventaram as mesmas dúvidas desiludidas; a queda mórbida foi inevitável, rompendo o lento sentido do ar. Daquele momento em diante os meninos do lugar começaram a morrer um a um, todos da mesma forma surrealista, sem marcas ou ferimentos... Sem sangue derramado, apenas corpos frios e olhos cristalizados, abertos, como de quem segundos antes teve seu cérebro dilacerado pelos verdadeiros e enlouquecedores segredos do Universo. Olhos de cristal. E a morte não poderia ser apresentada às ilusões infantis, de maneira mais aterrorizante e inesperada. Pouco a pouco, os moradores do lugar foram percebendo que o fenômeno se dava nos dias de chuva, e que os mortos eram meninos falantes e ativos, nunca os imperceptíveis e silenciosos. Seja lá o que for, parecia vir movido pela voz dos meninos, como uma besta que já não se utiliza da visão, talvez por impedimento, e segue as vítimas pelo som. Ninguém duvidada que a alma suicida vagasse em nome de sua eterna vingança, qual a explicação racional para isto? Coincidência? Por que só os meninos? Se no coração irracional o pai sentiu queimar a maior das injustiças, estaria o assassino vivo na cegueira suicida do vácuo?! Vivo pela busca, enraizado aos meninos, cruscificado pelo amor divino que nutria fortalecido, sentenciado a caminhar cego na Terra por não aceitar demandas celestiais; recusando-se a partir sem seu filho para o lado dos que optam pelo fim. Um forasteiro de nome Clark, fugitivo por crimes banais (roubo de pães, frutas, bebibas) em outras cidades, refugiou-se na colina cinzenta certa vez, mas fugiu apavorado logo depois, deixando eternizado seu pavor em uma carta enviada pelo ladrão procurado às autoridades que o perseguiam: - Prezados senhores da Guarda Real; chamo-me Clark Nabot, e como os senhores bem sabem, sou procurado por roubar pequenas quantidades de comida na luta diária pela sobrevivência. Mas não escrevo para me explicar, ou tentar fugir de minha pena sob lamúrias, já que agora percebo que algumas pessoas, crianças, estão sentenciadas a males muito maiores e absurdamente terríveis. Durante meus dias como fugitivo, acabei parando num lugar triste e assustador, por mais que seja cristão o pensamento, não há possibilidade de creditar ali a presença de Deus. Vi meninos andando amarrados uns aos outros como cães, alguns têm a boca costurada por tiras de couro crú! Creio tratar-se de macabros rituais satânicos, pois assim que evoquei a salvação do criador em meu pensamento, uma coisa que não me atrevo detalhar perseguiu-me e tentou tocar minha face durante longo período, até que eu me afastasse definitivamente do lugar. Monte Khalpur. Não sei como sobrevivi a esta situação demoníaca, espero que façam alguma coisa por aquelas crianças, nenhum filho de Deus merece passar por aquilo. Salvem aquelas pobres criaturas! Sem mais, Clark Nabot. Um grupo de soldados da guarda partiu para Monte Khalpur, no intuito de verificar as denúncias de bruxaria e rituais satânicos. Mas não havia ninguém para dar explicações no lugar. Apenas olhos cristalizados e gélidos. Fez-se o silêncio dos meninos a única resposta; e o despenhadeiro da incompreensão a saída lógica, para quem há muito não respirava. |
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Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009 |