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Rozelene
Furtado de Lima
Teresópolis
/ RJ
Todinha
marcada
Quando eu tinha quatro anos, fui passar uns dias no sítio da
minha bisavó. Depois da euforia da chegada, todos conversando
foram saindo, e ficamos na varanda minha bisa e eu. Ela porque andava
pouco e com ajuda de uma bengala, e eu porque ninguém me convidou
para ir junto.
Sentei-me numa cadeira ao lado dela e comecei a acariciar a sua mão:
-
Vonita, por que sua mão tem tantos riscos?
- Cada risco representa grandes coisas que eu quis muito, lutei contra
as dificuldades e realizei.
- A sua testa tem muitos traços com curvas, por que Vonita?
- Cada traço foi uma estrada que andei em busca de paz e sossego
e nas curvas foi onde fiz escolhas muito importantes, tomadas de decisões
para a vida toda.
Acariciando a face da minha vó, beijo-a, olho e continuo com
as observações:
- Vonita, por que tem tanta linha no seu rosto?
- Cada linha representa uma situação muito complicada
que enfrentei com coragem.
- E por que seu olho está tão apertadinho, quase fechado?
Com paciência e sabedoria ela respondia admirada dos questionamentos
feitos por uma bisneta tão buscadora..
- Porque não preciso mais, ver muito longe, tudo que desejo
está bem pertinho de mim.
Pegando a bengala, sentindo a lisura e a firmeza do material de que
é feita, me detenho um pouco na parte superior que é
acolchoada para não ferir a palma da mão. A avó
aguarda a pergunta que certamente virá.
- Por que você usa uma bengala, é para andar devagar
e diminuir o seu passo? - Talvez. A pressa é para quem é
inimigo do tempo e amigo da preguiça.
Como um juiz num tribunal prosseguia com perguntas difíceis
de responder, olhos nos olhos, abri as mãozinhas como se fosse
receber um prêmio: - Onde estão as marcas mais bonitas
que você tem?
- Ah querida, não dá para você ver, estão
desenhadas no meu coração.
Com espanto natural das crianças. - Vonita, são desenhos
coloridos?
Sim Clarinha, são bem coloridos.
- Como você consegue pintar lá, bem dentro do coração?
- Quem pinta são as pessoas que nos fazem felizes tornando
momentos como essa nossa conversa numa pintura linda, linda e muito
linda! - Posso ver suas pinturas? - Ela suspirou fundo e disse: você
terá que passar pelo meu olhar, descer no meu sorriso escorregando
nas cascatas de lágrimas pegar uma chave atrás da porta
da imaginação, abrir um cofre de lembranças pegar
uma senha para entrar no coração e visitar a magnífica
exposição de quadros.
- Não estou com vontade de sair daqui agora, depois eu vou
lá ver seus quadros. Você já foi assim, um pouco
menos velhinha como a minha outra vó, a sua filha? - Já,
minha lindinha.
Clarinha expressando surpresa: - Você já foi mulher como
a minha mãe?
- Já sim. Fui uma linda mulher como sua mãe, uma moça
exuberante como sua irmã e já fui menina maravilhosa
como você e também fui um lindo bebê.
Com a curiosidade cada vez mais aguçada: Um bebezinho chorão...
Vó, então um dia eu vou ficar como você está
hoje, riscada, rabiscada, traçada e cheinha de marcas? - Vai
sim, se Deus quiser.
- Ah... Vonita, e demora muito tempo para tudo isso acontecer?
- Um pouco mais, um pouco menos, quem manda no tempo somos nós.
- Então eu vou brincar muito com o tempo para distraí-lo,
vou brincar de pique pega, de pique esconde e de estátua. Ah!
Ele vai ter que esperar, vai ter que demorar muito até eu querer
deixar ele me achar e me marcar todinha.
O tempo passa: devagar na espera, na dor, passa correndo nos momentos
felizes e passa voando quando amamos e somos amados. Não para
nunca de passar. Ou será que somos nós que passamos
pelo tempo? O tempo é como um pássaro canoro, é
preciso conquistá-lo, alimentá-lo bem e não prendê-lo
para não deixar que ele entristeça e envelheça
depressa demais e morra no passado.
Vonita amada bisa, hoje nos meus noventa e cinco anos lembrei dessa
conversa que tive com você quando eu era pequenina e... aconteceu
tudo do jeitinho que você falou. Estou toda marcada, traçada,
riscada, cheia de linhas e rabiscos. No meu coração
tem desenhos encantadores feito por você, e muitas outras pessoas.
Desenhar no coração do outro é como docinho de
festa: pequenos e cheios de doçura. E eu nunca vi ninguém
comer docinhos de festa e não sentir alegria do feitiço
da infância se materializando em grandes sorrisos, e vendo a
tristeza se desfazer em fumaça carregada pelo vento, tal como
as folhas amareladas de outono.
Só não sei ainda Vonita, como são e onde ficam
as marcas da saudade.
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