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Valéria
Victorino Valle
Anápolis
/ GO
Apenas
um gole
Mais um dia com o fogo dos velhos goles neste mundo de tragédias.
Não há fagulha de luz,só há assaltos por
desejos infelizes: tudo arde interiormente e a coragem está
destruída. Uma vida vivida e consumida por uma viagem perigosa,
recheada de trevas. Sou a alma de um ébrio atordoado que grita
e geme. Sou a chaga aberta e cheia de cuspo que queima no frio do
isolamento humano.
E, sozinho, não consigo articular na concretude humana, não
percebo o sentido de ser, não pratico a amalgamação
com o outro, não sinto penetração ou invasão,
não vislumbro nem a liberdade nem o aprisionamento...Só
há o fechamento das poucas alternativas, só há
o esgotamento das raras possibilidades. Sou vago, informe, flácido...
Sou prisioneiro nessa cidade estreita, recheada de restos, destroços
e combates. Faço sinais na praia dos zumbis a fim de ser percebido
por esta desgraçada e omissa sociedade. Meu código de
silêncio estratégico não afeta as muitas pessoas
doentes e corruptas que residem nessa cidade. São profissionais
da angústia e da miséria que investem na decomposição
do ser e existir. Usam máscara e maquiagem nos discursos: é
o cinismo institucional que constitui o álcool como uma droga
socializada e politizada.
E nesse presídio social, mais um gole de idiotices: brindo
atonitamente a um dia sem sol, uma criança sem sorriso, um
velho sem saudade e uma vida sem esperança. É a lucidez
do etílico que assiste a grande piada da justiça e a
cultura da impunidade. Não há respeito às recomendações
éticas, só às etílicas.
Não há palavras para falar, dissiparam-se todas. Só
há bafo e pupila. É a sociedade que se cala, silencia
diante desse câncer social. E assim, sem fala e sem voz, animalizo,
embruteço, despersonalizo e bestializo-me. Sinto-me impotente
para administrar essa tendência suicida e destrutiva: sou fonte
seca e árida que desertificou-se completamente. Seduzido e
escravizado pela loucura do álcool, vivo a agonia de ficar
sem família, sem trabalho, sem ser alguém, sem dignidade.
Balbucio:
- Um brinde ao Nada.
A minha tragédia, o mal do álcool, é também
a tragédia da coletividade humana. Despejamos a todo instante,
densas placas silenciosas de lágrimas que denotam a amputação
dos projetos de vida e de sol e busca da plenitude e realização
do homem. Esse vício corta como navalha as relações
sociais e familiares, tem a capacidade de transformar o poder do abraço
em poder do braço, a violência prevalece, estupra a liberdade
e rouba a paz. Ele é capaz de mortificar o sentimento e sepultar
qualquer relacionamento, edificando assim imensas fortalezas enormes
que impedem o diálogo consigo mesmo e com o outro.
Não há percepção poética da vida
e nem do outro. O álcool destrói a veia poética
e os encontros com a vida são feitos em clima de tensão,
discussão e agressão. As palavras e atitudes são
duras, ásperas, venenosas: ossificam...coisificam... E angustiadamente
murmuro:
- Estou morto!
É a morte da abertura, da disponibilidade, do partilhar, do
compartilhar, da condição de ser e fazer na vida.É
a caminhada inexorável para o caos social e a exclusão
comunitária. E mesmo na dimensão da morte, ainda procuro
ouvir ansiosamente uma voz que me convide para um posicionamento moral,
uma vida sóbria, uma prática lúcida, um gesto
sensato, um objetivo ético. Não ouço...Estou
apoiado na muleta do álcool, preciso da bengala da bebida para
encarar os conflitos pessoais, conjugais e sociais. E desesperadamente
choro e grito:
- Estou sangrando, minhas cicatrizes estão abertas, sinto o
gosto amargo do fracasso...Sinto-me asfixiado...desfaleço diante
da crise... estou morto. Preciso ingerir mais alguns goles de ilusão.
É o corpo que engole todos os estágios da destruição
e da morte prematura do ser: a tolerância da bebida, a dependência
física, (in)consciência da necessidade com maior freqüência
e quantidade, distúrbios psicológicos e emocionais,
a subjetividade e o intelecto atingidos drasticamente. É o
lamento compulsivo da sociedade alcoólatra que pluraliza a
experiência destruidora do álcool: uma droga que tem
uma imensa capacidade de conquistar e nunca se deixar conquistar.
A sociedade egoísta e hipócrita não quer ver
a alma, o interior do alcoólatra. Ninguém tem tempo
para ouvir um pouco do lamento e da angústia que sai do peito
de um homem que está aprisionado neste pesadelo.Ninguém
quer ouvir as queixas, os ais, as rixas, as feridas sem causa, os
olhos vermelhos de um alguém encabrestado pela droga. Poucas
pessoas compreendem a sensibilidade de um alcoólatra, um ser
perceptivo às contradições e as esquisitices
da história humana que se recusa a enxergar um mundo tão
sem sonho e sem a magia da esperança.
No caminho para se perder o sentido do viver, esbarramos em cacos
e restos espalhados pelos bares e festas da vida: a prostituição,
a traição, a falsidade, a inexpressividade, a fuga,
a transitoriedade, a futilidade, o cinismo, a mentira, a perversidade,
a desgraça... Assim, a visão a respeito da vida desintegra-se
e desarticula-se. É a despersonificação social
dramática e irreversível. O ébrio torna-se uma
ilha solitária que segue gemendo sua solidão nos bares,
fazendo da boemia sua parceira na solidão e do copo o sócio
de sua condição de miserável impotente e abandonado.
E nessa viagem sem volta, a única linguagem existente é
aquela que gera a dor, o lamento, o sofrimento, a amputação,
o drama e o desespero. Como companheiros inseparáveis dessa
viagem temos a apatia, a negação da vida, o abortamento
da realização, o corte na construção e
a ruptura com o amanhã.
Chega ao fim a novela interminável da desgraça que tudo
inferniza. Não há esforço de restauração
e recuperação da dignidade de ser simplesmente gente.
Comemoro tal constatação com novos goles e gritos:
- Deus! Sem futuro lúcido, sem projeto para o hoje, sem sonho,
sem objetivo, sem sentido, realmente estou morto e enterrado vivo
por mim mesmo e pelos outros. Um único gole! Um gole cheio
de desespero será tomado em homenagem à sociedade e
sua solidariedade. Um brinde especial... À MORTE!
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