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Fabi Mariano
Rio de Janeiro / RJ


Escolhas

 


A roupa é colada ao corpo, deixando suas curvas quase perfeitas bem delineadas. Os excessos viam de todos aqueles finais de relacionamentos que faziam com que encontrasse mesmo que estivessem bem escondidos, todos os chocolates da casa. Porque alguém esconde algo de si mesmo? Não sabe. Não sabemos. Mas é comum, mais do que imaginamos e parece que quando é o outro que descobre que estava escondido, nossa surpresa é tão real ou tão assustadora quanto não deveria ser. Como diria Cazuza, \"mentiras sinceras me interessam.\" Mas voltando à roupa, sempre achou aquele tipo de vestimenta sexy, mas confortável, nem tanto. Não entendia porque aquele era considerado o modelo ideal para sua atividade. Vestiu-se, combinou bem os acessórios e se virou e revirou no espelho uma dezena de vezes, essas peculiaridades femininas, seja por insegurança ou ego inflado demais. Depois de se sentir pronta para a selva de pedras e olhares que colocar o pé para fora de casa oferece, saiu. Estava atrasada. Apesar de não ter muito definido um horário, ela só funciona quando estipula um, mesmo que seja só em sua cabeça, na agenda imaginária do seu dia.
Chega ao local e se depara com muita gente, pensa que não deveria ter demorado tanto escolhendo a roupa, mesmo porque já tinha visto duas pessoas quase idênticas a ela. Nada fere mais a auto-estima de uma mulher do que se sentir igual. Na verdade, pensa que deveria ter demorado mais, para ser diferente, acima de tudo, ou melhor, todas. Como se já não fossemos. Estaciona e logo se depara com ele. Aquele físico, o ar descontraído e a fala mansa carioca, a deixavam derretida. Ela era boa atriz, ele não percebia nada. Mal sabia ela que o bom ator era ele. Com aquele jeito calmo e ao mesmo tempo impositivo, ele indica o lugar destinado aos dois. Mais algumas palavras sussurradas ao pé do ouvido, não por romantismo, mas o som alto do lugar pede essa intimidade.

Começam. Em pouco tempo seu corpo está suado, aquela intensidade de movimentos a assusta em um primeiro momento, mas logo se acostuma. Corpo molhado, pêlos arrepiados, coração acelerado. Respiração profunda e rápida. Sentiu a pulsação de todos os seus músculos. Ouvia a voz dele incentivando a mais e mais. Mesmo que seu corpo não aguentasse ela tinha sede de obedecer ao seu comando. Corpo quente contrastando com as gotas de suor que descem ser respeitar o frisson que causam. Êxtase. No final, o corpo relaxa e como agradecimento lhe proporciona sensações que talvez nunca sentira antes. Foram 45 minutos intensos.

A esteira apita. O personal trainer vem em sua direção, aplaudindo. Enaltece-a pelo esforço e diz que as pernas no dia seguinte deverão doer, é um bom sinal segundo ele, sinal que terá resultado. Sem fôlego, não há resposta, apenas um sorriso e as mãos no joelho, como se não pudesse se sustentar. Acabou.

Volta para o carro após se recompor, já imagina que amanhã não poderá retornar a sua série de exercício já que estará impossibilitada pelas dores do corpo. Lembra da opção do profissional que a orientou: \"Você quer algo intenso e rápido, ou algo mais tranquilo e duradouro?\" Isso é pergunta que se faça? Logo para ela? Ela que sempre viveu de paixões torrenciais que dariam inveja a qualquer enredo de filme americano? Logo para ela que sempre preferiu as dores do dia seguinte à passividade que não a faria pegar fogo no dia anterior? Qual é o melhor? Qual traz mais resultados? Riu sozinha olhando no retrovisor as tantas possibilidades que sempre ficam para trás. Em como suas escolhas, até na academia, refletiam suas escolhas amorosas e como costumam dizer, cada escolha, uma renúncia. Sábia frase. Ela não conhecia o amor. Sereno demais, embora não traga as dores no outro dia, embora ele esteja lá amanhã para ser praticado, mesmo que te deixe sempre disposto para mais. Paixões, teve muitas. Sempre com tempo determinado para chegar ao fim, como o apito da esteira, sempre a impossibilitando de uma nova série no dia seguinte, sempre levando ao esgotamento. Mas sempre com a garantia que seu corpo teria toda a satisfação, entre suspiros e lamúrias que lhe possa ser permitido. Pensou que na outra semana poderia tentar algo mais calmo, pediria ao personal. Enquanto isso, ligou para sua massagista preferida, sabia que as dores que teria que enfrentar seriam mais profundas que quaisquer outras. Sempre são...

 
Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009