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Romulo Jose Ferraz
Cuiabá / MT


Pé-frio ou de muita sorte

 


Na década de 1970, o Norte de Mato Grosso passou a ser minha área de serviço, e nessa maratona de ter que fazer reconhecimento aéreo, transportar e fazer lançamento de mercadorias, viajava de Cuiabá para diversos pontos do Estado. Com isso o risco de sofrer acidente aéreo era constante por não existir campo de apoio em caso de pane no avião, só existia floresta e poucas estradas, e foi assim que por quatro vezes avião desceu comigo de qualquer jeito.

Primeiro acontecimento:
Estava com quatro equipes loteando o Projeto Juína, quando precisei de um teodolito que tinha deixado num hotel em Aripuanã, e como apareceu uma carona de avião eu embarquei. Talvez por ser pé-frio, vivia uma luta com a minha estrela; o pé frio me jogava pro chão e a minha estrela me amparava e não deixava acontecer nada.
Mas esse avião teria que levantar voou de Juína, descer numa fazenda em Fontanillas para abastecer e fazer um carregamento de carne de boi.
No avião foi carregado com 360 quilos de carne, sendo que a capacidade do avião era 350 kg. Conclusão, 360 quilos de carne, as asas do avião lotadsa de gasolina e mais o meu peso e a imaturidade do aviador que fazia o seu primeiro voo. No subir do campo da Fazenda, por um metro ou dois, já quase bateu nas árvores da cabeceira da pista, o avião subiu mas muito lento até atingir a altura de voo.
Quase chegando em Aripuanã, uma tempestade para atravessar, em vez de dar a volta, entrou onde estava mais branco por estar chovendo, mas quando a chuva cai em cima do avião, começa a perder altura e o piloto acelera o avião no máximo, foi então que conseguimos atravessar a chuva, mas, esse esforço comprometeu o motor do avião.

Pânico no piloto
Uma válvula do motor, ainda faltando 25 minutos de voou para chegar em Juína, estourou e começou a falhar o avião, pois, sem uma válvula, o motor ficou fraco e começou a perder altitude, e o piloto, inexperiente, começou a chorar e mexer em todos os botões de comando, tudo no mesmo tempo.Eu disse:
- Rapaz, para de mexer, e raciocine no que pode ser feito...
- O avião vai cair, nós vamos morrer e eu só com 21 anos!!!
- Vai cair nada cara, apruma esse avião e vamos embora!
O cara ficou tão desorientado. O avião era tão velho que nem bússola tinha, eu estava navegando seguindo um picadão de 20 metros de largura, futura estrada de Aripuanã. E quando foi para voltar pro picadão ele virou o avião pro lado do Amazonas.
Eu perguntei:
- Para onde voce esta querendo ir?
- Voltar pro picadão.
Eu disse:
- Está errado, completamente errado, tem que virar para a direita e não para a esquerda. - E ele teima dizendo que era eu que estava errado.
Custou a convencê-lo do erro, aí mais uns minutos e o picadão apareceu e o avião perdendo altura.
E u disse para ele:
- Lá está o picadão, agora trata de ficar calmo.
- Como ficar calmo, nós estamos caindo...! Vamos descer no picadão...
- Negativo, nem tente, pois lá em baixo no picadão os paus foram só derrubados e ainda permanece no lugar.
- Então acha um pau mole para eu jogar o avião em cima...
- Você esta louco cara, é o mesmo que suicidar, trata de jogar esse avião pra cima...

Nasce a esperança
Essa agonia durou uns 10 minutos, mas de repente aparece a ponta da estrada onde as máquinas estavam trabalhando.
Eu mostrei a ele, mas avisei que não pousasse nela, já que era cheia de altos e baixos, e com uma curva atrás de outra. Disse a ele:
- O que vamos fazer é dar um 60º para a direita aqui na ponta da estrada, e rumar 45 km até chegar no campo de Juína.
O medo apavorou ele de novo, de ter que sair de onde estava vendo estrada e entrar na mata outra vez, sendo que o avião já estava voando bem baixo.
Custou convencer ele que era a nossa única chance, e rumamos para Juína.
Conforme o tempo ia passando a distância ia diminuindo, o motor do avião tendo hora que quase parava, ia ficando cada vez mais baixo. Só estava torcer que o rumo de 60º que calculei estivesse certo.
Mais foi correto, e mais um pouco com o avião quase batendo nas árvores desceu no campo de Juína.
O piloto desceu do avião e encostou a cabeça no avião e começou a chorar igual uma criança


Segundo e terceiro acontecimentos
Essas duas vezes que o avião desceu de qualquer jeito, foi porque acabou o combustível e como não tinha outro meio, a solução era planear até onde aonde desse, na esperança que aparecesse alguma estrada ou fazenda. Por sorte nossa, o avião de asa por cima, torna-se um planador, e assim consegue chegar no chão com pouca velocidade.
Por duas vezes pousou no cerrado, na primeira vez o avião bateu a asa numa árvore e ficou bem danificado. O socorro chegou mas pelo chão, uma equipe de topografia orientada por avião chegou até nós. Na outra desceu sem problema, por mais 200 metros pousaríamos no campo de uma fazenda, também desceu num cerrado campo, sem vegetação alta.

Quarto acontecimento
Esse foi mais complicado e mais apavorante por o avião estar pegando fogo em pleno voo e também num lugar sem recurso de pouso.
Estava indo de Cuiabá-MT para Juína-MT, tempo que estava medindo a área onde seria a hoje a cidade, no ano de1977. Mais ou menos no meio do percurso, o avião começou a pegar fogo por dentro da cabina e a fumaça foi tanta que nem uma janelinha que abriu para o vento entrar foi o suficiente para nós não passar mau.
O piloto, uma pessoa bem experiente, disse:
- Pessoa,l aperta o cinto que vamos pousar naquele campo abandonado lá em baixo, e numa manobra espetacular que ele fez, apesar do avião descer num terreno todo cortado pela erosão, nada aconteceu, o avião desceu intacto.
Depois de uma revisada no local do fogo, o piloto vem dizendo que achava que o curto que provocou o incêndio estava no rádio, e que iria isolar o rádio. Fez isso, depois mais ou menos umas duas horas, liga o motor do avião, acelera com força total por uns minutos, apaga e fala:
- Agora é com vocês, o avião com o rádio isolado, está sem problema, se quiserem, nós ficaremos aqui até aparecer socorro, já que não temos rádio para dizer onde estamos. Mas se toparem nós damos um jeito de levantar, e vamos embora.
Cada um olhou para a cara de outro, pensando "como levantar voou se não tem pista?"
O aviador muito experiente adivinha nosso pensamento:
- Só 100 metros de pista e nós levantamos voo.
Então como todos eram corajosos e que não temiam a morte, topamos. Nesse lugar era uma serraria desativada, morava uma família que só tinha assistência dos patrões de mês e mês e era por barco avoadeira, porque pela estradinha a ponte estava caída.
Pois bem, emprestamos ferramentas do rapaz, enxada, foice machado, facão e 100 metros de pista ficaram prontas em menos de duas horas.
Pronto para levantar voou, o piloto pediu para o rapaz que morava lá, um pedaço de corda que poderia ser cortada, e que fincasse um pau atrás do avião onde se encontrava posicionado.
Amarou uma ponta da corda no rabo do avião e a outra ponta no pau e mandou nós entrar no avião.
Então pediu para o caseiro que num sinal dele ele cortasse a corda.
Ligou o motor do avião, aqueceu, e começou a acelerar a toda potência.
O avião flutuava no ar, pois estava amarrado, e num sinal do piloto, o caseiro corta a corda e numa arrancada espetacular não precisando nem os 100 metros de pista e o avião já estava no ar, e mais uma hora de voo estamos em Jiúna, e de lá direto para um bar comemorar com uma cervejinha.

 
Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009