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Luis
Cesar Póvero
Campinas
/ SP
A
volta da mulher-livro
Com a mão aberta e espalmada acariciava mais uma vez aquele
dorso, aquele tronco, aquela pele anunciada em letras douradas. Esperta
e com capas abertas como um pára-quedas para amortecer a própria.
Mas a mão do leitor de nada quis saber e enfiou-a, arquivando-a
como que para sempre na estante.
- Que petulância, que despautério! - pensava a mulher
livro.
Depois que o tal leitor havia gozado, graças ao seu corpo e
conteúdo, numa relação de alguns dias, já
que o leitor era um tanto lento, e considerando que seu conteúdo
era um tanto farto, resultando assim em uma semana de romance interno
e externo.
Sendo assim satisfeito, lhe dava as costas como algo vencido e superado
em sua medíocre vida de leitor faminto, mais um, mais uma,
e partia para a outra prateleira a usufruir mais um corpo para se
deleitar de outra ostra literária.
- Não se abram, não se deixem levar, não se entreguem!
- exclama a mulher livro ao ver-se sendo descaradamente, trocada por
outra, ou por outro. - Quanta promiscuidade!
Assim em meio à multidão da estante, mesmo assim sentia-se
só, e pensava com suas páginas. Ele me acariciava página
a página com suas mãos de pianista, tocando-me como
um instrumento raro, conheceu-me totalmente por dentro, primeiro desfrutou
de minha contracapa, degustou de minha introdução, delicio-se
com minhas linhas e entrelinhas, devorou-me em capítulos, fartando-se
com brilho nos olhos a cada revelação, depois chegou
comigo ao prazer final, salivando com tal ambrosia literária.
Com olhar malicioso e saciado com o manjar dos deuses, segurou-me
fechada, assim descansei um bocado de tempo quase adormecendo em repouso
sobre seu sexo intumescido.
Doce ilusão momentânea, não me abriu mais, não
me tocou, apenas arquivou-me como tantas outras, como tantos outros.
Sendo assim seria tudo ou nada, atirei-me quando ele passava, este
me amparou com palma macia, não resistiu, abriu-me, vociferou
uma de minhas partes mais prazerosas, não resistindo, manteve-me
aberta, a devorar-me novamente assim, levou-me novamente para sua
cama. Era só isso que eu queria, mais uma vez. Havia valido
a pena esperar, já havia se passado cinqüenta anos, até
atira-me na sua frente após decidir o arriscado suicídio
com final feliz.
- A volta da mulher livro.
Não sabia quanto duraria, mas quem sabe? Poderia tornar-se
seu livro de cabeceira definitivo deitada sobre o criado-mudo e sob
o despertador calado.
Eterno triângulo amoroso adormecido ao lado do amado leitor
envelhecido.
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