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Manto sagrado
-Um dia eu volto. (Alguns anos depois...) O relógio marcava 13h em Montevidéu, uma mulher de óculos escuros caminhava sobre a bucólica grama do Parque Rodó. Calçava botas de bico fino, vestia calças jeans, camisa branca e um “ar” de mistério. Entrou num hotel próximo. Pegou as chaves do quarto. Debruçou-se no parapeito da janela. Tirou os óculos da face, revelando um par de olhos verde-esmeralda que se destacava na pele negra. À noite, encontrou-se com amigos num bar popular da cidade. Conversaram sobre negócios e sobre assuntos do dia a dia. Victor resmungava que a comida estava demorando. Heloísa divagava a respeito do marido. Hilde se entretia mexendo num frasco velho enquanto pensava na nova etapa da empresa. Bernardo e mulheres casadas entreolhavam-se. Letícia sorria, brincava, divagava... Silenciou! Lembrou-se do manto e dos montes por onde andou. Um garçom trouxe bebidas, pizzas e fatias de fainá. Brindaram ao sucesso e à paz. Estavam todos um pouco ali, um pouco noutro lugar. Entre sorrisos e olhares atentos, lembranças. Entre a fala e concentração, anseios. Nas linhas, as entrelinhas. No dito, o não-dito. No desejo, o medo. Na recordação, a crença. No agora, fragmentos. Onde estavam? Perdiam-se como loucos... perdiam-se em suas unidades... já estavam vendo turvo. Gradativamente, abdicavam de vaidades. Como bichos instintivos, gritavam inconscientemente, riam no propagar do vazio. Perderam a direção, estavam na contra-mão... BATERAM... beberam demais! No hospital, a notícia: -Sente-se
bem, Letícia? II “Eu sei, me perdi ao lhe perder. O mais triste nisso tudo é que você não foi embora porque quis; a loucura que, aos poucos, lhe levou. Fui embora, dei adeus, achando que estava esclarecida o suficiente para ser feliz. Pequei ao achar isso. Sem você me vejo partida, dilacerada. Nesses longos anos, dediquei-me à profissão e à ajuda solidária aos necessitados do Uruguai. Esqueci-me de ajudar a mim também! Esqueci-me de esquecer você. Fiquei absorta num vazio imensurável. Na verdade, nunca me perdoei pelo que fiz, por isso não sei mais o que é paz. Desculpe-me, por favor!” Ass: Letícia ... “Letícia, depois de todos esses anos, muita coisa mudou por aqui. Como percebe, recebi a sua carta – continuo morando na casa que era nossa. A minha obsessão e loucura não existem mais. A única diferença entre nós dois é que, eu, não me abandonei! Passei por um período muito difícil depois que você foi embora. Mas reergui-me ao perdoar a sua partida. Procurei ajuda, procurei estudar, procurei me amar mais. Entretanto, em nenhum momento me esqueci de você. Transformei todo meu apego em desapego... te amo mais puramente do que amei outrora. Saudades.” Ass: Faraji ... Carta de despedida aos meus queridos amigos uruguaios Quando falamos de amor, o tempo se torna atemporal; o coração não hesita em se aventurar. Ele sabe que, mesmo os mares mais antigos, podem trazer novidades e que é impossível desbravar todas as ondas e velejar por todos os percursos. O amor é a simplicidade mais misteriosa que existe. Ele amadurece e se purifica à medida que a nossa moralidade se fortalece. O Amor é a alma de Deus que vive em nós... quanto mais libertarmos o nosso Deus interno, mais puro e maduro ele (o amor) vai ficando... ao ponto de se impregnar em todas as nossas ações. Só esse verdadeiro sentimento pode unir a razão à emoção. Só ele pode curar... é o amor que gera o perdão, o respeito, o carinho, a humildade, a força, a proteção. É ele que faz você levantar, que lhe faz perceber os seus próprios erros e acertos... É
por amor que estou voltando de onde vim! Ass: Letícia ... Chegou à casa; olhou para porta donde, há anos, partiu. Percebeu que “o sol” não nascia mais no lado de fora... A luz – não aquela que ofusca, mas a que ilumina – estava no lado de dentro. Chorou, respirou fundo, largou as malas na escada. Bateu na porta... Ninguém abriu. Ficou triste, desamparada, desprotegida, tomou um calmante... Sentou-se no chão; ali mesmo, depois de horas, dormiu. Mãos carinhosas e cautelosas a levaram para cama. Faraji chegara. Sobre a mala, estava o manto que um dia cobriu o corpo nu de Letícia. Ele o pegou... cheirou, chorou, apertou contra o peito, deitou-se ao lado dela e os cobriu com o mesmo manto que, certa vez, ela disse adeus. Sussurrou baixinho no seu ouvido: “Te amo... Eu sabia que um dia você iria voltar...” Dormiram. Sonharam que estavam dormindo juntos. Acordaram e ainda achavam que era um sonho. Se beijaram... se amaram... provaram que, para o amor, não existe fronteiras. Querida
Letícia, sempre pensei que tudo poderia ter sido diferente. Ass:
Faraji... (as cartas que nunca mandei!) |
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Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009 |