| |
Patrícia
Daiane Rech de Oliveira
Carazinho
/ RS
A
diarista
Folhas secas, frio e sono. Tudo fica escuro, o corpo duro, o coração
sem dono. Olho pela janela e quem vejo? É ela! A Diarista -
Cinderela, que todo dia cumpre a rotina, de se dirigir ao trabalho
para quebrar o galho de sua família falida, que tornou a garota
sofrida em uma espécie de amuleto, capaz de suportar todos
os ungüentos e ignoram seus lamentos.
Essa moça não é mais criança, mas não
vai às festas e nunca dança. Não a vejo sorrindo,
tampouco cantarolando... Imagino-a diferente, em um cenário
lindo e seus cabelos arrumando. Seu corpo esguio adornado por um belo
vestido bordado e buscando na vida algum sentido. Vejo um jovem forte
que possa livrá-la da triste sorte e a conduza a um castelo,
que com ela sele um elo de amor e bem-venturança, que a faça
esquecer a dor e renove sua esperança. Seu semblante, aos poucos,
suaviza, ela sente a leve brisa e seus lábios se abrem em um
belo sorriso de alvos dentes, que desvenda todo o seu viço
e revelam seus sonhos mais ardentes, acaba-se o caso omisso, não
mais sente dor; enfim, tornou-se gente e descobriu o amor.
O devaneio cede lugar à realidade, e observo agora a verdade:
ela limpa as vidraças e divaga, provavelmente sobre sua desgraça.
Seu silêncio é mortal, talvez esteja pensando, enquanto
vai esfregando, na ironia de seu destino: manter-se equilibrada, sem
perder o tino, para não cair estatelada, na janela onde ora
está pendurada. Ela corre um sério risco, se do oitavo
andar do prédio despencar; morrer não é o remédio,
e não haverá ninguém para livrá-la desse
tédio que a vida insiste em lhe proporcionar. Ela finda a tarefa
e já não a vejo: talvez agora, enquanto reprima seu
desejo, esteja das roupas de seu patrão a cuidar; lavar, passar,
limpar, cozinhar. Seus dias passando assim, seu turno se aproxima
do fim e logo se aproxima a hora em que ela poderá descansar.
Nem sei o seu nome, ou sua condição. Não entendo
se o que penso a seu respeito são devaneios, tampouco sei do
que lhe passa ao coração. Até onde a vista permite,
vejo-a partir com o olhar perdido, até arriscaria dizer que
triste. Talvez, buscando nisso tudo algum sentido, mas de sua condição
não faço nenhum chiste, mas se alguma justiça
no mundo existe, arrisco uma premonição: sem fada ou
varinha de condão, que um dia o castigo se converta em oportunidade
e desejo a ela que encontre de verdade, algo que possa transformar
seu caminho e torná-la mais forte, podendo, então, mudar
seu destino e sua sorte.
|
|
|