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Teatro de marionetes
- Por que deixou que isso acontecesse? Você é invejoso e cruel! A dor parecia dilacerar sua carne feito navalhas. Não era uma simples dor. Era a dor do corpo fundida com a da alma. A partir dali, precisaria viver sozinho a sua vida. Ela era
o seu mundo. Sua luz, seu caminho, seu céu, o porto seguro
onde queria atracar para sempre. Linda. Grandes olhos azuis que pareciam
um céu de abril. Sorriso farto, rosto fino emoldurado por longos
e fulvos cabelos. Seu corpo era de causar inveja a Rodin. Não tinha vontade própria. Ser vegetativo e pálido. Sempre a caminhar sob sombras dos longos cabelos cor de ouro. O brilho dos olhos cor de oceano hipnotizava, atraia, destruía. Há dois meses a conhecera na Praça da Liberdade. Enquanto pintava o retrato de uma velha desdentada, ela o observa, hipnotizava. - Você
é bom... - disse com voz rouca e sensual. Seus olhos disparavam feixes invisíveis de sedução e encantamento. - Claro.
- gaguejou. Ela sentou-se num traste de banco. Como queria ter uma poltrona confortável pra ela sentar. - Pensou. Com traços rápidos e descompassados ia esboçando as linhas que formariam um rosto lindo e maldito. - Pronto!
Acabei...
- Quando a verei de novo? - uma pergunta que soava como um mantra sombrio e cinza. Trancou-se
num mundo que não era seu. Ele pertencia a ela. Sentado na mesma Praça, embalado pelo tédio, observava o vai-e-vem das nuvens no céu carregado de poeira e de saudade. - Que surpresa! Nem mil anos apagaria de sua memória aquela sinfonia de querubins tocada em uníssono.
- Achei que podia encontrá-lo aqui novamente... Ele não acreditava. - Você
quer outro retrato? Seu poder de sedução era incrível. E ela o adorava. Uma mulher excêntrica gostava de ver a dor de seus semelhantes. Ser superior, beleza superior. Bruxa do jogo da sedução. Naquele dia arrebatara mais uma marionete para a sua coleção. Os movimentos dele eram regidos pelas cordas que ela balançava. Um homem marionete, uma marionete com cara de homem. Dias de diversão. Ela adorava fazê-lo dançar; correr, pular. Ensinou-o a arte de amar. Balançava seu corpo, sua alma, seu ser. O trágico teatro do homem marionete era constante, seus dias eram em virtude das vontades dela, seus passos eram guiados por ela. - Ah...
Como te amo! Não deu satisfação e saiu. Lá em cima. Bem lá em cima, no topo de uma torre de concreto e aço quase arranhando o firmamento, ele brigava com Deus. - O que aconteceu? Você é invejoso e cruel! Mirava
a calçada fria e cinza daquela altura era apenas um filete
apagado. Esfregou os olhos e continuou sua briga. As unhas encravadas na pele do braço esquerdo. Um filete de sangue escorreu. - Exijo uma resposta! Dois passos separavam-no do abismo. Mais uma vez olhou em direção da calçada. Vertigem. Tinha medo de altura. - É isso que você quer? A solidão perpétua? Que seja feita a vossa vontade! Deu dois
passos, virou-se e foi embora. Era orgulhosa demais, não suportaria viver sem ausência de sua marionete preferida. No teatro de marionetes, apagaram-se as luzes e fecharam-se as cortinas. Ela descobriu o abandono do amor. |
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Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009 |