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Josafá
Gomes Pereira
Cáceres
/ MT
A
morte do poeta
São três horas da tarde, o Sol escaldante brilha no céu,
um calor infernal...
Na praça central algumas pessoas, um dia tranqüilo e calmo
em Mind, a maioria da população vive na boemia, trabalham
quando dá na teia ou quando são obrigados a fazê-lo.
Um pequeno grupo se forma, o Marceneiro, o Serralheiro e o Guarda
conversam: - Viram o Poeta hoje? - Pergunta o Marceneiro, que não
sabia ainda dos boatos que já corria pela cidade. - O Poeta
morreu! - Disse o Serralheiro como que admirando a desinformação
do Marceneiro.
Na verdade ninguém sabe direito o que aconteceu, mas sabe-se
por quase todas as bocas que o Poeta morreu.
É o começo do tumulto. Uns achavam que o Poeta havia
morrido, outros diziam que viajado ou tinha simplesmente se trancado
em casa.
O Guarda afirmou que o tinha visto há um mês, mas isto
é muito tempo. ele explicou ainda que quando viu o Poeta era
de madrugada e ele andava pela rua da Saudade no bairro da Esperança,
parecia triste, pensativo. O cumprimentou mas sem o entusiasmo de
sempre...
O Poeta morreu! Morreu não, morreu? Morreu! Viajou! Está
doente! Os tons das vozes iam aumentando quando o Jornaleiro chega
e pergunta o motivo da reunião. Já é uma reunião,
em Mind faz-se reuniões na praça sempre que há
emergências. Depois de indagar o motivo pediu a palavra, todos
se voltaram para ele, ficou sem jeito, com um sorriso amarelo disse:
eu vi o Poeta. Quando? Pergunta em coro a pequena multidão.
Foi..., não me lembro direito, mas foi na casa dele, acho que
tem uns quinze dias, Nesse momento ele expressa tristeza e preocupação,
o tom da sua voz se baixa e o burburinho começa novamente.
...
Quem viu ele morto? Ninguém viu! Mas não precisa ver!
Alguém viu ele viajando? O bilheteiro da agencia de viagens
disse que por lá ele não passara... Morreu mesmo! Morreu
não! Está vivo por aí! Ele sempre some e depois
aparece! Mas já faz muito tempo que ninguém o vê!
Chamaram o médico. Viu o Poeta? Vi. Responde ele prontamente.
Quando? Pergunta a inquieta turba. Deixe-me ver... A última
vez que o vi foi quando ele consultou, foi... Quando!? Fala logo!...
Faz tempo, uns três meses, Ah!!! Assim não dá!
O médico é um ancião, um dos mais velhos de Mind,
usa barba, fala calmamente, é perito em resolver os pequenos
problemas da população com seus chás e porções
curativas. conhecia bem o Poeta e sabia que ele não estava
doente, mas não tinha a mínima idéia de onde
ele estivesse. voltou ao consultório para ver as últimas
anotações feitas na fixa de acompanhamento do Poeta.
...
em Mind é assim, todo mundo vive no mundo da lua, ninguém
sabe nada direito, principalmente quando envolve outras pessoas, mas
tem uma coisa interessante em Mind, quando alguém precisa,
todos se ajuntam para ajudar, não importa quem seja, toda a
cidade se une para resolver problemas.em Mind é assim, todo
mundo vive no mundo da lua, ninguém sabe nada direito, principalmente
quando envolve outras pessoas, mas tem uma coisa interessante em Mind,
quando alguém precisa, todos se ajuntam para ajudar, não
importa quem seja, toda a cidade se une para resolver problemas.
...
A reunião continuou na praça, e quanto mais pessoas
se juntava, maior era o tumulto...
Mind é uma cidade pequena, porém nunca alguém
se preocupou em contas seus habitantes, sabe-se porém que não
são poucos e a cada dia novos habitantes chegam. Essa população
não é, como alguns pensam, seleta. em Mind existem pessoas
de todas as índoles e comportamentos. A diferença dessa
cidade para todas as demais é que não existe diferença
entre o juiz e o assassino, entre o ancião e a criança,
entre a beata e a prostituta, entre o missionário e o traficante.
todos, sem escessão se respeitam, cada um se põe no
seu lugar e desenvolve o papel que lhe é designado. Não
existem prisões, penalidades. todos os acontecimentos são
tratados como fenômenos naturais e os "problemas"
são revolvidos sem parcialidade ou favoritismo. Do menor ao
maior, todos sabem dos deveres e dos direitos que lhe são designados
ou atribuídos.
...
Morrer em Mind tem um significado singular, não existem cadáveres
nem cemitérios, muito menos funerárias etc.
Mas antes de explicar a morte em Mind, deixem-me falar sobre o nascer.
Em Mind nascer é tornar-se visível, assim ninguém
chega em Mind velho, ao passar pelos portões de entrada o velho
torna-se novo e é adotado por algum habitante sendo tratado
com todas as regalias e cuidados necessários para o crescimento.
Nenhuma criança lá vive nas ruas, todas são acolhidas
e acima de tudo, são respeitadas pois recebem, dos adultos,
todos os cuidados necessários para o desenvolvimento, desde
conselhos e orientações à total liberdade de
conhecer-se bem como conhecer outras pessoas. As relações
entre os habitantes de Mind é prioridade, por isto, desde pequenos
os mindianos aprendem que carinho é essencial e que o prazer
pessoal é uma extensão do prazer coletivo.
Assim se nasce, assim se vive em Mind.
...
Se nascer é tornar-se visível, morrer é o inverso,
tornar-se invisível, assim não há cadáveres,
não há assassinatos, não há mortes por
doenças ou outros males, a única forma de se morrer
em Mind é tornar-se invisível, ou seja, deixar de se
relacionar, isolar-se dos outros, desaparecer gradativamente. Quando
isto começa a acontecer é o início da Morte.
Ninguém morre da noite para o dia, a morte é um processo
demorado e na maioria das vezes pode ser revertido. Apesar de ser
um processo demorado, não é dolorido, pelo contrário,
é uma das coisas mais agradáveis em Mind, não
para quem se vai, mas para quem fica é é sim desagradável
pois cada habitante tem seu valor e é insubstituível.
Note-se, tornar-se invisível não é deixar de
existir, a existência em Mind é eterna..., logo morrer
significa eternizar-se, cristalizar-se, não se vê mais,
porém torna-se presente em tudo e em todos, daí ser
agradável e prazeroso o morrer em Mind, pois esse é
o único acontecimento no universo que a um único indivíduo
estar presente em tudo e em todos ao mesmo tempo.
...
Voltemos ao Poeta.
...
Os registros do médico não ajudaram muito, o tumulto
continuou e a cada momento mais pessoas se juntava na praça,
todos com a intenção de ajudar a descobrir onde o Poeta
se encontrava.
Chamaram o Professor, um homem concentrado, mas bastante extrovertido.
veio ele e algumas crianças, anda sempre assim, rodeado dos
pequenos e curiosos mindianos.
Ao ser interrogado sobre o paradeiro do Poeta não soube dizer,
tudo o que sabia era que há uma semana o Poeta havia se oferecido
para ir à escola falar às crianças, depois disto
nunca mais o vira.
No meio da conversa do Professor um dos seus alunos, o menor deles,
levantou o bracinho pedindo para falar, ninguém o notou, continuaram
conversando, cada um supondo algo, até que a criança
disse: eu vi o Poeta! Alguém o ouviu. O que? você viu
o Poeta?
Todos calaram-se e procuravam quem tinha dito que havia visto o Poeta.
Então o Professor, calmo e sereno como sempre, pegou o pequenino
ao colo e lhe pediu que explicasse a todos onde e quando havia visto
o Poeta.
Os pequenos mindianos são ávidos e atentos a tudo o
que se passa e sempre estão alegres. - Vi o Poeta amanhã!
Disse. Ainda confundia essas coisas do tempo. deve ser ontem, disse
o Professor que como ninguém conhece as crianças e serve
sempre como interprete das idéias das mesmas. eu estava brincando,
continuou a criança, então ele passou e falou comigo,
eu fiquei tão feliz, depois ele enfiou a mão no bolso
e me deu isso. Disse repetindo o gesto do Poeta e tirando um pedaço
de papel do bolso.
O Professor pegou o papel, cuidadosamente o abriu, era um bilhete
pequeno, escrito à mão, a letra era mesmo a do Poeta,
datava de três dias atrás. todos ficaram apreensivos,
até agora era o mais próximo que haviam chegado do Poeta
desde que sentiram sua falta.
Então o Professor leu:
Queridos
amigos,
Se estão lendo esse bilhete hoje é porque estão
reunidos à minha procura. fico feliz e agradecido por isto.
O motivo do meu desaparecimento vocês saberão quando
me encontrarem.
Embora pareça absurdo para todos, mas eu saí da cidade.
Só conseguirei voltar se vocês me encontrarem e só
poderão ffazê-lo saindo também.
Não se preocupem. Saberão quando e como no meomento
certo
Um abraço a todos,
O Poeta
Além
das palavras ninguém entendeu nada, nem mesmo o Professor que
sabia muita coisa, de tudo ele conhecia um pouco mas não conseguia
entender porque o Poeta havia deixado aquele bilhete e nem essa história
de "sair" da cidade.
todos os habitantes de Mind vivem dentro dos termos da cidade. A maioria
deles não têm conhecimento dos portões de saída,
apenas sabem das entradas, mas existem outros dois de saída,
porém poucos, quase ninguém conhece esses portões.
Na verdade só quem já saiu sabe, mas até agora
ninguém tem conhecimento de alguém que tenha saído
e voltado.
...
Guardaram o bilhete e puseram-se a pensar: Quem poderia ter saído
e voltado?
fez silêncio na praça. A preocupação e
a desesperança começavam a abater-se sobre Mind. o Poeta
corria risco, agora sabiam onde ele estava, precisavam ajudá-lo,
mas não sabiam como.
Ouviu-se ao longe o som de um violão e uma voz que cantarolava,
era o Músico, vinha despreocupado e completamente alheio aos
fatos de Mind.
Por onde você andou? Bem, eu estava em casa fazendo música.
O que houve? quem Morreu? Até agora ninguém, mas se
não acontecer um milagre alguém vai morrer! Quem? O
Poeta! Ele está desaparecido há dias e você que
se diz amicíssimo dele não está nem aí?
Pois eu estou indo à casa dele para que me ajude com umas poesias...
Ele está desaparecido leso!...
A despreocupação e tranqüilidade do Músico
já estavam irritando todo mundo, só então ele
entendeu que não adiantaria ir à casa do Poeta.
Mostraram-lhe o bilhete, ele leu e releu, em silêncio, ficou
pasmo, desconcertado, conhecia uma saída, mas não era
segura, e não tinha certeza se encontraria o Poeta lá
fora.
A saída que conhecia era para um mundo estranho, barulhento
às vezes e outras totalmente silencioso mas denso, cheio de
coisas e imagens. Não seria seguro e o Poeta com certeza não
estaria lá.
Lembrou-se da outra saída, mas esta é apenas uma ponte
que leva à outras cidades semelhantes à Mind e ele nunca
havia atravessado-a e não sabia se o Poeta se interessaria
ir para outra cidade pois amava Mind.
Restava a entrada principal, quase ninguém sabe que pode-se
sair por lá. Esta entrada está sempre superlotada de
pessoas que entram. Poucos se arriscam a andar contra a multidão
que vem.
...
Sair pela entrada principal é um desafio, ela sai direto na
Terra do Sol, um mundo fantástico, extremamente iluminado,
cheio de coisas lindas e maravilhosas, cheio de vida, de cores, pássaros
e lindas paisagens. Para lá sim o Poeta iria, esse é
o único lugar para onde fugiria.
Algumas vezes o Músico já havia chegado até o
portão e visto de longe tais maravilhas, outras o Poeta havia
lhe contado, mas nunca se arriscara sair. Mas ele sabia que o Poeta
teria coragem para fazê-lo.
...
Acorda Rapaz!
O Músico volta a si, assustado, havia ficado minutos absortos
nas idéias e lembranças das saídas e voltas,
das vezes que chegara à entrada principal junto com o Poeta....
Mas agora o Poeta fora e não voltara.
...
Olha a melancia! Laranja! Banana!
A voz estrondeara pela praça, chegando o Agricultor o silêncio
se rompe.
Quem vai levar!? Moça bonita não paga pra olha!... Fazendo
suas rimas e com um sorriso no rosto caminhava tranqüilamente
com seu carrinho cheio de produtos frescos da lavoura.
Ninguém vai querer nada hoje!@
Gritou alguém. estamos com problemas e você vem nessa
gritaria!?
Opa! me desculpem. O que está acontecendo?
O Poeta desapareceu, talvez até já tenha morrido lá
fora! Ninguém sabe por onde ele saiu e nem onde ele está
agora!
pois eu o vi ainda hoje, de manhã bem cedo quando eu saia de
casa... Ele não estava com cara de quem está morrendo
e caminhava para os lados da Praia da Felicidade.
Já ia saindo com seu carrinho...
Mas de que planeta você é? Onde você mora homem
de Deus!? Nós não vemos o Poeta há dias!
Ora ora! Eu estou aqui todos os dias, mas vocês não me
conhecem mesmo. Eu moro fora da cidade, venho e volto todos os dias,
moro em um lugar lindo que vocês nem imaginam que exista.
Ele deve estar pirado!
Cala a boca! Temos que encontrar o Poeta!
Ele disse que espera por vocês na praia...
Pessoal, por mais absurdo que pareça nós temos que acreditar
nele, disse o Músico. Acreditem! Vamos e vocês verão
que é verdade!
Seguiram aquele homem, com medo, sem acreditar, mas foram.
Depois de passarem pelas várias paredes que formavam o labirinto
chegaram ao portão principal. Era inacreditável o que
viam. A luz ofuscava-lhes a visão, mas ao mesmo tempo os convidava
a saírem. Pedindo licença, empurrando aqui e ali por
causa daqueles que tentavam entrar, enfim conseguiram sair.
...
A visão era deslumbrante, o céu, as cores, o ar, tudo
era muito lindo...
Demorou um pouco para se acostumarem com o novo ambiente, logo que
o fizeram partiram em direção à tal Praia da
Felicidade, que a maioria deles nem fazia idéia do que seria
isto.
Não era longe, aliás, nesse mundo nada é tão
longe...
A praia..., nunca tinham visto algo tão grandioso..., o mar,
tão imenso, tão lindo, as ondas, tão fortes...
Por um momento esqueceram o que foram fazer..., os pássaros,
as árvores, o Sol, o vento.
...
Lá está ele! - Gritou alguém. todos correram.
O Poeta lá!!
De pé, olhando para o horizonte, o Sol já baixo... Estava
em silêncio, não se voltou com os gritos que o chamava,
parecia absorver a luz do Sol...
Todos pararam à uma distancia, não tiveram coragem de
interromper, puseram-se a observa-lo. Parecia abatido, transfigurando-se.
Caiu de joelhos, ficaram apreensivos, sabiam o que estava acontecendo.
Nunca haviam presenciado algo assim, mas sabiam que o Poeta estava
morrendo. A cada minuto mais luz o envolvia. Não resistiu,
lentamente deitou para traz, agora, com o corpo imóvel sobre
a areia. De súbito a luz se foi, o processo fora interrompido,
não se sabia o que estaria acontecendo.
O médico correu até ele, examinou-o, seu rosto ainda
brilhava sorridente. Todos os outros se aproximaram.
Ele precisa inspirar!
O médico começou a fazer massagem com alguns movimentos
estranhos usando as mãos, tentava levantar sua cabeça,
como que querendo que ele visse mais uma vez o Sol no horizonte.
Inspira! Insistia o Médico já aflito.
Respira! Respondia o grupo.
Inspira! Respira! Inspira! Respira!
Calem a boca! Exasperou-se o Médico. ele precisa é de
Inspiração! É isso!
Inspiração!?
Todos se assustaram. Há quanto tempo não a viam!? Que
ralho andou acontecendo em Mind? Onde essa tal de Inspiração
se metera?
Olá! O que está acontecendo? - Pergunta uma voz meiga
e não estranha.
O Poeta! ele está morrendo! Responde alguém, indiferente
à voz...
O que? O Poeta não!
Põe-se de joelhos ao lado do Poeta, este a olha com movimentos
lentos...
Por onde andou querida?
Fui visitar o Pintor...
Ah Pensei tê-la perdido para sempre...
Estou aqui, seja forte...
Não poderei mais voltar... Ajude meus amigos...
O Poeta fecha os olhos, seu corpo começa a brilhar novamente,
o Médico testa os pulsos, estão normais, o Poeta sorri,
diz adeus ao velho amigo. a luz torna-se ainda mais intensa, o corpo
do Poeta começa a flutuar no ar,seu rosto ainda brilha e ele
ainda sorri... Agora pode ver a todos, eles maravilhados com o que
viam não paravam de observa-lo contristados pois sabiam que
estava indo para não mais voltar, não na mesma forma.
Não podia-se ver o Poeta mais, apenas a luz forte e maravilhosa.
De repente raios e mais raios como em uma queima de fogos de artifício
atingiram cada habitante de Mind, desta vez sabiam de quem havia vindo
a luz.
Após os raios não se viu mais o Poeta.
Conta-se que após esses acontecimentos o Músico consegue
escrever as mais belas poesias, o Marceneiro criou vários móveis
interessantes e úteis, o apito noturno do segurança
ficou mais sonoro a agradável o Jornaleiro sempre trás
boas notícias, o Professor injetou ânimo e criatividade
em suas aulas, o Médico faz a todos os doentes e melancólicos
esquecerem seus males e sorrirem de felicidade etc... A inspiração
nunca mais se ausentou de Mind. Todos os dias ao entardecer acontecem
saraus de poesias e música na praça.
Os portões de Mind foram ampliados, o labirinto que obstruía
a entrada principal foi demolido para que a luz do Sol ilumine toda
a cidade todos os dias.
...
Irruuu!!!!!!!!!
Ecoa um grito agudo na floresta.
Uuuuu!! Responde de lá um mais grave.
É o Agricultor, hora do café da tarde, ele está
na sombra. a senhora chega, serve-lhe o café, o bolo...
Que Sol quente hem!
É. Não dá para tocar direto. Tive que parar um
pouco para refrescar as idéias.
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