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Lourdes
Neves Cúrcio
Barra
Mansa / RJ
O
transatlântico
Estamos no porto aguardando o momento de embarcarmos no Vida, o maior
transatlântico de todos os tempos, já ancorado e pronto
para nos receber. É nele que passaremos a vivenciar o antagonismo,
ou seja, o amor e o desamor, a alegria e a tristeza, a harmonia e
a desarmonia, o otimismo e o pessimismo, a igualdade e a desigualdade,
o sorriso e o pranto. Chegada a hora exata do embarque e com todos
os passageiros muito bem acomodados no interior do navio prestes a
zarpar, tem início a nossa longa viagem. Quando percebemos,
já estamos em alto mar...
As inúmeras pessoas a bordo possuem caráter, raça,
credo político-religioso, costumes e faixa etária totalmente
diversificados; pode-se afirmar que é um público heterogêneo
dividido em grupos que ocupam recintos consonantes com seu poder aquisitivo
e que não exercem no interior do transatlântico os mesmos
tipos de atividades. Há os que viajam ao lado de seus entes
queridos ou amigos e há os que preferem viajar solitários.
Há quem faça parte da tripulação, zelando
sempre pela segurança, recreação, conforto e
bem-estar dos passageiros e há os que simplesmente se divertem
com a viagem, desfrutando de todo o prazer que esta é capaz
de proporcionar. Além desses, estão também a
bordo os passageiros clandestinos, ou seja, aqueles que viajam escondidos
por não terem cumprido os trâmites legais exigidos para
o embarque. Pelo fato de terem se eximido da obrigatoriedade de um
dever, são tolhidos em sua liberdade de circulação
pelos inúmeros deques do navio.
Os dias a bordo do transatlântico também não são
todos iguais. Há dias em que o mal está calmo, o vento
brando, o sol maravilhoso e o céu completamente azul. No entanto,
há dias de turbulência, quando o mar revolto, o vento
uivante e o céu enegrecido são prenúncio de forte
tempestade, o que torna a travessia difícil e arriscada. Nesses
momentos de pânico, alguns passageiros se desesperam, tornam-se
deprimidos e são prontamente reconfortados por outros mais
destemidos, que não hesitam em oferecer seus préstimos
no consolo de seus companheiros de viagem; são pessoas que
se sensibilizam com o sofrimento alheio, pois estão conscientes
de que o amor ao próximo é algo imprescindível
à existência humana. Outros, ao contrário, permanecem
frios, distantes e totalmente indiferentes à dor do próximo;
são pessoas incapazes de abrir mão da comodidade para
ir ao encontro de quem deles necessita. Cessada a tormenta, as coisas
retornam ao seu estágio normal e a viagem prossegue...
Alguns passageiros consideram a viagem demasiadamente longa, exaustiva
e tediosa; por incrível que pareça, chegam ao extremo
de interrompê-la bruscamente, abandonando o navio e indo ao
encontro das águas geladas do mar. Outros, por sua vez, entretidos
com os inúmeros afazeres do cotidiano, não dispõem
de tempo suficiente para pensar nos percalços. Porém,
a grande maioria dos passageiros quer mesmo é curtir ao máximo
cada momento da viagem, a fim de que esta se torne inesquecível,
evitando até mesmo tecer comentários sobre o temido
momento do desembarque. E assim o transatlântico singra o oceano...
O número de passageiros já não é mais
o mesmo do início da viagem, pois alguns não conseguiram
resistir às intempestividades. Apesar da navegação
lenta, muita coisa já ficou para trás; chegamos à
conclusão de que o tempo passou rápido demais e nós
nem percebemos. Durante todo o percurso, já nos acostumamos
a conviver com as mais diversas situações. Há
passageiros, por exemplo, que não se sentem completamente seguros
a bordo, pois temem que a qualquer momento ocorra algum imprevisto.
São pessoas que estão sempre prevendo possíveis
acidentes, seja por falha humana, técnica ou até mesmo
devido a intempéries da natureza; idealizam maremotos ou enormes
icebergs vindo em direção à embarcação,
enfim, estão sempre pensando no pior. Outros, já bastante
otimistas, acreditam com veemência que chegarão incólumes
aos seus destinos; são confiantes, demonstram tranquilidade,
superam com destreza as adversidades e crêem plenamente na experiência
do comandante, pois estão convictos de que ele nunca falhou
e não falhará jamais. Há também no navio
aqueles passageiros ranzinzas, que reclamam de tudo e de todos, achando
que a viagem está demorando bem mais que o previsto e há
os de má índole, sempre aptos a disseminar a discórdia
e o desamor. Reclusas no calabouço da própria amargura,
essas pessoas perdem a preciosa oportunidade de observar lá
fora a paisagem magnífica com que o dia de hoje nos presenteia.
Em contrapartida, para o bem e sorte da coletividade, estão
também a bordo os sensatos, os prudentes, os pacíficos,
os alegres, os espirituosos, os que sabem vivenciar o amor, os que
conseguem tirar proveito das experiências do cotidiano, os que
não estão dispostos a transformar o navio num terrível
campo de batalha.
O enorme transatlântico, por sua vez, a todos abriga e avança
navegando lenta e firmemente em alto-mar. Faça chuva ou faça
sol, lá vai ele cumprindo o seu percurso. Em meio a tantos
amores e desamores, desigualdades e incertezas, apenas uma coisa é
certa: haverá um dia em que a viagem terá fim, pois
o ponto final do transatlântico aguarda o momento do desembarque
de todos os seus passageiros...
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