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Roza
Maria Palomanes Ribeiro
Rio
de Janeiro / RJ
No
outono, a primavera
"Não há instinto como o do coração".
(George G. Byron )
Soprava um vento frio, quando se levantou e olhou pela janela de seu
quarto. Começava um dia como tantos outros na vida de Maria
Eugênia. E, como de costume, o vazio a acompanhava: nada de
novo a acontecer, seria apenas mais um dia de outono. Cinzento. Sem
vida.
Maria Eugênia, Geninha, era uma mulher de meia-idade, com sonhos
e desejos sufocados. Nascida de uma família portuguesa, burguesa
e católica, foi criada de modo a pensar não em si, não
no que queria ser, mas no que esperavam que fosse. Cresceu ouvindo
sua mãe dizer que a humanidade é masculina e o homem
deve decidir tudo pela mulher. Talvez tenha sido a repulsa a esta
"verdade" que a tenha deixado arredia com relação
aos homens que conheceu.
Desde cedo, teve que aprender, portanto, a conviver com a solidão.
Era uma escolha, como costumava dizer a todos e a si mesma. Na verdade,
faltava-lhe coragem para ousar, experimentar, conhecer, por isso,
deixava-se conduzir pela vida cotidiana.
Achava-se nada, mas tinha em si todos os sonhos do mundo.
Bem lá no fundo, Geninha sabia que era bem diferente de sua
mãe. Esta, por sua vez, pode ter pensado o mesmo em sua meninice.
Por sua criação religiosa, Geninha não ousava,
sequer, rejeitar aquele modelo a seguir e a quem deveria amar e obedecer
incondicionalmente.
Com este perfil é fácil entender por que Geninha vivia
o mesmo tipo de vida há anos. "Não se deve mudar
o que dá certo", pensava. Até a posição
dos móveis de sua casa e os retratos dos porta-retratos eram
os mesmos há anos. Desbotados. Sem vida. Tudo sempre do mesmo
jeito que sua falecida mãe havia deixado.
Sim, Geninha trabalhava. Era secretária. Receber ordens e agir
mecanicamente era o que sabia fazer bem. Era um trabalho que não
lhe dava prazer, mas não exigia sacrifícios. Como não
tinha com o que ocupar sua mente naquelas horas em que somente o corpo
trabalhava, começava a se imaginar uma outra pessoa, com coragem
para quebrar a monotonia de seus dias. Sim, queria ter coragem para
viver, e não apenas sobreviver. Um grande incômodo,mas
um pensamento passivo.
Na sexta-feira, Maria Eugênia viu o tempo passar lentamente.
Ânsia de chegar a hora de voltar para casa. Para quê?
Nem ali podia ser ela mesma. Mas, era um outro personagem. Por muitas
vezes, se pegou representando frente ao espelho - era necessário
para fugir da crítica que via estampada em seus olhos. Olhos
que não costumava encarar.
Deixou o trabalho com pressa, como se tivesse um compromisso agendado.
Estranho! No seu coração, um forte instinto a levava
a pensar em alguém a sua espera, alguém para quem voltar
quando acabava o dia. Há muito não pensava assim.
E nesse momento, perdida em seus pensamentos, nem percebeu que o elevador
tinha chegado a seu destino. Todos já haviam saído,
com exceção de um homem: olhar intenso, traços
firmes, sorriso delicado. Com curiosidade, ele a olhava vagar por
seus pensamentos que, adivinhara, serem prazerosos. Uma forte atração,
talvez movida pelo brilho intenso daquele olhar, o levou a se aproximar
de Geninha. Como não a havia notado? Não alguém
com esse olhar tão sedento! "Por quantos dias haviam estado
juntos naquele elevador?"
Resolveu, então, quebrar o silêncio:
_ Por favor. _ disse ele, apontando a saída com a mão.
Aquela voz que a trouxe de volta fez com que, de novo, se perdesse.
Mergulhou naquele mar azul que a olhava com desejo, mas com extrema
ternura. E como que embriagada, Geninha novamente se deixou conduzir.
Com uma diferença: ela se sentia livre. De si mesma. Do destino
escravo que havia traçado para si. Sentiu-se dona de sua vontade,
permitindo-se aventurar por caminhos que evitara por tantos anos.
E Maria Eugênia foi com ele, desenterrando, enfim, os sonhos
esquecidos e os projetos não concretizados, florescendo, deixando
brotar uma nova mulher. Só tinha a oferecer uma vida não
vivida e um coração que, por tantos anos, sofreu calado,
solitário e incerto.
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