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Larissa Nascimento Sátiro
Feira de Santana / BA


Eu te amo

 


Ela descia a rua preocupada com seu novo corte de cabelo. Havia de ser algo que mudasse seu estado de espírito... Algo novo, que a fizesse renascer como fênix depois de todo aquele vendaval que enfrentara. Era assim que se sentia ao se desvincular daquele último laço de sentimento ao qual se atara sem perceber e contra o qual brigava e jurava não mais querer sentir a lhe enredar. Talvez por isso precisasse arrumar o cabelo. Toda aquela ventania a deixara despenteada, e à sua alma, revolta. Agora o que mais queria era cortar fora aquele cabelo e fazer nascer uma nova Ela. Mal sabia que algo tão simples poderia se tornar numa batalha insana, cuja participação, ainda que sem vitória garantida, mudaria o rumo de uma alma...ou mais.
Nenhum salão de beleza abrira naquela tarde... seria feriado? Ela não se recorda. Não era possível. De repente foi tomada por uma sensação de desordem grande, imaginando que sua vontade pudesse ser contrariada. Não entendem que ela precisava mudar já? Foi então que num momento de ausência total de lucidez, adentrou à primeira barbearia que viu. Nenhuma mulher se propõe a cortar o cabelo numa barbearia se o caso não for deveras grave. Perguntou ao homem com a tesoura: "Podes cortar meu cabelo?". Certamente poderia. Para que mais serviria aquela tesoura? Ele lhe respondera que sim, porém... Ah esse porém,é capaz de findar com qualquer tipo de ilusão acerca da facilidade de se encontrar a felicidade plena da realização de um desejo... porém, há um alguém com hora marcada para daqui a pouco. Se ele chega então ela espera um pouco mais. Quiçá esse alguém não venha nunca... quebre o pé, bata com a cabeça, resolva criar cabelo... sei lá. Contanto que não atrapalhasse os planos dela. Planos de mudança total, radical e efêmera; quase de alma! Quando uma mulher como ela resolve cortar o cabelo, está cortando muito mais que isso...
Quando ela finalmente se sentou na cadeira destinada àqueles com sede de mudança, eis que de súbito, ele chega. Ela, já despenteada - que mania essa a dos cabeleireiros de deixarem-nos assemelhados a um mico leão assustado quando nos sentam em suas cadeiras mágicas... talvez para fazer parecer que sairemos mais bonitos do que quando entramos - percebeu quando ele se aproximou. E lhe foi sussurrado no ouvido: "Se importa que eu o atenda primeiro? É que ele é todo nervosinho..." Ah! Esse nervosinho tinha que chegar agora? Que ódio! E tinha que puxar conversa, e ficar olhando para os seus quadris (ou quase isso), e pedir seu telefone. E ela? Tinha que achá-lo um charme, todo atrapalhado com o que dizer e como agir, e dar seu telefone? Por que diabos fizera aquilo? Deveria estar drogada, pensara. Tomado na veia, cheirado orégano vencido ou algo parecido. Mas não... Definitivamente não fizera uso de nenhuma substância ilícita e nem de "coisa parecida". Mas não estava no seu estado normal... Depois desse devaneio, arrumou seu cabelo, se tornou uma nova mulher, foi embora e esqueceu-se dele.
Mas qual? Ele ligou. Eles saíram várias vezes. Meu Deus! Agora entendo aquilo de que o amor é cego. Aliás ele deve ser ainda surdo, mudo e manco de uma perna para não perceber o grau de insanidade daquele desvario. Eles eram no mínimo... diferentes. Ela o levava ao teatro e a ver pôr do sol na beira do mar. E a passear de mãos dadas sob o luar e essas coisas românticas que ele jurava de repente amar após uma existência inteira execrando todas essas "melosidades". Ele ria alto, cantava mal, não sabia dançar e tinha o sorriso mais encantador do mundo. Rude, como um diamante bruto que, ela sabia, não valia a pena lapidar; pois o brilho atrás da parede fosca era o que a encantava.
Se era uma mudança de vida que ela esperava ao entrar naquela barbearia, foi o que deveras encontrou. Mudou seus planos, reviu seus objetivos e mesmo sabendo do quanto ainda poderia se arrepender, deixou-se levar por esse sentimento novo que se avolumava dentro dela e de repente não cabia mais ali. E se expandia sabe lá Deus para onde... a cada dia um pouco mais. Não... eles ainda não casaram. Nem sabem se vão. Às vezes acham que querem. Mas do que se tem certeza nesse momento ou há um pouco tempo atrás é de que "algo" os une, os liga, penetra e transborda de seus pensamentos, ora num sorriso sem motivo aparente - chamamos isso de rir à toa - ora numa lágrima que de súbito toma corpo e se derrama deixando atrás de si um sobressalto de lembrança - isso eu não sei como se chama. Mas o que ela sente e teme dizer, até para si mesma, é algo. Aquele algo que sentem os corações que não sabem explicar os motivos, as razões do que sentem, mas que podem falar disso eternamente. E que usam todos os vocábulos da sua língua mãe para descrever o que somente três palavras são capazes de expressar.
Não sei que tanto medo é esse que impõem tais palavras a este cruéis e duros amantes. Talvez a sensação de perder-se no outro e não mais conseguir se encontrar ao dizê-las, faça com que prefiram tê-las mudas, gravadas em sua alma, e limitem-se a dizê-las bem baixinho e só de vez em quando; e somente para si. Essas palavras que eles pensam esconder, os amantes, e mais ainda ela, que só queria cortar o cabelo, ah... essas palavras se revelam independentemente da vontade de quem as possui presas na garganta, escondidas entre os sentimentos que fala. Elas gritam, ecoam em alto e bom tom. O quê? Se eles temem fazê-lo, acham que eu ousarei dizê-las? Felizes são eles, e não o sabem bem, por senti-las. Que não as percam pelo medo de expressá-las.


 
Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009