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Israel Fernandes Dias Teles
Goiânia / GO


Dois sanduíches e uma Coca-Cola 600ml

 


Os cabelos negros, longos e úmidos, molhando as costas da blusa. Uma bolsa preta, nem pequena, nem grande, presa ao ombro. A blusa e a calça coladas ao corpo que, devido à bela forma, pareciam ser sua segunda pele. E o chiclete, sempre saía mascando um chiclete. Essa era a primeira visão que tinha dela. Sempre.

O "oi" soou econômico, como todas as palavras que ela já havia lhe dirigido. Não era mal educada, mas nunca conversava mais do que o necessário. Gostaria de ouvir mais sua voz, mas entendia aquele comportamento. Algumas profissões exigem mais discrição do que outras.
Também era discreto, e talvez por isso, há cerca de um ano, quase todos os finais de semana recebia sua ligação requisitando seus serviços. Buscava-a, levava-a, de onde, ou para onde, pedisse.

Havia criado uma maneira de proteger-se do sentimento que desenvolvera por ela. Para ele, aquela mulher não tinha passado ou futuro. Passava a existir a partir do momento que a encontrava, a partir do momento que se comunicavam com seus monossílabos, a partir do momento que ela ajeitava o capacete na cabeça, sentava na garupa da sua moto e lhe dizia pra onde ir.

"Conhece alguma lanchonete aberta essa hora?" a voz soou abafada dentro do capacete.

"Sim" desceu a viseira do capacete, engatou a primeira marcha e partiu.

Pegou uma grande avenida e acelerou. Eram três e meia da manhã, mas a cidade não dormia. Na verdade, dormia sim, mas havia duas cidades. As famílias, os bancos, as donas de casa procurando ofertas nos supermercados, os ônibus cheios de alunos barulhentos em seus uniformes, tudo isso pertencia à cidade diurna. O cuidado redobrado, os semáforos piscando em amarelo, as esquinas e suas ofertas de sexo e drogas, o rock and roll das boates, aquele mundo pertencia à cidade noturna.

Nunca havia visto seu rosto à luz do sol, mas imaginava que devia ser ainda mais belo, livre do jogo de sombras da madrugada, livre do peso silencioso da noite. Talvez, sob a luz do dia, suas palavras fossem mais fartas, talvez até se permitisse sorrir. Entrou à esquerda em outra avenida, acelerou um pouco mais e logo visualizou o neon vermelho. "24 horas".

Ela desceu da moto, entregou-lhe o capacete e ajeitou os cabelos. Passou sem se importar com os comentários de baixo calão de dois adolescentes que bebiam cerveja, encostados em um carro. Tão econômica com o tempo quanto com as palavras, não demorou mais do que cinco minutos dentro da lanchonete. Quando saiu, trazia duas embalagens de sanduíche e uma coca-cola de seiscentos ml dentro de uma sacola de plástico branco, quase transparente. Pegou o capacete, colocou-o e subiu na moto.

"Pra casa!". disse, aproximando seu corpo do dele.

"Quanto ela deve ganhar?" se perguntou "Bem mais do que eu, com certeza. Nunca aceitaria largar essa grana pra viver com um cara quebrado como eu..."
Balançou a cabeça negativamente e acelerou, deixando pra trás suas indagações e sonhos, a lanchonete e os dois adolescentes bêbados.
Passaram por carros de polícia, ambulantes que empurravam suas barracas em carrinhos para montá-las nas feiras que começavam antes do sol nascer, homens, mulheres e crianças que dormiam nas calçadas, bêbados gritando coisas ininteligíveis. Via-se de tudo, embora nada daquilo tivesse algum valor para os dois, que se moviam rapidamente através da cidade.
Conforme se afastavam da região central e dos bairros nobres, as luzes da cidade, aos poucos, tornavam-se mais fracas. O movimento das ruas diminuía, assim como o número de prédios, sendo esses substituídos por casas cada vez mais simples.
Ele entrou à esquerda, em uma rua recém asfaltada, e parou em frente a um portão marrom. Em silencio, ela desceu e lhe entregou o capacete. Enfiou a mão no apertado bolso da calça, retirou o dinheiro e lhe entregou. Sem ao menos contar, ele colocou as notas amassadas no bolso interno da sua jaqueta.

"Obrigada!", disse quebrando o silêncio, caminhando em seguida na direção da pequena casa.

"De nada!"

Abriu o portão e entrou, sabia que ele esperaria até que ela trancasse o portão e adentrasse a casa. Trancou o portão, caminhou até a porta, destrancou-a e entrou, ouvindo em seguida o barulho da moto partir.

"Ele nunca aceitaria viver com uma mulher como eu..." pensou enquanto jogava uma das embalagens de sanduíche no lixo.

 
Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009