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Dois sanduíches e uma Coca-Cola 600ml
O "oi" soou econômico, como todas as palavras que
ela já havia lhe dirigido. Não era mal educada, mas
nunca conversava mais do que o necessário. Gostaria de ouvir
mais sua voz, mas entendia aquele comportamento. Algumas profissões
exigem mais discrição do que outras. Havia criado uma maneira de proteger-se do sentimento que desenvolvera por ela. Para ele, aquela mulher não tinha passado ou futuro. Passava a existir a partir do momento que a encontrava, a partir do momento que se comunicavam com seus monossílabos, a partir do momento que ela ajeitava o capacete na cabeça, sentava na garupa da sua moto e lhe dizia pra onde ir. "Conhece alguma lanchonete aberta essa hora?" a voz soou abafada dentro do capacete. "Sim" desceu a viseira do capacete, engatou a primeira marcha e partiu. Pegou uma grande avenida e acelerou. Eram três e meia da manhã, mas a cidade não dormia. Na verdade, dormia sim, mas havia duas cidades. As famílias, os bancos, as donas de casa procurando ofertas nos supermercados, os ônibus cheios de alunos barulhentos em seus uniformes, tudo isso pertencia à cidade diurna. O cuidado redobrado, os semáforos piscando em amarelo, as esquinas e suas ofertas de sexo e drogas, o rock and roll das boates, aquele mundo pertencia à cidade noturna. Nunca havia visto seu rosto à luz do sol, mas imaginava que devia ser ainda mais belo, livre do jogo de sombras da madrugada, livre do peso silencioso da noite. Talvez, sob a luz do dia, suas palavras fossem mais fartas, talvez até se permitisse sorrir. Entrou à esquerda em outra avenida, acelerou um pouco mais e logo visualizou o neon vermelho. "24 horas". Ela
desceu da moto, entregou-lhe o capacete e ajeitou os cabelos. Passou
sem se importar com os comentários de baixo calão de
dois adolescentes que bebiam cerveja, encostados em um carro. Tão
econômica com o tempo quanto com as palavras, não demorou
mais do que cinco minutos dentro da lanchonete. Quando saiu, trazia
duas embalagens de sanduíche e uma coca-cola de seiscentos
ml dentro de uma sacola de plástico branco, quase transparente.
Pegou o capacete, colocou-o e subiu na moto. "Quanto
ela deve ganhar?" se perguntou "Bem mais do que eu, com
certeza. Nunca aceitaria largar essa grana pra viver com um cara quebrado
como eu..." "Obrigada!", disse quebrando o silêncio, caminhando em seguida na direção da pequena casa. "De nada!" Abriu o portão e entrou, sabia que ele esperaria até que ela trancasse o portão e adentrasse a casa. Trancou o portão, caminhou até a porta, destrancou-a e entrou, ouvindo em seguida o barulho da moto partir. "Ele nunca aceitaria viver com uma mulher como eu..." pensou enquanto jogava uma das embalagens de sanduíche no lixo. |
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Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009 |