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Neiva Terezina Paludo Chemin
Chapecó / SC

Meu primeiro amor



Outono 1973. Ao despertar da aurora levantei, abri a janela vagarosamente. Senti a brisa mansa acariciando a natureza e o perfume das flores silvestres. Aquele doce cenário completava-se com os raios luminosos do sol que despontava no horizonte.
A saudade, uma palavra doce, dentro de mim traduzia-se em amargor. Amargor sim, a ânsia de pensar em alguém que eu amava muito, porém, naquele momento estava disposta a terminar tudo. Ele me enganava, tinha muitos amores. Eu sofria muito. Ele negava tudo. Jurava que não era verdade.
Eu era muito bonita, recebia elogios todos os dias, e aquele era um dia muito especial para mim, pois era o dia do meu aniversário, sempre festejado pelos meus pais.
Meu ex-namorado, quase noivo, era de longe. Sabia que seria difícil, mas a única saída seria eu mandar uma carta de despedida, assim se tornaria mais fácil para mim, pois, sempre que eu ameaçava terminar o namoro, ele se desesperava. Eu sabia que ele me amava, mas era um fraco: sempre rodeado de jovens bonitas, gentil demais, elas que se encantavam com o rapaz o perseguiam.
Já nas últimas semanas antecedentes ao meu aniversário, meu espírito estava sem ação, pensamento perdido, olhar distante, o coração chorava em silêncio, procurando desesperadamente uma saída para reencher o vazio dentro de mim.
À tardinha, no dia do aniversário, os amigos vieram me felicitar, e por um deles fui presenteada com um anel de brilhante. Tudo estava em harmonia. Não tardou chegar o crepúsculo. Estava eu e meu único irmão, no jardim de casa assistindo ao vai e vem dos carros que passavam, quando de repente parou um táxi na frente do portão. O motorista perguntou:
- É aqui que mora Layla?
- Sim, sou eu mesma.
- Trago aqui uma mensagem para você. E o moço pede resposta agora. Ele está no Hotel da Praça.
Abri e li. Era um cartão de parabéns com os dizeres: Boa noite amor, perdoa-me se assim te chamo, mas é porque te adoro! Desejo que os anjos velem teu sono esta noite, esperando desesperadamente uma resposta para que amanhã eu possa te ver.
Era ele, cheio de esperança, meu quase ex-namorado que estava na cidade.
Fiquei parada pelo choque. Logo mais, tremendo falei:
- Diga a ele que amanhã talvez conversaremos.
Aquela noite foi interminável. Cheia de angústias, pois eu sabia que seria doloroso dizer um não, por ser ele o meu primeiro amor. Mas teria que acabar tudo, de uma vez por todas.
Na manhã seguinte escutei vozes na sala. Era a voz dele. Conversava com meus pais. Senti um arrepio. Eu estava muito nervosa. Logo minha mãe bateu em meu quarto:
- Layla, levante-se. Caio está aqui.
Como um robô, comecei a me vestir. E com o coração batendo forte cheguei até à sala e falei.
- Oi.
Ele levantou-se do sofá com a felicidade estampada em seu rosto e veio ao meu encontro. Sorrindo cumprimentou-me calorosamente.
Eu estava fria. Meus pensamentos e minhas palavras eu não podia controlar. Meus pais embaraçados, ali estavam à espera de minha decisão. Então falei:
- Sente-se, por favor.
Meu pai ofereceu-lhe uma xícara de café e ele aceitou.
Logo em seguida, começou o grande drama.
- Layla, aqui estou para te pedir perdão de todos os meus erros. E se você e teus pais consentirem, quero noivar, quero refazer minha vida junto a ti. Mais uma vez perdão pelos meus erros e fraquezas. Serei fiel, juro.
Essas palavras eu já conhecia. Ele sempre prometia, mas nunca cumpria. Minhas mãos estavam frias, eu suava. Mas tinha que ser forte e falei:
- Caio, já não adianta mais representar. O show já terminou!
Ele ficou pálido e de seus olhos muito tristes logo começaram a rolar grossas lágrimas. Soluçava como uma criança. Pedia e implorava:
- Tentemos mais uma vez! Eu te adoro! Perdão, eu te peço... Eu te amo. Estou com o coração dilacerado! Como estou sofrendo meu Deus! Por quê?
Ele continuava em pranto. E eu já não sabia mais nada. Sentia pena e muita tristeza. Talvez ele tivesse naquele momento acordado de seus sonhos ou continuaria a sonhar?
Andava ele de lá para cá na sala, enxugando as lágrimas. Meus pais nervosos. Eu não sabia o que fazer. E ele mais uma vez pedia:
- Layla, mais uma chance.
Eu fiquei petrificada e falei:
- É o fim.
Caio então, com voz rouca disse:
- Layla, do fundo da minha alma desejo-te toda a felicidade deste mundo. Que teu caminho seja coberto de rosas de veludo.
Assim, não podendo mais falar e com passos lentos foi se retirando... se retirando... Parecia um homenzinho de chumbo que caminhava pesada e vagarosamente. O peso maior talvez fosse o sentimento e a saudade que iria chegar.
E eu murmurava:
- Adeus. Seja feliz!
Ao passar pelo jardim, rumo ao portão, até as folhas caídas no chão pareciam acenar-lhe delicadamente. Ouvia-se o zumbido dos insetos na relva. E eu pensava: Adeus meu grande amor. Deve partir.
E como numa prece eu continuava: Segue seu caminho. Se andar corretamente encontrará a paz e o amor. Por certo, eu desejo que encontre a primavera da vida em algum lugar. Doce é o lamento do meu coração, na leve lembrança das frases que sussurrava ao meu ouvido, como a música: Fale baixinho, só os céus vão nos ouvir... Diga que o nosso amor ninguém vai destruir.
Adeus! Meu primeiro amor. Tudo acabou.

 
Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009