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Jader Nones
Rio de Janeiro / RJ

Amor incomensurável



Eram quase oito horas. O sol abrilhantava uma nova manhã e seus raios, ainda um pouco tímidos, entremeados nas frestas da cortina do apartamento 407, já iluminavam alguns cantos do quarto onde o casal, Melinda e Hector, dormiam.

Melinda, deitada na cama, bastante sonolenta, abriu seus olhos azuis. Mesmo remelentos, os mesmos sempre foram às únicas e as mais belas pérolas que Hector encontrara em sua vida. A doce senhora, com seus mais de 75 anos, mais do que ninguém, sabia muito bem disso. Ainda um pouco dolorida, por causa da artrite, sua companheira de longa data, ela, conforme fazia todas as manhãs, se sentara na cama. Com sua voz, já um pouco rouca por causa da velhice, porém, ainda assim muito meiga, chamou pelo nome de seu esposo com a intenção de acordá-lo. Não houve resposta.

Sem entender o que estava acontecendo, Melinda o chamou novamente e, novamente, não houve resposta. Ela então o tocou. Em seguida o chacoalhou. Hector, no entanto, permaneceu imóvel, deitado de bruços, com os olhos entreabertos, parcialmente encoberto pelo aconchegante edredom que aquecera o casal por mais de 45 anos de união civil.

As lágrimas de Melinda já encharcavam seus olhos quando ela, enfim, decidiu pedir ajuda a um vizinho. Minutos depois uma ambulância apareceu. No entanto, infelizmente, já estava mais do que claro que seu adorável esposo, o ator principal de sua vida, o cúmplice ativo de seu destino, aquele que a amparara durante praticamente toda a sua existência, realmente nunca mais acordaria.

O enterro aconteceu no dia seguinte. Apenas seus poucos amigos e alguns parentes mais próximos estiveram presentes e acompanharam a cerimônia. O filho quem sabe poderia ter estado no sepultamento, caso o casal não tivesse decidido tê-lo abortado, há cerca de 50 anos atrás, quando ambos ainda estavam na flor de suas juventudes. Mas Melinda, na ocasião do enterro, mergulhada na dor de sua perda, nem sequer se lembrara do assunto que, no passado, assombrara e perturbara a vida do casal.

Foi praticamente sozinha que a doce velhinha do apartamento 407 jogou flores sobre o caixão daquele que a fizera viver as mais intensas noites de amor. Sobre aquele que a abraçara quando ela sentiu frio e que a apoiara quando seu sorriso, na velhice, já não era o dos mais sorridentes.

Ainda antes do término da cerimônia do sepultamento, Melinda, aos poucos, foi se distanciando do cemitério, deixando para trás os lábios do seu amado que, quando em vida, haviam diariamente acariciado sua face e que haviam lhe jurado, todos os dias, nunca abandoná-la. Não era isso que aquela adorável senhora estava sentindo, na ocasião do sepultamento do seu marido.

Entristecida, ela retornou ao seu velho lar com a ajuda de seu sobrinho. Pediu-lhe então para que ele a visitasse na manhã seguinte. Solitária e vagarosa, Melinda entrou no apartamento e se dirigiu diretamente no quarto principal do imóvel. Tudo estava como sempre estivera. As cortinas permaneciam fechadas e, por isso, pouca luz penetrava no recinto. Ela deitou-se sobre a cama e, sem hesitar, chorou em silêncio a dor do amor partido.
Suas lágrimas, fonte da expressão de sua tristeza, percorreram seu rosto marcado pela idade, deixando-o ainda mais apático e sem vida.

Era quase noite quando ela levantou-se da cama e foi à cozinha. Quando chegou ao local em que cozinhara para seu marido durante quase meio século, a doce senhora pegou carinhosamente um copo de água e retornou ao quarto, colocando-o sobre o criado mudo. Em seguida, percorreu mais lentamente do que de costume todos os diferentes locais do seu imóvel. Seus olhares penetraram em cada objeto que o casal possuía e adquirira ao longo de suas vidas. Cada um contava uma história, um fato que fora vivido e que ficara gravado na memória de Melinda. Em seguida, ela retornou ao seu quarto, pois a saudade do seu velho marido já estava fazendo-a começar a chorar novamente. A não presença de Hector deixava-a emocionalmente perturbada e perdida no próprio lugar em que vivera praticamente toda sua vida conjugal.

Sentada na cama, Melinda abriu a gaveta de seu criado mudo. Lá dentro havia algumas fotos antigas. Dentre elas, imagens de seus sobrinhos, dos seus irmãos e de seu falecido marido. Havia também dois passaportes totalmente carimbados, fruto das grandes viagens que realizara ao longo de todo o seu casamento. Escondido sobre folhas avulsas, no fundo da gaveta, havia também um diário. Ela o pegou, leu alguns trechos dos seus antigos registros e começou a escrever nas páginas que permaneciam em branco. Dentre as anotações, escreveu: se não fiz diferença, pelo menos, morro tendo a certeza de que fiz diferente. Mais abaixo, ela também fez o seguinte registro: a receita para ter uma boa vida, é saber que nenhuma vida possui qualquer tipo de receita. Cada coração possui seus próprios e exclusivos ingredientes e, por isso, são incomensuráveis. Após rabiscar no papel mais algumas sentenças, ela colocou o diário sobre seu criado mudo. Em seguida, pegou no seu armário uma cartela cheia de comprimidos que a ajudavam a dormir melhor, quando suas crises de insônia apareciam, em meio às altas horas da noite.

Fraca e cansada, porém certa e consciente do que estava fazendo, Melinda retirou todos os comprimidos da cartela e, gentilmente, colocou-os, um a um, sobre sua mesa de cabeceira. Ela então os pegou, de uma só vez, e coloco-os no interior de sua boca. Com a ajuda de alguns goles de água, os engoliu. Após alguns minutos, a doce senhora do 407 deitou-se sobre a cama e caiu em um sono eterno. Calou-se para sempre e carregou sua história de amor consigo. Optou por abandonar seu tempo na terra com a intenção de encontrar seu esposo, em algum lugar do submundo, em que ambos, quando vivos, acreditavam existir.

 
Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009