|
|
| Antologia
on line |
Amor incomensurável Melinda, deitada na cama, bastante sonolenta, abriu
seus olhos azuis. Mesmo remelentos, os mesmos sempre foram às
únicas e as mais belas pérolas que Hector encontrara
em sua vida. A doce senhora, com seus mais de 75 anos, mais do que
ninguém, sabia muito bem disso. Ainda um pouco dolorida, por
causa da artrite, sua companheira de longa data, ela, conforme fazia
todas as manhãs, se sentara na cama. Com sua voz, já
um pouco rouca por causa da velhice, porém, ainda assim muito
meiga, chamou pelo nome de seu esposo com a intenção
de acordá-lo. Não houve resposta. Sem entender o que estava acontecendo, Melinda o chamou
novamente e, novamente, não houve resposta. Ela então
o tocou. Em seguida o chacoalhou. Hector, no entanto, permaneceu imóvel,
deitado de bruços, com os olhos entreabertos, parcialmente
encoberto pelo aconchegante edredom que aquecera o casal por mais
de 45 anos de união civil. As lágrimas de Melinda já encharcavam
seus olhos quando ela, enfim, decidiu pedir ajuda a um vizinho. Minutos
depois uma ambulância apareceu. No entanto, infelizmente, já
estava mais do que claro que seu adorável esposo, o ator principal
de sua vida, o cúmplice ativo de seu destino, aquele que a
amparara durante praticamente toda a sua existência, realmente
nunca mais acordaria. O enterro aconteceu no dia seguinte. Apenas seus poucos
amigos e alguns parentes mais próximos estiveram presentes
e acompanharam a cerimônia. O filho quem sabe poderia ter estado
no sepultamento, caso o casal não tivesse decidido tê-lo
abortado, há cerca de 50 anos atrás, quando ambos ainda
estavam na flor de suas juventudes. Mas Melinda, na ocasião
do enterro, mergulhada na dor de sua perda, nem sequer se lembrara
do assunto que, no passado, assombrara e perturbara a vida do casal.
Foi praticamente sozinha que a doce velhinha do apartamento
407 jogou flores sobre o caixão daquele que a fizera viver
as mais intensas noites de amor. Sobre aquele que a abraçara
quando ela sentiu frio e que a apoiara quando seu sorriso, na velhice,
já não era o dos mais sorridentes. Ainda antes do término da cerimônia do
sepultamento, Melinda, aos poucos, foi se distanciando do cemitério,
deixando para trás os lábios do seu amado que, quando
em vida, haviam diariamente acariciado sua face e que haviam lhe jurado,
todos os dias, nunca abandoná-la. Não era isso que aquela
adorável senhora estava sentindo, na ocasião do sepultamento
do seu marido. Entristecida, ela retornou ao seu velho lar com a
ajuda de seu sobrinho. Pediu-lhe então para que ele a visitasse
na manhã seguinte. Solitária e vagarosa, Melinda entrou
no apartamento e se dirigiu diretamente no quarto principal do imóvel.
Tudo estava como sempre estivera. As cortinas permaneciam fechadas
e, por isso, pouca luz penetrava no recinto. Ela deitou-se sobre a
cama e, sem hesitar, chorou em silêncio a dor do amor partido.
Era quase noite quando ela levantou-se da cama e foi
à cozinha. Quando chegou ao local em que cozinhara para seu
marido durante quase meio século, a doce senhora pegou carinhosamente
um copo de água e retornou ao quarto, colocando-o sobre o criado
mudo. Em seguida, percorreu mais lentamente do que de costume todos
os diferentes locais do seu imóvel. Seus olhares penetraram
em cada objeto que o casal possuía e adquirira ao longo de
suas vidas. Cada um contava uma história, um fato que fora
vivido e que ficara gravado na memória de Melinda. Em seguida,
ela retornou ao seu quarto, pois a saudade do seu velho marido já
estava fazendo-a começar a chorar novamente. A não presença
de Hector deixava-a emocionalmente perturbada e perdida no próprio
lugar em que vivera praticamente toda sua vida conjugal. Sentada na cama, Melinda abriu a gaveta de seu criado
mudo. Lá dentro havia algumas fotos antigas. Dentre elas, imagens
de seus sobrinhos, dos seus irmãos e de seu falecido marido.
Havia também dois passaportes totalmente carimbados, fruto
das grandes viagens que realizara ao longo de todo o seu casamento.
Escondido sobre folhas avulsas, no fundo da gaveta, havia também
um diário. Ela o pegou, leu alguns trechos dos seus antigos
registros e começou a escrever nas páginas que permaneciam
em branco. Dentre as anotações, escreveu: se não
fiz diferença, pelo menos, morro tendo a certeza de que fiz
diferente. Mais abaixo, ela também fez o seguinte registro:
a receita para ter uma boa vida, é saber que nenhuma vida possui
qualquer tipo de receita. Cada coração possui seus próprios
e exclusivos ingredientes e, por isso, são incomensuráveis.
Após rabiscar no papel mais algumas sentenças, ela colocou
o diário sobre seu criado mudo. Em seguida, pegou no seu armário
uma cartela cheia de comprimidos que a ajudavam a dormir melhor, quando
suas crises de insônia apareciam, em meio às altas horas
da noite. Fraca e cansada, porém certa e consciente do
que estava fazendo, Melinda retirou todos os comprimidos da cartela
e, gentilmente, colocou-os, um a um, sobre sua mesa de cabeceira.
Ela então os pegou, de uma só vez, e coloco-os no interior
de sua boca. Com a ajuda de alguns goles de água, os engoliu.
Após alguns minutos, a doce senhora do 407 deitou-se sobre
a cama e caiu em um sono eterno. Calou-se para sempre e carregou sua
história de amor consigo. Optou por abandonar seu tempo na
terra com a intenção de encontrar seu esposo, em algum
lugar do submundo, em que ambos, quando vivos, acreditavam existir.
|
|
Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009 |