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Elizabeth Maria Chemin Bodanese
Pato Branco / PR

Anjos da guerra



No dia 07 de abril de 1899, em Feltre, Norte da Itália, nasceu Clementina. Como a mãe era ama-de-leite dos filhos de um conde da família Médici, na infância Clementina experimentou as mordomias que qualificavam e diferenciavam a formação dos fidalgos da época.
Acompanhando a mãe, no aposento em que dormia, o teto em forma de abóbada era repleto de estrelinhas. Do leito, a impressão era estar no céu. Imagem que acompanhou Clementina por toda a vida. A menina cresceu. Era feliz.
Capricho do destino. Tudo parecia muito bem. Até que, infelizmente, quando adolescente, a guerra foi sua indesejável companheira. Os alemães invadiram o Norte da Itália. Clementina jamais conseguiu apagar da mente alguns dos mais dramáticos fatos que presenciou. Um dia, ao voltar para casa com uma amiga, passando pelo meio de uma plantação de trigo, Clementina ouviu tiros e se jogou em um buraco. A amiga, assustada, correu e metralhadoras partiram-na pela cintura. Muitas horas depois, somente ao amanhecer do dia seguinte, é que Clementina sorrateiramente saiu do buraco em que passara a noite escondida. No chão, no pó, viu a amiga partida ao meio. Estremeceu...
Nesse tempo, viu também rios manchados de sangue. Esse fato acontecia quando os soldados eram metralhados no momento em que atravessavam os rios.
Apesar de todo o sofrimento que enfrentava, nos momentos de calmaria Clementina ainda tinha sonhos. Sonhava em se casar e ser feliz. A mãe havia feito para a filha o enxoval, mas, como o tempo era de guerra, no fundo do quintal foi preciso enterrá-lo. Graças a esse ato, ele foi salvo das mãos destruidoras dos inimigos.
Em um dia chuvoso, soldados alemães, numa fúria cega e inexplicável, invadiram a casa e jogaram no barro tudo o que encontraram, principalmente, a pouca comida que restava. Sem poder fazer nada, a família via proventos de farinha voando lá de cima do sobrado... Depois de tudo quebrado, agarraram um irmão de Clementina, chamado Angelin, e levaram-no à força para trabalho escravo em uma padaria. Precavidos, os avós salvaram-se porque não foram vistos no esconderijo que ficava em um subterrâneo da casa dos pais de Clementina.
Como padeiro, Angelin alimentou os dois velhinhos no esconderijo. Até morrer ficou com a marca da guerra em sua barriga, pois, quando tirava os pãezinhos do forno muito quente, jogava um deles para dentro da camisa. Isso formou uma ferida que nem o tempo apagou. Tinha que aguentar a queimadura porque se algum soldado desconfiasse, era metralhado como tantos outros tinham sido ali mesmo na única porta da padaria.
Era uma vida insana. Precisavam fugir daquele lugar. Então, unidos e às escondidas, chegaram atrasados ao Porto de Gênova. Perderam o navio chamado Principessa Mafalda. Tiveram que esperar o próximo. A insegurança tomava conta de todos quando o navio Príncipe de Udne aportou. Embarcaram, esconderam-se na terceira classe e, no maior silêncio, atravessaram o oceano.
Era outono de 1927, quando Clementina com a família pisava em terras do Brasil. Ainda no Porto de Santos ouviram boatos de um naufrágio: era o naufrágio do Principessa Mafalda, o navio em que embarcariam em Gênova.
Pouco tempo passou e a família recebeu uma carta para voltarem à Itália porque a guerra já havia acabado. Clementina e Angelin não quiseram partir. Com o coração apertado despediram-se dos familiares e continuaram no Brasil. Meses depois, receberam a triste notícia de que uma bomba matara os avós, pai, mãe, irmãos. Desse ataque só restou uma garotinha ainda bebê - sobrinha de Clementina - porque a mãe, no desespero de salvar a filha, jogou a criança dentro de um túnel.
As marcas da guerra não se apagaram para Clementina. Fez delas suas aliadas. Um dia conheceu João Batista, também filho de imigrantes vindos da divisa entre França e Itália, e com ele se casou. Tiveram cinco filhos: Santo, Dante, Carlos, Mário que morreu aos quinze dias de vida, e Maria Elisa. A eles ensinou o valor do amor e da paz.
Clementina cumpriu a missão que lhe coube. A saudade sempre foi sua companheira. Lágrimas por muitos anos lavaram a sua face. Hoje, dorme em um jardim perto de uma palmeira. Descansa em paz no Jardim da Saudade. Ah! Que saudade vovozinha querida!

 
Contos de Outono - Edição Especial - Abril de 2009