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Fabi Mariano
Rio de Janeiro / RJ


Sinal vermelho

 

Eu sabia que o trânsito ia acabar me matando. Eu sempre soube. Todo dia a mesma coisa, eu gasto mais tempo no trânsito que em qualquer outro lugar e sempre reclamei disso, mas nunca fiz nada para mudar - nada mais inerente ao homem, ou ao menos aos brasileiros. Também, como poderia? Eu até pensei em comprar uma moto para deslizar entre os carros e arrancar meia dúzia de retrovisores, mas assim eu provavelmente morreria mais cedo. Só me restaria fazer algum tipo de greve de reclusão, ou qualquer coisa do tipo. Recusar-me a sair de casa. Mas isso também me mataria mais cedo, seja por fome, sede ou tédio mesmo. Só me resta enfrentar essas filas e filas de carros diariamente, já que não fiquei rico o suficiente para comprar um helicóptero e sobrevoar, todo imponente e blasé essa hora incômoda do dia.
Eu sabia que o trânsito acabaria me matando. Eu sempre soube. Principalmente quando ficava horas analisando as pessoas do carro ao lado. A maioria irritada, com caras insatisfeitas. Nunca entendi bem porque as pessoas se irritam no trânsito. Talvez porque seja o momento onde não haja escapatória, é você contra você mesmo. Ninguém mais. Ficar em sua própria companhia, por horas, sem subterfúgios, sem televisão, sem comida, sem computador, sem internet. Você e suas verdades. Seus pensamentos. Suas aflições. Nada e ninguém para te salvar. Tenho medo das pessoas que não gostam de ficar sozinhas, que fazem de tudo para evitar um contato, confronto ou encontro consigo mesmas.Parece que o contato com o outro não se dá de forma genuína, descompromissada, mas como uma constante e contínua fuga de si. É estranho. O que é ainda mais estranho e irônico é que além de agravar a situação, esse tipo de problema social é conseqüência do individualismo automobilístico. Já reparou em quantos carros com uma pessoa solitária neles? Se eu pudesse escolher um símbolo para a individualidade humana, seria o carro. As pessoas ficam enclausuradas em seus cubículos ambulantes isolados do mundo exterior com seus populares e importados com ar-condicionado e isulfilm. Antes até era engraçado ver o outro cantando ou limpando o salão, mas essa diversão foi eliminada pela capacidade do ser humano de se isolar, cada vez mais.
Por isso eu sempre soube que o trânsito iria me matar. Eu não vou dizer que sou politicamente correto e que adoro ficar no meu carro. Eu até passava bem esse tempo vendo as pessoas nos ônibus, quase sempre lotados, e imaginando falas, pensamentos, vidas para cada uma delas, mas eu também sou individualista, até mais que os outros. Eu não sou casado, não tenho filhos. Moro sozinho. Esposa e principalmente filhos seriam uma razão plausível para alguém ter pressa de chegar em casa. Minha cerveja pode esperar. O sinal abriu, mas não vou poder seguir, um ônibus fechou o cruzamento. Será que o motorista tem filhos e esposa? Será que a pressa dele é maior ou melhor recompensada que a minha?
Eu gostaria de poder ouvir todas as minhas músicas preferidas. Elas passeiam por minha mente nesse momento. Impressionante como músicas desencadeiam vivências. É aquele filme com a trilha sonora perfeita. No rádio, a essa hora, só ouço a Hora do Brasil, a política responsável por esse transtorno na minha vida, na vida do motorista do ônibus que fechou o cruzamento e na vida do filho do motorista que o espera ansioso com o doce que o vendedor não autorizado lhe deu em troca de alguns segundos no seu veículo. É, ele tem filho, dá para notar. Eu gostaria de ligar para as pessoas que amo e dize-las sobre isso, mesmo que o guarda me multe e eu ganhe alguns pontos na carteira. Não há preço que pague os pontos extras que eu colocaria na vida dessas pessoas que fazem a diferença. Eu gostaria de dizer para a pessoa do carro ao lado que talvez uma greve de reclusão valha a pena e lhe perguntar despretensiosamente se ela tem bicicleta. Eu gostaria de abrir os vidros e ouvir o som das ruas, de ver a verdadeira cor de tudo, contemplar as luzes da cidade. Eu gostaria de sentir o vento, dar gorjeta para o menino que faz malabarismo no sinal, de oferecer carona aos meus amigos, a desconhecidos, de oferecer carona a vida. Eu gostaria de ter tido filhos, eu realmente gostaria de ter tido filhos. De saber que alguém sentiria minha falta ao não chegar. De saber que algo de mim, ficou. Eu gostaria.
O cruzamento continua fechado, as ruas intransitáveis. A ambulância desliga a sirene. Eu sabia que o trânsito acabaria me matando. Eu sempre soube.

 
Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição Especial - Maio de 2009