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José Ricardo da Hora Vidal
Salvador / BA


As lendas do Amparo

 

O rio Una seguia plácido dentre Valença enquanto um sol alaranjado do crepúsculo cobria de escarlate e vinho a cumeeira de dois montes no horizonte. Por que cumeeira? Os montes surgiam como dois seios túrgidos e lúbricos de morena cujo rio era o ventre lascivo e fecundo. E no alto de uma das colinas o sol era uma casta coroa criselefantina a rodear a santa e veneranda igreja de Nos-sa Senhora do Amparo.
- Pai, por que igreja foi construída lá no alto? - perguntava o filho caçula enquanto passeava na Orla do rio Una.
- Bem, diz minha avó materna, que ela ouviu de um mascate durante a infância em Sarapuí, que um rico fazendeiro da região, valente como um bandeirante e arrogante como um coronel, deu para cavalgar furiosamente pela colina, como a desafiar ao Deus e o Diabo com sua correria. O ca-valo corria como corisco a cortar cataclismos com suas crinas de carvão e coragem por força do castigo inclemente da chibata cortante do centauro que o cavalgava. Pulava os arbustos como se brincasse com um fogo, a subir as escarpas. Até que, lá no alto, como a vingar dos açoites, deu um coice e derrubou bruscamente seu cavaleiro. Queda feia e seria morte certa se o fazendeiro não ti-vesse clamado amparo a Nossa Senhora, com toda a humildade do coração e já entregando a alma ao destino. Acordou lá embaixo, horas depois, já às margens do rio, tendo o corpo coberto com al-guns arranhões - apesar de ter rolado de uma grande altura. Dizem que depois ele ficou mais piedo-so e que construiu a igreja para sua protetora.
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- Que nada! - dizia da janela na Praça da República uma comadre para Doutor Mustafá Rosemberg - Não teve queda de cavalo. Segundo minha tia freira, ela ouviu de uma madre superiora cuja família é amiga da família de professor Jorge Aguiar, a igreja foi construída porque, muito an-tigamente, havia um a imagem de Nossa Senhora que, posta no altar mor da Matriz do Sagrado Co-ração de Jesus, projetava sua sombra para o alto do morro, como a indicar o local de sua moradia. Foi assim que construíram seu templo lá em cima.
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- Foi milagre sim, mas não de sombra no altar! - Replicava o magarefe no Mercado Municipal para seu cliente - a verdade meu, contada pelo meu padrinho, professor Martiniano Costa, que ouviu das bocas dos pescadores do Tento (amigos dele), foi que há muitos anos um barco de pesca havia se perdido em alto mar durante uma tormenta. A tripulação, vendo o naufrágio iminente, co-meçou a rezar para Nossa Senhora. E estava uma onda a abrir sua boca de demônio para devorar o barco, quando a Virgem Maria do Amparo apareceu com seu manto azul e branco. A onda fechou suas mandíbulas e o tempo serenou. Nossa Senhora estava lá no alto do monte como um farol, indi-cando com seu dedo a foz do rio Una. Chegando são e salvos, em gratidão construíram a capela do alto do morro onde ela amparou seus filhos pescadores. Mais tarde o povo a expandiu o castelo da rainha de Valença.
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- A história dos pescadores que se salvaram no naufrágio realmente aconteceu - contradizia o sacristão dentro do salão da Casa Paroquial, enquanto conversava com as professoras Dinalva Te-les, Ana Franco e Rosângela Figueiredo - mas foi Nossa Senhora da Luz do Morro de São Paulo. O que professora Macária Andrade me contou foi que encontraram nos arquivos da arquidiocese de Salvador o relato de um viajante que falava de um grupo de escravos fugidos. Estes, tentando esca-par daquele rico fazendeiro da lenda anterior, teriam se dirigido para a montanha e achado uma i-magem de Nossa Senhora e orado para ela. Foi então que ela apareceu e os amparou, escondendo os escravos em seu manto e ludibriado o dono feroz e o capitão do mato que os perseguiam. Mais tar-de, foram pedir refúgio ao bom pároco da Matriz. Este, devoto da Virgem Maria, ao ver a imagem e ouvir a história do milagre da fuga; percebeu que ela era madrinha destes negros e fez que Santa Madre Igreja Católica comprasse a liberdade deles, que construíram o santuário para sua Benfeitora.
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Do alto de sua torre de marfim, o doutor professor de História ri baixinho, pensando: tudo lenda, pura lenda.
Mesmo que sejam simples lendas, o escritor Ricardo Vidal e o pintor Junior da Hora as bebem em êxtase enquanto o sol coroa a Igreja de Nossa Senhora do Amparo. E o rio Una, com suas águas negras, corre como um ventre que divide o horizonte em dois seios femininos.

 
Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição Especial - Maio de 2009