| |
José
Ricardo da Hora Vidal
Salvador
/ BA
As lendas do Amparo
O rio
Una seguia plácido dentre Valença enquanto um sol alaranjado
do crepúsculo cobria de escarlate e vinho a cumeeira de dois
montes no horizonte. Por que cumeeira? Os montes surgiam como dois
seios túrgidos e lúbricos de morena cujo rio era o ventre
lascivo e fecundo. E no alto de uma das colinas o sol era uma casta
coroa criselefantina a rodear a santa e veneranda igreja de Nos-sa
Senhora do Amparo.
- Pai, por que igreja foi construída lá no alto? - perguntava
o filho caçula enquanto passeava na Orla do rio Una.
- Bem, diz minha avó materna, que ela ouviu de um mascate durante
a infância em Sarapuí, que um rico fazendeiro da região,
valente como um bandeirante e arrogante como um coronel, deu para
cavalgar furiosamente pela colina, como a desafiar ao Deus e o Diabo
com sua correria. O ca-valo corria como corisco a cortar cataclismos
com suas crinas de carvão e coragem por força do castigo
inclemente da chibata cortante do centauro que o cavalgava. Pulava
os arbustos como se brincasse com um fogo, a subir as escarpas. Até
que, lá no alto, como a vingar dos açoites, deu um coice
e derrubou bruscamente seu cavaleiro. Queda feia e seria morte certa
se o fazendeiro não ti-vesse clamado amparo a Nossa Senhora,
com toda a humildade do coração e já entregando
a alma ao destino. Acordou lá embaixo, horas depois, já
às margens do rio, tendo o corpo coberto com al-guns arranhões
- apesar de ter rolado de uma grande altura. Dizem que depois ele
ficou mais piedo-so e que construiu a igreja para sua protetora.
* * * *
- Que nada! - dizia da janela na Praça da República
uma comadre para Doutor Mustafá Rosemberg - Não teve
queda de cavalo. Segundo minha tia freira, ela ouviu de uma madre
superiora cuja família é amiga da família de
professor Jorge Aguiar, a igreja foi construída porque, muito
an-tigamente, havia um a imagem de Nossa Senhora que, posta no altar
mor da Matriz do Sagrado Co-ração de Jesus, projetava
sua sombra para o alto do morro, como a indicar o local de sua moradia.
Foi assim que construíram seu templo lá em cima.
* * * *
- Foi milagre sim, mas não de sombra no altar! - Replicava
o magarefe no Mercado Municipal para seu cliente - a verdade meu,
contada pelo meu padrinho, professor Martiniano Costa, que ouviu das
bocas dos pescadores do Tento (amigos dele), foi que há muitos
anos um barco de pesca havia se perdido em alto mar durante uma tormenta.
A tripulação, vendo o naufrágio iminente, co-meçou
a rezar para Nossa Senhora. E estava uma onda a abrir sua boca de
demônio para devorar o barco, quando a Virgem Maria do Amparo
apareceu com seu manto azul e branco. A onda fechou suas mandíbulas
e o tempo serenou. Nossa Senhora estava lá no alto do monte
como um farol, indi-cando com seu dedo a foz do rio Una. Chegando
são e salvos, em gratidão construíram a capela
do alto do morro onde ela amparou seus filhos pescadores. Mais tarde
o povo a expandiu o castelo da rainha de Valença.
* * * *
- A história dos pescadores que se salvaram no naufrágio
realmente aconteceu - contradizia o sacristão dentro do salão
da Casa Paroquial, enquanto conversava com as professoras Dinalva
Te-les, Ana Franco e Rosângela Figueiredo - mas foi Nossa Senhora
da Luz do Morro de São Paulo. O que professora Macária
Andrade me contou foi que encontraram nos arquivos da arquidiocese
de Salvador o relato de um viajante que falava de um grupo de escravos
fugidos. Estes, tentando esca-par daquele rico fazendeiro da lenda
anterior, teriam se dirigido para a montanha e achado uma i-magem
de Nossa Senhora e orado para ela. Foi então que ela apareceu
e os amparou, escondendo os escravos em seu manto e ludibriado o dono
feroz e o capitão do mato que os perseguiam. Mais tar-de, foram
pedir refúgio ao bom pároco da Matriz. Este, devoto
da Virgem Maria, ao ver a imagem e ouvir a história do milagre
da fuga; percebeu que ela era madrinha destes negros e fez que Santa
Madre Igreja Católica comprasse a liberdade deles, que construíram
o santuário para sua Benfeitora.
* * * *
Do alto de sua torre de marfim, o doutor professor de História
ri baixinho, pensando: tudo lenda, pura lenda.
Mesmo que sejam simples lendas, o escritor Ricardo Vidal e o pintor
Junior da Hora as bebem em êxtase enquanto o sol coroa a Igreja
de Nossa Senhora do Amparo. E o rio Una, com suas águas negras,
corre como um ventre que divide o horizonte em dois seios femininos.
|
|
|