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José Faria Nunes
Cassu / GO


Alkacuz

 


Conta-se que, naqueles tempos, vivia uma tribo de índios nas proximidades das águas claras, assim denominadas pelas cascatas que, quando dava o sol, brilhavam que até ofuscava os olhos de quem as mirasse. O cacique da tribo, um homem bom, tinha uma única filha, Açuzporã, beleza de moça, presente de Tupã.

Certo dia Açuzporã banhava o corpo bronzeado do sol nas cristalinas águas da cascata. Eis que percebe um agitar de folhas na folhagem lindeira e, ao imaginar seu cãozinho, Açuzporã o chama, e um reboliço maior agita a folhagem.

Açuzorã, moça de coragem que nem o pai, vai perscrutar o local. Se não o cão, que bicho seria?

Era um bicho homem.

Alto, moreno, cor de cabaça madura, um jovem diferente dos homens de sua tribo e de outras tribos que conhecera em qualquer tempo. Mas diferente também dos homens brancos que expulsaram sua tribo das margens do grande rio, no baixio da serra.

Ele se arrasta, tentativa de afastar-se da moça, medo de ali aparecerem mais índios.

Ela adianta-se na direção do moço, pergunta quem, não se entendem, falam línguas diferentes. Ela se apieda do rapaz, quer ajudá-lo e ele, mais calmo, mostra à índia a perna ferida, fratura exposta, a moça o chama para a aldeia. Ele recusa, medo de ela ser da tribo que o atacara no entreposto, ela se vai e ele fica.

A dor dá lugar a pensamentos outros, na mente a imagem do corpo bonito e nu da moça, beleza anatômica de uma obra de arte, quadro emoldurado pelo verde da natureza, obra de artista famoso, mais bonita que o da adega do navio que o trouxe desde Tejo em Portugal. Sem dinheiro pagou a passagem do com serviços na adega.

Ainda envolto em pensamentos fantasiosos, eis que se aproxima de novo a índia, agora com outro índio. Quer correr, não pode, a moça traz consigo o pajé, que acena em sinal de paz. Quem não tem remédio remediado está, aceita a aproximação, o pajé sabia a língua do rapaz.

Entendimentos iniciados com apresentações recíprocas: o pajé Ubirajara, o árabe Al-Kalil e a princesa Açuzporã.

Ubirajara aplica-lhe planta macerada com óleo de pau, tratamento de emergência.

Depois de algum tempo à sombra do jatobá à beira da cascata o pajé quer voltar para a aldeia, Açuzporã pede-lhe que leve o moço. Não pode ficar no mato, pode morrer. Na aldeia pode se curar mais rápido, depois pode ir-se embora.

Al-kalil percebe ser inútil resistir, vão os três para a aldeia, apoiado nos ombros do pajé e de Açuzporã. Na aldeia, na palhoça do pajé, recebe uma rede de fibras de buriti para se deitar, percebe tratar-se de uma obra feita com capricho e arte. O tratamento continua e sua recuperação surpreende a todos, inclusive o pajé e ele próprio. A prestimosa atenção de Açuzporã pode ter sido o lenitivo das dores e o antibiótico que acelerara a cura.

Conta sua história: árabe do Líbano, ouviu falar de um eldorado no novo mundo, com um grupo de jovens marchou para Portugal onde ofereceram serviços no navio que viria buscar madeira vermelha.

Em São Vicente integraram uma bandeira rumo ao sertão, na busca de ouro, pedras preciosas e índios para trabalho nas fazendas de café. De distância em distância o bandeirante escolhia um grupo para ficar em algum lugar para organizar entreposto de abastecimento das bandeiras e ele foi escolhido para ficar com um grupo das margens do rio a que denominaram Claro, dada a brancura de suas águas ao reflexo do sol na maior parte do dia. Atacado por um grupo de índios cuja aldeia fora arrasada por outra bandeira no ano anterior, sobrevivera por milagre, após pular de uma ribanceira nas águas do rio, ferindo-se. Depois de muito rodar e de muita dor na perna, conseguiu sair na outra margem do rio, onde foi encontrado por Açuzporã.

Também o pajé contou a história de sua tribo: atacada diversas vezes, muitos índios capturados, tinham como inimigos outra tribo, uma semana rio acima, na outra margem. Por certo a que atacara o entreposto de Al-Kalil, ao que se sabe, único sobrevivente do ataque.

Al-Kalil recupera-se rapidamente, passa a ajudar os índios nas caças, tem medo de deixar a aldeia e, sozinho, ser novamente atacado. Com Ubirajara sentia-se protegido, seguro, recebia a atenção de Açuzporã, filha do cacique, oferecida a ele como prova de boa hospitalidade e amizade. Ele também fizera-se caçador habilidoso, amigo e companheiro da tribo, como se índio também fosse.

Passado o tempo Al-Kalil e Açuzporã tiveram uma filha. Que nome dar à criança? Após muito pensar escolheram Alka-Açuz.

A menina crescia em graça e beleza. Nem mesmo Iara era mais bonita.

A pequena Alka-Açuz, toda manhã, corria com o cachorrinho pelas areias brancas da margem do riacho, pelos caminhos da redondeza, colhia frutos da mata, do cerrado, pitangas, araçás, brincava com outras crianças no pátio da aldeia e na rasura do riacho.

Certa manhã Alka-Açuz não apareceu para brincar com as outrascrianças. Logo a notícia corria por toda a aldeia: Alka-Açuz estava doente.

O pajé fizera de tudo mas Alka-Açuz piorava a cada dia.

O sol perdera o brilho e a lua, a poesia. Guaraci e Jaci eram como se entristecidos. Na aldeia tristeza por todos os lados.

O pajé fizera de tudo. Compressas, infusões, nada reanima a menina. E o pior aconteceu.
Seu corpo foi sepultada junto à cabeceira-nascente do ribeirão de Águas Claras, lugar todo dia visitado por Açuzporã.

Certo dia, Açuzporã não mais chorava mas cumpriu o ritual: visitar a cova de Aka-Açuz. Chovera à noite e a manhã estava linda, linda como as manhãs em companhia de Alka-Açuz.

Chamou a atenção de Açuzporã uma plantinha que brotara da terra fofa do túmulo de Alka-Açuz. Uma plantinha desconhecida, a que o pajé, ao visitá-la, disse tratar-se do renascimento de Alka-Açuz. Os deuses condoeram-se da Açuzporã e trouxeram de volta Alka-Açuz, em forma de planta. Deram-lhe o nome de alkaçuz.

O pajé, já velho, experimentou a nova planta como remédio e descobriu tratar-se de mais uma entre tantas plantas medicinais, cujo extrato apresenta sabor agradável, aceito com prazer inclusive pelas crianças da tribo.
A vida voltou a sorrir.


 
Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição Especial - Maio de 2009