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Rio
de Janeiro / RJ
02 03 18 31 44 49
02, 03, 18, 31, 44, 49. Marcou com cuidado as dezenas no volante,
preenchendo cada pequeno retângulo de forma que nem um espaço
pudesse ficar em branco. Mega-Sena. Mais de R$50.000.000,00 em prêmios.
Caneta preta, Bic. Não era um homem dado aos jogos, sobretudo
aos de azar. Sabia que grandes fortunas não se faziam da noite
para o dia, mas o impulso gerado por um sonho na noite anterior fez
com que o aposentado desinteirasse R$2,00 dos R$105,00 guardados mensalmente
para as despesas tabagistas. Se não obtivesse sorte no jogo
precisaria abdicar dos cigarrinhos – Hilton Slims – por
um dia, ou dividi-los de forma que fumasse menos a fim de compensar
a falta de R$2,00 dos R$3,50 que lhe custava cada maço diário.
No sonho Adevaldo Gaspar não morava na casa aonde mora com
sua esposa há 31 anos. Morava em um lugar bucólico de
frente para um rio de águas límpidas. Do deque especialmente
projetado ambos molhavam os pés e salpicavam migalhas de pão
para as trutas que coloriam o rio e dançavam ao som da valsa
Danúbio Azul reproduzida na vitrola da sala. A parte externa
da casa era pintada com uma cor a qual não era possível
identificar. Amarelo, talvez creme, gelo, ou, quem sabe, um branco
sujo. Melhor seria defini-la como cor de burro quando foge. Ao lado
esquerdo da porta o número 44 impresso em preto saltava às
vistas. No interior da casa a filha do casal se preparava para cozinhar
uma carne de panela. Temperou com alho, pimenta-do-reino e sal, mas
da carne saía um cheiro putrefato que poderia ser exalado mesmo
pelos pequenos peixes dançantes que prendiam a atenção
do casal. Neste momento, chegam à casa dos Gaspar três
homens montados em seus três cavalos. O relógio de Adevaldo
marcava pontualmente dezoito horas. Levantou-se e dirigiu-se aos distintos
homens. Os cavaleiros se apresentaram como Quijote, Ronnie e Jesus.
Pareciam buscar provisões e forças para suas jornadas.
Cada um dos homens tinha seu próprio destino traçado,
mas mantinham-se juntos por conveniência. Jesus recolheu sobre
a mesa da cozinha um saco de pão... haviam apenas dois, mas
que fora o suficiente para que o homem montasse novamente seu potro
à espera dos demais. Quijote nada quis além de algumas
informações desconexas acerca de um tal Panza e de uma
mulher que, se não falha a memória, chamava-se Dulcineia
e morava em um lugar chamado Toboso. Parece que ambos fugiram em um
ardente caso amoroso. Infelizmente não foi possível
ajudar-lhe. O terceiro homem estava tranquilo. Era baixinho, cabelos
crespo-avermelhados. Não disse nada, não pediu nada
e nada perguntou, mas seu sorriso emanava paz. O homem a quem os demais
chamavam carinhosamente Dio sequer desmontou de seu cavalo. Estava
pronto para partir rumo ao lugar a que lhe pertencia – a eternidade.
As únicas palavras que saíram de sua boca sob uma poderosa
voz foram uns pequenos versos de uma canção: “They
say that life's a carousel / Spinning fast, you've got to ride it
well / The world is full of kings and queens / Who blind your eyes
and steal your dreams / It's heaven and hell”. Com isso os três
homens partiram. Adevaldo acordou aos quarenta e nove minutos do novo
dia. Gotículas de suor oleavam sua fronte.
Anotou cautelosamente cada detalhe do sonho a fim de analisá-lo.
O primeiro número que jogaria seria o 44, que se destacava
em meio à cor de burro quando foge. Jogaria também no
número 03, já que na casa chegaram três homens
montados em três cavalos. Lembrou-se, inclusive, que o número
44 no jogo-de-bicho correspondia aos equinos. O próximo número
seria o 02 – número de pães que Jesus levou consigo.
Achou estranho seu relógio marcar pontualmente dezoito horas,
por isso anotou também o 18. Os últimos números
a anotar foram o 49 e o 31, o primeiro correspondente à hora
que acordou do sonho – Adevaldo que nunca se levantava antes
do seu despertador tocar – e o segundo referente aos seus anos
de casamento. Após chegar a um denominador comum acerca dos
números que apostaria, começou a planejar sua independência
financeira. Compraria um apartamento para a filha, mudaria para Juiz
de Fora, não abandonaria a mulher a quem tanto amava, mas teria
umas duas ou três amantes de dezoito anos que lhe dessem um
novo “gás” enquanto homem... Cruzeiros, viagens,
Paris, Roma, Amazônia, Conservatória... O tão
sonhado casebre à beira do rio...
No sábado, às 19 horas pelo horário de Brasília,
ocorrera o sorteio. 31, 44, 03, 18, 02, e 49. Adevaldo foi milionário
durante os minutos de vida que lhe restaram após ser acometido
por um ataque do miocárdio devido à forte emoção.
No funeral todos choravam a perda de um homem exemplar exceto a esposa
que tinha cinquenta milhões de motivos para não chorar.
Ansiosa, apertava contra o peito o bilhete premiado e aguardava um
momento propício para reclamar o prêmio que por direito
agora era seu.
(Em
memória de Ronald James Padavona – Ronnie James Dio)
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