|
Belém
/ PA
Lembranças de um futuro reencontro
A areia está fria. Enterro mais um pouco os
pés, sentindo-a gelada entre os dedos, massageando minha pele.
O branco mar de areia se estende a minha frente; o sol no céu
já vai se despedindo, quase se apagando no horizonte, dando
lugar à luz crepuscular que me traz tantas lembranças.
Mais a frente está o glorioso oceano, e o vento frio que varre
a praia vem tocar meu corpo com suavidade, acariciando-o gentilmente.
Meus cabelos soltos balançam-se ao sabor do vento; o vento
frio e salgado do mar. Ao longe, próximo ao mar, escuto o chilreio
de algumas gaivotas em busca de alimento. Volto a caminhar, aproximando-me
cada vez mais do oceano; o vento está mais forte, o tecido
leve e diáfano de meu longo vestido azul tremeluzindo exaustivamente
em todas as direções. O frio aumenta, mas não
quero ir embora, não posso ir. Algo me diz para ficar, o vento
sopra palavras há muito esquecidas. Eu chego até a água
e deixo-a lavar meus pés, como se pudesse lavar meu espírito
em desalento. Meu coração quase para ao sentir o toque
de suas mãos sobre o meu ombro, puxando-me ao encontro de seu
corpo, aquecendo-me. Mas o coração se acalma, ele está
aqui. Ele está aqui! Meu corpo reconheceria esse toque onde
quer que eu estivesse, as grandes mãos que fazem as minhas
quase sumirem, que me fazem sentir segurança e nada temer quando
me seguram firmemente como agora. Sempre gentis, carinhosas, acalentando-me.
Ele sussurra palavras conhecidas em meu ouvido, as que ele reservou
para essa horas, para o reencontro, quase cantando-as como uma antiga
cantiga de ninar que ele sabe que eu tanto amo. O sorriso escapa de
meus lábios e ele sorri também, o sorriso que chega
a tocar seus olhos. Os olhos meigos e quase infantis que eu sempre
amei. Repouso minha cabeça em seu ombro e ele acaricia e beija
meus cabelos, ele também me esperava. Ansiava por esse momento
tanto quanto eu. Mas logo percebo que o reencontro será breve,
seria bom demais para ser verdade se fosse para sempre, como tanto
espero, como tanto anseio. Mas ainda não é a hora, e
ambos sabemos disso. Eu preciso ir, é preciso deixá-lo.
Tremo só de pensar nisso, ele me abraça mais forte e
procura por meus lábios, o beijo é doce e calmo. Seu
olhar cálido me promete mais uma vez que logo nos veremos,
mas eu sei que esse logo não significa brevidade, é
apenas uma forma de me manter sã, sempre à espera do
verdadeiro reencontro. A linha tênue entre a realidade e o sonho
já está se desfazendo. Eu sei que não tenho muito
tempo, é chegada a hora de um novo adeus. Seu toque vai se
tornando cada vez mais suave, pouco a pouco se tornando imperceptível,
mas deixando um rastro de calor por onde ele me tocou. Tento prolongar
sua imagem mais um pouco, mas sei que não é possível.
Seus olhos, são sempre seus olhos minha última visão,
e eles sempre estão sorrindo para mim. Até logo, meu
amor. Até breve, ele diz, antes de desaparecer completamente.
Calor é tudo o que sinto agora, a colcha da cama me sufoca
e eu a jogo para longe. Os soluços irrompem no quarto como
se viessem de outro lugar que não de mim mesma. As lágrimas
sem demora vêm se juntar ao choro sentido. É minha cabeça
que veio me trair novamente, e mais uma vez eu esperava que pudesse
ser verdade, que dessa vez eu não precisasse acordar. É
impossível que eu saia incólume dessa vez, a dor chega
mais forte, reclamando sua ausência, ela não me deixará
até que eu o encontre numa próxima vez, mesmo em sonho,
e sempre voltará cada vez mais forte, mais abrasadora. Mas
eu tento me acalmar, preciso me acalmar. Sei que ainda tenho muito
para viver, para aprender aqui. Meu único alento é que
eu sei que ele está a minha espera, que o reencontro de fato
acontecerá, e, buscando forças onde nem sequer sabia
que podia encontrar, eu repito constantemente a mim mesma que o verdadeiro
reencontro acontecerá e novamente estaremos juntos no mesmo
plano. E quando acontecer, nada mais poderá me acordar.
| |
|