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Amanda Ruivo Mello
Antologia on line

Belém / PA

 

Lembranças de um futuro reencontro

 


A areia está fria. Enterro mais um pouco os pés, sentindo-a gelada entre os dedos, massageando minha pele. O branco mar de areia se estende a minha frente; o sol no céu já vai se despedindo, quase se apagando no horizonte, dando lugar à luz crepuscular que me traz tantas lembranças. Mais a frente está o glorioso oceano, e o vento frio que varre a praia vem tocar meu corpo com suavidade, acariciando-o gentilmente. Meus cabelos soltos balançam-se ao sabor do vento; o vento frio e salgado do mar. Ao longe, próximo ao mar, escuto o chilreio de algumas gaivotas em busca de alimento. Volto a caminhar, aproximando-me cada vez mais do oceano; o vento está mais forte, o tecido leve e diáfano de meu longo vestido azul tremeluzindo exaustivamente em todas as direções. O frio aumenta, mas não quero ir embora, não posso ir. Algo me diz para ficar, o vento sopra palavras há muito esquecidas. Eu chego até a água e deixo-a lavar meus pés, como se pudesse lavar meu espírito em desalento. Meu coração quase para ao sentir o toque de suas mãos sobre o meu ombro, puxando-me ao encontro de seu corpo, aquecendo-me. Mas o coração se acalma, ele está aqui. Ele está aqui! Meu corpo reconheceria esse toque onde quer que eu estivesse, as grandes mãos que fazem as minhas quase sumirem, que me fazem sentir segurança e nada temer quando me seguram firmemente como agora. Sempre gentis, carinhosas, acalentando-me. Ele sussurra palavras conhecidas em meu ouvido, as que ele reservou para essa horas, para o reencontro, quase cantando-as como uma antiga cantiga de ninar que ele sabe que eu tanto amo. O sorriso escapa de meus lábios e ele sorri também, o sorriso que chega a tocar seus olhos. Os olhos meigos e quase infantis que eu sempre amei. Repouso minha cabeça em seu ombro e ele acaricia e beija meus cabelos, ele também me esperava. Ansiava por esse momento tanto quanto eu. Mas logo percebo que o reencontro será breve, seria bom demais para ser verdade se fosse para sempre, como tanto espero, como tanto anseio. Mas ainda não é a hora, e ambos sabemos disso. Eu preciso ir, é preciso deixá-lo. Tremo só de pensar nisso, ele me abraça mais forte e procura por meus lábios, o beijo é doce e calmo. Seu olhar cálido me promete mais uma vez que logo nos veremos, mas eu sei que esse logo não significa brevidade, é apenas uma forma de me manter sã, sempre à espera do verdadeiro reencontro. A linha tênue entre a realidade e o sonho já está se desfazendo. Eu sei que não tenho muito tempo, é chegada a hora de um novo adeus. Seu toque vai se tornando cada vez mais suave, pouco a pouco se tornando imperceptível, mas deixando um rastro de calor por onde ele me tocou. Tento prolongar sua imagem mais um pouco, mas sei que não é possível. Seus olhos, são sempre seus olhos minha última visão, e eles sempre estão sorrindo para mim. Até logo, meu amor. Até breve, ele diz, antes de desaparecer completamente. Calor é tudo o que sinto agora, a colcha da cama me sufoca e eu a jogo para longe. Os soluços irrompem no quarto como se viessem de outro lugar que não de mim mesma. As lágrimas sem demora vêm se juntar ao choro sentido. É minha cabeça que veio me trair novamente, e mais uma vez eu esperava que pudesse ser verdade, que dessa vez eu não precisasse acordar. É impossível que eu saia incólume dessa vez, a dor chega mais forte, reclamando sua ausência, ela não me deixará até que eu o encontre numa próxima vez, mesmo em sonho, e sempre voltará cada vez mais forte, mais abrasadora. Mas eu tento me acalmar, preciso me acalmar. Sei que ainda tenho muito para viver, para aprender aqui. Meu único alento é que eu sei que ele está a minha espera, que o reencontro de fato acontecerá, e, buscando forças onde nem sequer sabia que podia encontrar, eu repito constantemente a mim mesma que o verdadeiro reencontro acontecerá e novamente estaremos juntos no mesmo plano. E quando acontecer, nada mais poderá me acordar.

 
Publicado na Antologia "Contos da Madrugada" - Julho / 2010