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Iara Clarice Sabino Alves
Antologia on line

Guaramirim / SC

 

Às vezes o tempo para

 


Sentou-se no sofá, e, diante da TV ligada, mas sem som, começou a folhear o antigo álbum de fotos.
A casa ainda era a mesma onde passara a infância. Um sobrado caiado de branco, na esquina da Rua General Gustavo Faião com a Professor Justino Trancoso. Só o que mudara era a cor do sobrado, que agora era amarelo.
Na foto da fachada da casa, via-se o gramado e as roseiras, que ainda eram os mesmos. Mas não se podia dizer o mesmo do flamboaiã, que aparecia mirradinho à direita. Quem o visse agora, grandioso na sua exuberância vermelha, jamais reconheceria nele, aquele fiapinho de árvore. Pensou, há quanto tempo... Viajou... Retornou às origens...
As fotos têm esse poder de nos remeter ao passado, como se o tempo retrocedesse no espaço, numa outra dimensão. Na dimensão da nossa memória, que cria a ilusão das lembranças.
O tempo não volta, ele é correnteza de rio...
A sala está agora imersa na penumbra daquela hora mágica em que o dia prepara-se para a noite.
Olha o relógio. Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac,tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac...
O tempo é caminho sem volta. Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac...
O tempo é movimento contínuo, cadenciado. Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac...
De repente, percebe que não há mais o som do tic-tac. Volta a sua atenção para o relógio.
Então, conclui que realmente, o tempo não volta. Mas às vezes, ele para, e isso acontece quando lembramos do passado ou quando acaba a pilha do relógio.

 
Publicado na Antologia "Contos da Madrugada" - Julho / 2010