| Belém
/ PA
A
dúvida cruel
Juvenal
é um sexagenário guarda noturno em vias de aposentadoria.
Gracinha, sua esposa vinte e sete anos mais nova, é uma mulher
educada e sensual. Com um permanente e insinuante sorriso nos lábios,
todos que a conhecem ficam fascinados por sua beleza e amabilidade.
O casal não tem filhos, apesar dos quinze anos de matrimônio.
É voz corrente, entre os moradores do bairro, que Gracinha
manda uma brasa extraconjugal. Ela diz que tudo não passa de
mexerico da vizinhança. Na verdade, Juvenal não tem
prova alguma da infidelidade da esposa, patinhando na célebre
dúvida cruel. Ser ou não ser, eis a questão shakespeareana.
Por enquanto, adota o princípio do ”in dubio pro reo”.
Tudo corre normalmente no seu trabalho, até que, uma noite
após a ronda de rotina, Juvenal encontra, ao lado de seu tamborete,
um despacho de macumba composto de uma vela de aniversário
acesa em cima de um cubo de caldo de galinha rodeado de cuí
de farinha de chifre de boi. Mostra para o colega da outra rua que,
sem demora, reconhece como o tipo de feitiço preparado para
o marido não descobrir os safados e as safadezas da mulher.
Ainda era alta madrugada, quando Juvenal alisa a testa, entra em pânico,
abandona o serviço e retorna à sua residência.
De longe, Juvenal vê acesa a luz do seu quarto. Mal coloca a
chave na fechadura, a luz se apaga. Ouve vozes murmurantes e passos
de alguém saindo pelos fundos da casa e, em seguida, correndo
pelo quintal. No quarto, constata a cama completamente desarrumada.
Gracinha - sem graça - vem da cozinha com os cabelos em completo
desalinho e trajando apenas um mini robe branco que, de tão
transparente, dá para ver que faltam duas peças íntimas.
Fala a Juvenal que ouviu um barulho na cozinha e foi conferir. Felizmente,
nada de anormal, arremata com a voz meio embargada. Dá um beijo
na boca do maridão e segue para o quarto.
Surpresa, Gracinha indaga o motivo do retorno àquela hora.
Juvenal prefere encobrir a verdade. Responde que ficou com intensa
dor de cabeça, pedindo, então, para um colega terminar
seu turno de trabalho.
Sentindo um cheiro de perfume estranho e de fumaça de cigarro
que exala pelo quarto, Juvenal raciocina com lógica: - se Gracinha
não usa perfume com este odor e também não fuma,
logo um “pé-de-pano” frequentou, sem cerimônia
alguma, meu leito conjugal. Alega a dor de cabeça para pedir
à mulher que abrisse o postigo da janela. O ambiente fica arejado.
Por fim, dormem.
Pela manhã, ao fazer suas necessidades fisiológicas
e higiene matinal, Juvenal, sentado na retrete, depara com páginas
de jornal cortadas, servindo de papel higiênico. Antes de fazer
uso, tem a idéia de ler a primeira folha do bloco, encontrando
o anúncio da consultora espiritual Mãe Mariana, com
centenas de casos resolvidos com êxito. Agora, irei tirar de
uma vez por todas minha dúvida cruel – pensou Juvenal.
Rasga e guarda a parte da mensagem publicitária. Depois, dá
o devido destino final ao restante da página.
Dizendo à Gracinha que vai sair para resolver assunto funcional,
Juvenal, na primeira esquina, telefona de um orelhão e consegue
uma consulta para aquela mesma manhã.
No consultório, é recebido por uma mulher de meia idade,
com vestimenta típica de baiana e toda paramentada, que se
apresenta como Mãe Mariana. Manda que Juvenal a espere sentado
na sala, onde já tinha um cliente na frente. Acabrunhado, senta-se,
quando o homem que está na vez, começa a puxar assunto.
Diz se chamar Torquato e que veio pedir ajuda à Mãe
Mariana para seu problema financeiro. Pergunta a razão da consulta
de Juvenal, que responde desconfiar de fidelidade de sua mulher e,
em minúcias, narra os motivos da suspeita.
Sabedor do caso, Torquato dá uma tossida, após o que
é chamado à sala da vidente. Com Torquato dentro de
sua sala, Mãe Mariana abre a porta e manda Juvenal se dirigir
à sala dos fundos, a fim de molhar a cabeça com água
de arruda que está dentro de um pote. Ordena, também,
que não fale com ninguém e que ali aguarde até
ser chamado.
Torquato retorna à sala de espera. Entrementes, Mãe
Mariana recebe novo cliente, avisando que tinham dois na sua frente.
Torquato, à semelhança que fez com Juvenal, aborda o
novo cliente, no afã de saber o motivo da consulta. Após
conseguir seu intento, dá a famosa tossida e é chamado
a entrar na sala da consulente espiritual.
A mesma ordem é dada a este novo cliente: ir para a sala dos
fundos, a fim de molhar a cabeça com água de arruda,
etc.
A cartomante chama o cliente da vez. Juvenal sabe que é ele,
mas o nervosismo toma conta do seu ser; quer desistir, preferindo
ficar com a dúvida cruel. Por fim, toma uma decisão.
Argumentando que precisa refletir um pouco mais, aventa a possibilidade
de o outro cliente se consultar na sua vez. O cliente aceita a proposta
e se dirige à sala da vidente no lugar de Juvenal.
Quase uma hora depois, Juvenal é chamado e tem acesso à
sala da Mãe Mariana, para, finalmente, acabar com sua dúvida
cruel. Consulta rápida, questão de aproximadamente quinze
minutos.
O tempo passou. A rotina da casa mudou. Juvenal aposentou-se. Gracinha,
agora, é secretária particular de um jovem empresário.
De tão dedicada ao trabalho e para colocar a escrita em dias,
três vezes por semana, faz serão, até alta madrugada,
em companhia do patrão.
Juvenal, toda noite, ajoelhado na frente de um pequeno oratório,
reza pedindo perdão por ter desconfiado de sua virtuosa e inocente
mulher. Antes de dormir, jamais deixa de beber o chá de capim
gordura que a vidente o receitou. Diz que está se curando de
uma grave doença que Mãe Mariana descobriu durante a
consulta.
Certo dia, Juvenal vai ao banheiro. Desta vez, só toma banho.
Depositada no cesto de papel higiênico, há uma folha
de jornal que, com um pouco de dificuldade, por motivos óbvios,
ainda dava para ler uma manchete policial em negrito: “Homem
mata esposa depois que vai a uma vidente para se curar de grave doença
e descobre que é corno”.
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