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Isabel Cristina Silva Vargas
Pelotas
/ RS
Elos
Juvenal tem muitas lembranças da infância. Família
grande, pai, mãe e quatro irmãos.
A mãe não trabalhava fora. Era analfabeta , cuidava dos
filhos e em épocas que a situação apertava ela
trabalhava fazendo faxinas em casa de família.De trabalho regular,
só o pai que era vigia de uma grande empresa. Trabalhava 12
horas, usava um bastão , revólver e um relógio
que ele utilizava para marcar as voltas que dava em todo quarteirão
da empresa. No verão o trabalho não era de todo ruim,
principalmente quando fazia o turno do dia. Havia movimento. Podia
prosear com um ou outro e o tempo passava mais rápido.
O
problema era à noite. Aí o trabalho se tornava
muito solitário, além de perigoso. Tinha que fazer a
ronda de rua e dentro das salas da empresa. Nestas ocasiões
carregava um chaveiro com dezenas de chaves.
Tinha que entrar, revisar, fechar portas. Naquela época não
havia alarmes eletrônicos, cercas elétricas.
Cada vez que o pai, Romeu, chegava em casa sentiam um alívio.
Isso na ronda noturna, que era sempre alternada . No inverno era um
trabalho difícil, não dava nem para tentar ficar mais
tempo dentro do local, porque tinha que marcar as voltas realizadas.Depois
o chefe conferia se ele tinha feito tudo nos conformes.
Era muito cuidadoso com tudo, inclusive o uniforme. Acho que ele se
sentia como um policial, alguém com algum poder, pois zelava
pelo patrimônio da empresa, carregava arma, tinha chaves e cadeados
de lugares que precisavam ser muito bem cuidados, entre eles o cofre
onde depositavam todo o dinheiro do dia. Não havia carro forte
como agora, assim não era possível depositar o dinheiro
ao final do expediente . Isso era feito pelo contador na manhã seguinte.
O pior era em final de semana que acumulava o dinheiro de sexta e sábado
pela manhã.
Nestas ocasiões ele chegava a sentir calafrios na barriga só de
pensar o dinheirão que ficava lá guardado. Com todo aquele
dinheiro lá não era de duvidar que alguém tentasse
assaltar.
Juvenal recorda as conversas que mantinha com o pai quando ele contava
que apesar de não ter estudo não se sentia rebaixado
perante as outras pessoas, pois era uma pessoa de confiança
, gozava de uma boa reputação na empresa, e zelava pelo
patrimônio alheio.
Só que Romeu não sabia que uma turma das imediações
cuidava toda a sua rotina. Preparavam um golpe, que ao ser aplicado
funcionou como planejaram. Assaltaram o local, levaram uma razoável
quantia de dinheiro e por ser gente habilidosa no trato da safadeza
, apesar de pegos, envolveram o pobre que para sua defesa só tinha
a sua palavra e o histórico de vida, que não serve de
muito quando a malandragem é grande.Os ladrões afirmavam
que eles agiram de acordo com o vigia, que facilitou a entrada deles
.
Apelos alegando a vida pregressa, as condições de pobreza,
a falta de condições de pagar advogado não valeram
de nada. Romeu ficou preso para investigação por algum
tempo. Os demais saíram rápido pois não precisavam
de assistência gratuita.
Romeu perdeu o emprego e a sanidade. Vivia fechado no quarto (depois
de sair da triagem onde ficou preso algum tempo). Examinava cadeados
que ele pedia para Juvenal trazer, pensando, arquitetando saídas
para tentar descobrir como eles tinham roubado, sem violarem portas,
cadeados, cercas e não achava solução.
Acabou sendo internado pela família em um hospital psiquiátrico,
de onde fugiu e passou a viver nas ruas. Não conseguiram mais
encontrá-lo. A mãe –Filomena - teve de trabalhar
de doméstica deixando os filhos na creche.
Juvenal que era o mais velho, não pode deixar de lembrar do
pai, todas as vezes que fecha os cadeados das portas do sanatório,
onde hoje trabalha.
Os cadeados que se abriram para seu pai, o mantêm prisioneiro
das lembranças.
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