![]() |
![]() |
|
Conto
publicado no Livro "Contos de Grandes Autores Brasileiros" -
Outubro de 2011 |
|
O cirurgião plástico
É um cinzelador de seios. Distende o músculo dos peitos, emprega esforço na hecatombe horrenda e doma o monstro aterrador, que torna as mamas tão caídas. Ergue-as, majestosas, sobre o silicone. Elas entram no hospital de um jeito e saem de outro. As “malas dianteiras” volumosas, erguidas, cartões de visitas sob generosos decotes. Ele eterniza as bases potenciais do transformismo. Elas, agradecidas, um dia, ainda lhe erguerão uma estátua, de bronze ou granito, tão felizes ficam. Um dia, surgiu Doralice. Não tinha dinheiro, mas era belíssima. Ofereceu-lhe o corpo perfeito. Era a carne moça que vibrava e gritava à volúpia dos seus instintos masculinos. Em troca, quis lhe dar os mais belos seios. Não se sabe por que, há um caso em cem mil, a cirurgia desandou. Doralice, prostrada no leito, cabelos longos e desgrenhados, pulsação e coração bem lentos. Ela tateia, tenta erguer o corpo frágil; ele, desesperado. A febre arde, o olhar da moça vagueia sem direção certa...olhar de moribunda. O que foi feito das belas formas de Doralice? De gradação em gradação, ela afinava, sumia. De magra, ficou esquelética. Sobre seu corpo bailava um frio vento de mortandade. Ele, o astro do bisturi, que deslumbrou o mundo, vê-se ali, na capela do hospital. Apela para um Deus que nunca creu. Até então, ele era deus! Seu nome superava a glória. Pele primeira vez sente-se impotente, minúsculo; toma consciência das limitações do ser humano. Pensa no seu pós- morte. Não seria lembrado como o gênio da plástica, nome há muito inserido na história da medicina estética. A dor que sente é que o eterniza, agora sabe, maior que a dos mártires, que a dor de Otelo. Bisturis foram feitos para amenizar dor e não provocar a morte. Ele não tinha culpa. Não foi erro médico, mas como conviver com a ideia de que ele a convenceu a fazer a cirurgia, já tendo seios tão perfeitos? Deita-se no chão da capela, prostra-se aos pés da cruz, implora, pede perdão, pede ressurreição. Desanimado, volta ao quarto. A moça, nessa altura, estava em coma induzido, para não sofrer. Murmura ao seu ouvido, pede perdão e jura: deixará de ser cirurgião. Dias depois, o corpo de Doralice começa a lutar para viver. A febre cessa, a infecção diminui. A batalha duríssima, por fim é vencida. Ela fica mais bonita, mais perfeita. O médico volta a sentir-se orgulhoso de sua obra. O romance ainda dura alguns meses, mas depois, cada um segue o seu destino. As promessas nos momentos de desespero foram sepultadas. Ele não tira nem férias, pois todos os meses, surgem clientes vindas do exterior, agendadas com quase um ano de antecedência. |
| Para
comentar ou enviar uma mensagem para o autor, envie email para: |
![]()