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Vicência
Maria Freitas Jaguaribe
Fortaleza
/ CE
O
velho pároco
O
velho pároco, aposentado, retirou-se para
um bairro distante do centro. Nos últimos tempos, porém,
com o crescimento da cidade, não mais sentia essa distância,
de modo que os moradores daquele recanto gozavam o sossego da zona
rural e as facilidades da zona urbana. Construiu uma casa em frente à igreja
e lá foi morar com uma espécie de governanta, cuja família
o servira desde que ele aportara naquela cidade, padre novo, recém-ordenado.
Ele sabia que o fato de ter dentro de casa uma jovem bem apessoada,
mesmo acompanhada
de uma tia já avançada na idade, que tomava conta da cozinha, fora
sempre motivo de falatório. De muito falatório. Mas ele tinha a
consciência tranquila: nunca desrespeitara aquela moça, nunca quebrara
o voto de castidade. No entanto, agora tinha consciência disso, provocara
escândalo entre suas ovelhas, mesmo sem haver realmente cometido o pecado
da carne. E dissera Jesus aos seus discípulos: “Ai do mundo por
causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem
que os causa!”
Um dia, o velho pároco recebeu no seu retiro uma prima – namorada
na adolescência –, que vivia no Rio de Janeiro. Ao fim de uma semana,
ela convenceu-o a passar algumas semanas no Rio. Por lá ressuscitaram,
alquebrado e corroído pela dúvida, mas ainda vivo, o antigo amor.
Ele pediu dispensa ao Vaticano, casou e voltou à cidadezinha para dispor
sobre seus parcos bens. Era outro homem. Desaparecera o ar circunspecto e a aparência
de dignidade que sempre o marcaram. Resolveu o que tinha de resolver, doou a
casa à mulher que o servira por todos aqueles anos e disse a quem quis
ouvir que somente agora encontrara a felicidade. Estava transformado o homem
e morto o sacerdote. Dele, depois, só se soube por boatos. Mergulhara
em uma severa crise de depressão – uma vida inteira fora negada.
Algum tempo depois, a mulher sepultava o que restara do corpo do homem. O que
restara do espírito do sacerdote fora prestar contas a Deus.
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