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Lourival da Silva Lopes
União
/ PI
Pantico
Outro
dia, com tantas contas a pagar, limite do cheque especial ultrapassado,
problemas com filhos, desejei a vida que leva o Pantico. Sem preocupação,
sem problemas. Vida boa. Feliz. No auge dos seus quarenta e sete anos,
não se percebe nele nenhuma aparência de sofrimento, tristeza,
arrependimento, problema psicológico. Nada que o deixe infeliz.
- Se houver outra vida, gostaria de ter a vida do Pantico. Chega de
tanto problema.
Pantico nasceu Francisco das Chagas. De pai e mãe. O pai trabalhava
de carpinteiro, colocava teto em casas. A mãe labutava em casa,
cuidava dos afazeres domésticos. Esporadicamente, o pai tomava
um gole de cachaça. Às vezes o fazia apenas para abrir
o apetite, depois de laboriosa peleja para sobreviver. Já a mãe
todo dia tomava um trago, principalmente na ausência do marido.
Ao completar oito anos, Pantico perde o pai. A vida desandou. Sem o
pai, a família virou de cabeça para baixo. A mãe
que já tomava suas pingas às escondidas, não precisava
mais se esconder. Passara a beber todo dia. Virara alcoólatra.
Com o exemplo de casa, Pantico, aos dez anos, se iniciara na bebida,
influenciado por pescadores do rio Parnaíba com os quais juntava
as branquinhas que pegavam no “engancho” a fim de assar
no espeto para tira-gosto.
Apesar da bebida, conseguiu estudar até o 5º ano primário
no Grupo Escolar Fenelon Castelo Branco, o mais tradicional da cidade.
Mas daí não passou. Futebol, pescaria, cachaça,
diariamente. Tornou-se alcoólatra, de porta de bodega, de manhã,
de tarde e de noite. Nunca mais ficou bom. Bom é como a gente
diz de uma pessoa sóbria. Vê-lo embriagado é uma
constante, rotina mesmo.
Pantico, ainda assim, arranjou um amor: uma mulher lá das bandas
de Altos de João de Paiva com quem teve duas filhas. Como ele
mesmo gosta de dizer:
- Uma é estudiosa, trabalha num hospital de Altos. A outra num
vale nada, se prostituiu. Já sou até avô. Essa minha
filha é uma vadia.
O carinho que o Pantico nutre por uma das filhas faz com que ele passe
um mês sem beber. Um sacrifício e tanto que só um
bom pai faz por um filho. Mas quando não dá mais, o jeito
é voltar para a sua cidade, para a porta dos botequins. E, com
os amigos, tomar aquela pinga deliciosa, feita atrás do balcão,
companheira de tantos anos. Dormir ao relento e passar quatro dias sem
comer nada são condições que ele encara com muita
naturalidade.
- Quando tô bebendo, não sinto fome. Um copo d’água
alivia a minha fome.
Pantico não trabalha. Mas não admite que o chamem de vagabundo.
Não pega no pesado, o corpo não aguenta mais. Mas serve
pra mandado, para dar recado, para fazer favor. Em troca desses serviços,
sempre ganha uns trocados para comprar cigarro e cachaça.
De uma coisa Pantico tem muito medo: da morte. Morrer agora nem pensar.
Quer morrer velhinho, com a graça de Deus. Temente a Deus, faz
sempre o sinal da cruz quando fala em seu nome. Confia muito no homem
lá de cima. No entendimento dele, Deus é um homem igual
a qualquer um de nós.
O fato é que Pantico, um alcoólatra inveterado, acha boa
a vida que leva. Mas admite:
- A vida é um negócio sério. Se você perder
ela, tchau.
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