| |
Larissa
Nascimento Sátiro
Feira
de Santana / BA
Por
trás da porta
Malu tinha mania de se esconder. Uma vez fui encontrá-la na
casa da vizinha, escondida atrás da porta. Que menina levada
que era Malu. Subia e descia procurando um lugar pra se esconder.
Na geladeira, no forno, no guarda-roupas, no armário... enfim.
Era preciso muito cuidado. Fechei o acesso à piscina, trancava
a porta dos quartos, coloquei grades nas janelas, e uma porta de segurança
na escada - tanto para subir quanto para descer. Nunca se via a menina
de tão danada que era. Sumia das minhas vistas todo o tempo.
Brincava sempre sozinha. Falava com as bonecas. Só se ouvia
sua voz... pois ao se aproximar dela, corria de novo desembestada
porta afora.
Mas naquele dia, ela conseguiu burlar a todos e a tudo. Saiu mansa
da casa, pela porta da frente. Seguiu e atravessou a rua sozinha.
Passou pelo jardim de Dona Lúcia e empurrou a porta da entrada.
Olhou a sala toda com aquele olho guloso. Tantos lugares novos Malu
podia perceber. Ficou atrás da porta por acaso. E viu passar
a vida pela casa. Os filhos de Dona Lúcia que nem percebiam
a solidão da mãe. O marido que se arrastava pelo sofá.
A tristeza de Dona Lúcia fazendo aquele bolo gostoso de chocolate.
O cachorro barulhento que latia o tempo todo. O rapaz que foi consertar
o forno. O desespero de todos porque a resistência do banheiro
queimou. Malu tinha um olho grande, parecia olho de boneca. Brilhava
tanto que quase ofuscava se olhasse dentro dele. E ela via tudo isso
de trás da porta.
Quietinha ali viu o rapaz da pizza que chegava para preencher o vazio
daquela casa. E viu todos se sentarem para comer. Cada um num canto.
E aquele momento mudo parecia deixar a todos mais à vontade.
Não precisavam fingir que queriam conversar ou que se importavam.
Ou que aquele silêncio não os incomodava. Porque estavam
ocupados, comendo... Talvez por isso, pensou Malu, comessem tanto.
O dia se passou com todos à procura de Malu. E qual não
foi a minha surpresa ao bater na porta da Dona Lúcia pra perguntar
se sabia da menina, ao vê-la se abrir de leve, por uma mãozinha
que eu conhecia bem. Ninguém percebera Malu. A própria
Dona Lúcia se assustou ao perceber que a menina estivera ali
por tanto tempo. Então lhe perguntei naquele tom bravo de mãe
que está mais feliz por rever a filha do que querendo realmente
repreendê-la: - Malu, menina levada, o que você estava
fazendo aí?
E ela, com aquela voz doce e despretensiosa, carregada de uma ingenuidade
comum às crianças que não são criadas
pela TV ou pela babá, respondeu: - Estava procurando um local
pra me esconder. Mas não encontrei. Então fiquei aqui
parada esperando a tia Lúcia me ver para eu pedir pra ela me
levar pra casa. Mas ela não me viu. Malu nem sabia, mas estava
escondida bem no canto da sala. Sem precisar de cortinas nem de portas,
como as pessoas fazem hoje em dia. Peguei minha filha e a levei pra
casa. Desse dia em diante reabri o acesso à piscina, abri a
porta dos quartos, retirei as grades das janelas, e a porta de segurança
da escada - tanto para subir quanto para descer. E passei a ficar
mais perto da Malu. E vejo sempre minha filha correndo comigo pela
casa e brincando com o noso cachorro, que não tínhamos,
e vindo sempre me contar suas descobertas. E Malu nunca mais sumiu.
|
|
|