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Carlos
Américo Kogl
São
Roque / SP
O
observatório
Juvenal arrumou um emprego novo. Nada extraordinário, mas por
ter sido concursado, sabia-se de futuro garantido. Já tinha
passado dos trinta e cinco e havia tempos andava preocupado com as
coisas da vida. Desde a ampliação de sua casa na periferia
de São José, passando pela escola dos filhos e a saúde
da mulher. Agora, mais aliviado, até conseguia acompanhar um
ou outro jogo de seu time, desde que passado na tevê aberta.
Mas, com este concurso, para o qual estudou com a ajuda de muitas
pessoas, Juvenal estava mais tranqüilo. Agora era funcionário
municipal, com cesta básica, salário em dia certo, assistência
médica e garantia de vaga na escola. Ficou mais contente ainda,
quando foi designado como faxineiro do observatório de São
José. A prefeitura mantinha um convênio com uma série
de outras entidades, cujas siglas o Juvenal nunca entendeu ou soube
dizer da sua serventia. E lá foi ele conhecer seu novo local
de trabalho. Ficou pasmo, tudo era limpo, quase que brilhando. Assim,
pensou, iam logo perceber que sua presença era desnecessária
e ele logo teria de voltar para o almoxarifado. Tratou de lambuzar
o chão logo na primeira meia hora. Depois de uns três
dias, apareceu por lá uma pessoa estranhíssima, se visto
pela ótica do Juvenal. Um cara que fala sozinho, apaga o lápis
no cinzeiro e deixa o cigarro aceso sobre a dobra do livro, não
pode ser normal. Deve ser maluco. Maluco não, meu caro, cientista.
Seguiu-se sonora gargalhada. Olhe meu caro Juvêncio, Juvenal,
certo. Olhe meu caro Juvenal, aqui não precisa limpar muita
coisa, mas precisa estar atento ao painel de instrumentos e ao radar.
Nós solicitamos que nos fosse mandado um auxiliar, na bem da
verdade fui eu que pedi e me lembro bem de que a pessoa perguntou
se era pra fazer de tudo um pouco. Este cientista nunca imaginou que
lhe fossem mandar um auxiliar de serviços gerais. Mas como
quem não tem cão, caça com mata moscas mesmo,
o Cientista muniu-se de toda a paciência de que foi capaz e
passou a ensinar o Juvenal. Primeiro ele aprendeu sobre as estrelas,
os cometas, os asteróides, as galáxias. Depois, pouco
a pouco, passou a entender dos instrumentos e da sua serventia. Adorava
ir trabalhar, levava os filhos, lhes explicava tudo, mesmo que não
se lembrasse direito. Ia até em dia de folga. O tal cientista
só aparecia umas duas vezes por semana, e fora este, Juvenal
nunca conheceu mais ninguém. Os meses foram passando e Juvenal
já estava até ficando parecido com o cara. Aliás,
era o que repetia sempre que podia: "Este é o cara!"
Me ensina e não me desdenha, não me diminui. Uma noite
de sábado, daquelas noites de lua cheia em que o telescópio
serve para atrair a namorada, tal e qual faria uma arapuca, Juvenal
levou a esposa para que ela visse com "os próprio zóio
as maravilha do universu". Zoraide caiu de joelhos e agradeceu
a Jesus a benção do marido, do emprego do marido, dos
filhos e desatou a orar. Não queria nem saber de olhar no buraquinho
que o Juvenal insistia em lhe mostrar. Deve ser o cano do Demo, se
bem que tanta coisa que se está agradecendo, não pode
ser coisa ruim. Mas e se for ardil. O Demo é cheio de enganos,
sempre a espreitar para depois dar o bote. Na Bíblia está
escrito. Já deveria ser do conhecimento de todos, mas a humanidade
insiste em não prestar atenção nas sagradas escrituras.
A única vez em que parou de orar foi para alertar o marido
de que a presença dela por lá talvez não fosse
bem vinda. Claro que é "muié"! O Dr. Cientista,
aquele do nome estranho de quem lhe falei, me autorizou a vir sempre
e com quem eu achasse digno de conhecer este lugar. Uma luz começou
a piscar. Primeiro era verde, mas rapidamente se transformou em laranja.
Logo a seguir um sinal sonoro insistente e bastante "perturbento"
também passou a inundar o ambiente.
Zoraide, a beira de um "colápis" principiou a gritar.
Juvenal correu para o telefone e apertou o botão vermelho,
igual lhe haviam ensinado. Alguém atendeu: "Quem está
ai?" Ora quem... Juvenal, oras. Dentro de minutos, duas viaturas
da polícia estavam levando o Juvenal e a mulher dele para a
delegacia. Preso por invasão de propriedade privada. Explicou-se,
mostrou sua credencial de funcionário municipal, o crachá
do Instituto e a cópia da chave. Apesar de o lugar ser todo
automatizado, não carecendo sequer de quem o limpe, as dúvidas
pareciam desfeitas. Mesmo assim, o Delegado quis saber mais e reteve
o casal. Enquanto isso, o funcionário do Instituto que cuida
do observatório por monitoramento remoto, que havia ficado
por lá, após a saída da polícia, apavorou
a todos que pôde. mandou e-mail, telefonou, enviou fax e gritou.
O sinal do qual foi alertado pelo Juvenal, era o sinal de uma aproximação
de um meteoro, que vinha feito bala em direção a São
José. Iria destruir tudo e pelo que apontavam os instrumentos
seria dentro de no máximo duas horas. Nunca mais se soube de
nenhum destes personagens, todos pulverizados pelo impacto. Sobraram
remotos registros das comunicações do funcionário
do Instituto, armazenadas nos servidores das Universidades e órgãos
outros que ele manteve contato. Como este nunca se identificou e apenas
mencionava o nome do Juvenal, a depressão originada pelo impacto
acabou conhecida como Cratera do Juvenal. Hoje, passados mais de cem
anos do fato, dois historiadores descobriram que o cientista insistentemente
lembrado, na verdade, havia falecido uns bons dez anos antes do nascimento
do nosso auxiliar de serviços gerais...
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