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Clint
Rodrigues Correia
São
Paulo / SP
Indecisão
Eu tenho um amigo que é indeciso. Não estou me referindo
àquele tipo de pessoa que não sabe o que quer na vida.
Trata-se de um caso mais grave, daqueles em que a pessoa não
sabe se quer saber o que quer na vida.
Futebol ou vôlei, refrigerante ou suco, filme ou desenho, qualquer
situação que lhe fornecesse duas soluções
igualmente possíveis se tornava um problema dos grandes, a
ponto de ele precisar encontrar uma nova solução para
resolver qual solução ia usar para solucionar a situação.
Confuso, não? Acreditem, vocês ainda não viram
nada...
Quando éramos garotos, o pai dele nos levou para tomar sorvete
no parque. Acredito que os problemas começaram ali, quando
o sorveteiro perguntou qual sabor de sorvete que ele queria. Após
isso, ele ficou em silêncio. Olhava para a placa, para o sorveteiro,
depois novamente para a placa e novamente para o sorveteiro. Os mais
de quinze sabores diferentes faziam seus olhos irem e voltarem várias
vezes, até que - juro! - o sorveteiro se cansou e foi embora.
Acredito que nunca alguém conseguiu bater o recorde, estabelecido
naquela tarde, de trinta e dois minutos para escolher um sabor de
picolé.
- Hei, volta aqui! Eu quero o de chocolate! - ele berrou.
O sorveteiro voltou, já contrariado e abriu seu carrinho.
- Chocolate branco ou ao leite? - perguntou.
E lá se foram mais sete minutos e meio. Naquele dia, aprendi
meu primeiro palavrão, audível quando o vendedor foi
embora, praguejando.
No colégio, ele levou cinco meses para decidir se queria entrar
no clube de xadrez ou de matemática. Escolheu xadrez. Foi expulso
no segundo dia, após levar quase vinte e três minutos
para dar o primeiro lance.
Faculdade? Deus do céu! Desistiu de fazer a inscrição
para o vestibular de Engenharia no exato dia em que se encerravam
as inscrições para o vestibular de Administração.
Nem preciso dizer que teve de sair correndo, atravessar dois semáforos
vermelhos e cruzar metade da cidade para chegar antes das 17 horas
no local das inscrições. Quando já estava lá,
pensou melhor.
- Não. Não é isso. Acho que vou fazer Odontologia.
No final das contas, foi convencido a fazer a inscrição
para Administração, por cautela, e passou em ambas.
Optou por Engenharia...
Dividimos uma república com outros estudantes. A procura pelo
apartamento só não demorou mais porque um dos nossos
colegas fechou contrato sem a participação dele. Certo
dia, pedimos para ele ir à padaria.
- Preste atenção, Carlos! Você só tem que
pegar a fila e dizer "quero dez pãezinhos", entendeu?
- Entendi. "Quero dez pãezinhos" - ele repetiu.
E lá se foi o Carlos. Passaram-se dez minutos, vinte, trinta,
uma hora, uma hora e meia. Ficamos preocupados e eu fui à padaria
ver o que tinha acontecido.
Lá estava o Carlos, parado em frente ao balcão, olhando
para duas cestas cheias de pães. O padeiro me disse que ele
havia ficado assim e que não tinha respondido mais nada depois
que perguntaram a ele se queria os pãezinhos mais brancos ou
torrados.
Conseguimos o convencer a procurar um médico. Na clínica,
Carlos e o médico entraram no consultório, mas até
hoje ele não nos conta porque o médico saiu da sala
cerca de quarenta minutos depois, xingando tudo e todos, dizendo que
pensava seriamente em abandonar a profissão, pois não
era obrigado a aturar aquilo.
Um dia ele conheceu uma garota. Ela era loira. Não sabia se
a levava no cinema ou no teatro. Levou num restaurante, mas ficou
na dúvida entre os de comida japonesa, italiana ou portuguesa.
Foram ao teatro.
Os dias foram se passando e os encontros também. Mas Carlos
conheceu outra garota, morena, e passou a encontrá-la aos sábados
e domingos. Ele e a loira saiam apenas durante a semana útil.
Mas não se passou meio mês até que Carlos conhecesse
outra moça, ruiva. Ficou complicado. Passou a sair com a loira
às segundas e sextas, com a ruiva às terças e
domingos, e com a morena às quintas e sábados. A quarta
era do futebol com os amigos, embora na maioria das vezes ele faltasse,
pois ficava em dúvida se ia com as chuteiras brancas ou pretas.
Depois de um dia exaustante, ele nos surpreendeu dando os primeiros
sinais de uma posição realmente firme:
- Vou começar a namorar sério! - ele disse.
Eu, que estava almoçando, quase engasguei com um pedaço
de frango. Os outros dois também sobressaltaram no sofá.
- É verdade, vou começar a namorar, eu acho... - fraquejou.
- Com quem? - perguntei, limpando a boca com o guardanapo.
- Aí é que está - ele disse - não sei.
Todas são tão maravilhosas que eu não sei...
Passaram-se três semanas. Até que um dia vimos Carlos
voltando cabisbaixo do trabalho. Contou-nos que ficou tão transtornado
em não saber qual das moças pediria em namoro que acabou
resolvendo namorar as três. Ninguém sabe de onde ele
tirou essa idéia maluca, mas o fato é que mandou três
presentes diferentes (comprados depois de quase cinco horas no shopping),
cada um com um cartão específico, para cada uma das
três mulheres. Mas cometeu um grave equívoco e trocou
todos os cartões: o cartão da ruiva mandou para a loira,
o da loira para a morena e o da morena para a ruiva. Resultado: as
três terminaram com ele, no mesmo dia. Pobre Carlos. Estava
arrasado. Não parecia o Carlos que conhecíamos.
- Não fique assim, cara - disse um dos nossos amigos - o mundo
está cheio de mulheres.
- Não, não é isso - ele disse - não estou
assim por causa disso.
- Então o que foi, Carlos? - perguntei.
- É que eu tentei me explicar para Marília (ruiva),
mas ela berrou comigo "Você é um cafajeste ou está
de brincadeira?" - ele disse, levando as mãos ao bolso
- faz duas horas que eu estou tentando decidir...
Definitivamente, aquele, sim, era o Carlos que conhecíamos.
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