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Wesley
Lyeverton Correia Ribeiro
Forteleza
/ CE
Benjamins
Quase seguindo um regimento, ela descia a escada do casarão
e vagava sem rumo pelas calçadas antes mesmo da cidade despertar.
O tom alvo ditava a cor do vestido que esvoaçava sem direção.
A moça de palidez ímpar era motivo de interrogações
nas rodas de jogatinas que se reuniam sob os seculares alpendres.
Em diversas ocasiões, fora vista empregando horas de seus dias
a regar os pequenos benjamins, ainda de caule delgado, como se em
pouco tempo eles fossem lhe oferecer frutos em retribuição.
Também, era seu prazer freqüentar o túmulo de seus
ancestrais. O pioneirismo estava no sangue da família. Mercadores
afamados em toda a região, eles acumularam fortuna e desgraças.
Trindade, a pequena cidadela, lembra muito bem de Júlia, a
sua irmã primogênita que se enforcara com um punho de
rede por razões desconhecidas e de sua mãe que desolada
louca por ter sido abandonada em quanto estava grávida a lhe
esperar.
O antigo solar ainda guardava em suas paredes os vestígios
de vida. As louças de porcelana inglesa, os móveis de
jacarandá envelhecidos, tapeçaria turca, um pequeno
oratório no quarto dos pais e penteadeira no quarto das jovens.
Na sala, repousava um piano alemão herdado de um parente de
outros tempos. Lembranças fugazes.
Aquela região já fora pouso obrigatório dos trens
que partiam da cidade. E foi com esse objetivo que Trindade sugira
no meio do chão de terra enegrecida, para servir de ponto de
descanso às enfadosas viagens do café. Homens e animais
de carga disputavam o território, as poucas sombras e tamanha
desesperança. A vida era circular. Naqueles tempos em que a
crise assolara os cafezais, a jovem Madalena recebeu a notícia
que o nome de sua família sucumbira em meses. O retorno a terra
era inevitável.
Rua das Sombras, assim era conhecida a rua principal e donde todas
as outras partiam em direção ao nada. Em uma de suas
extremidades estava fincada a capela do cemitério e na outra,
a porta da pequena igreja que se abria às beatas. Naquela mesma
alameda, já vicejavam os frondosos benjamins de outrora quando
Madalena ressurgira de um dos vagões do trem vespertino com
seu guarda-chuva branco, em cuja extremidade se amostrava um detalhado
bordado, e trajando um longo vestido cintilado. Junto aos benjamins,
pôs-se a caminhar de modo cadenciado tal como fora educada nas
melhores escolas francesas. As janelas de madeira nobre do velho solar
foram abertas. Mas, há anos tomado pelo pó, o teto já
não expressava os afrescos esverdeados que tanto aguçava
a imaginação da pequena Lena.
Com o olhar expressivo e boca aveludada pelas rugas, nunca direcionou
a palavra a qualquer pessoa, tratando a todos monossilabicamente.
Madalena fora uma incógnita por toda a vida. Depois que retornara,
sem nenhuma renda, restara-lhe comer as frutas e verduras que o pequeno
pomar e a horta, encravados no fundo do quintal, ofereciam e vestir
as roupas de sua finada mãe. Diariamente, fazia o trajeto da
Rua das Sombras, assim como quando era criança. Às quartas,
assistia a novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro na pequena
igreja, logo após, seguia ao túmulo de seus mortos.
As acinzentadas nuvens cobriram a cidade. A intensa chuva se aproximava.
Era dia de Santa Bárbara e de novena. Madalena acordara cedo
para por, em seus devidos lugares, os inúmeros recipientes
que aparavam as goteiras do telhado infiltrado pelo tempo. Saiu ao
anoitecer, se dirigiu a igreja e depois ao cemitério. Pôs-se
a sentar junto ao túmulo de mármore e chorou incessantemente.
Encostou sua cabeça junto aos pés do Cristo em bronze.
Restaram-lhe os últimos pensamentos, enquanto a gralha sobrevoava
os benjamins.
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