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Valéria
Victorino Valle
Anápolis
/ GO
Escritos
Desprezou a nódoa do passado e seguiu o luar esverdeado a fim
de distorcer para ajustar os alicerces da vida miserável. Acreditando
ser construtor e arquiteto, propõe-se a enfrentar as frases
escritas a lápis no cantinho das folhas antigas, bem guardadas
dentro do armário de mogno na sala de leitura.
Entardecia. Contava as folhas a serem vencidas. Cinco. Não
demonstrava nenhuma ansiedade, só determinação.
Uma estranha segurança diante do móvel embaçado
e há tantos anos esquecido. Parou diante dos papéis,
tocou-os com a mão esquerda e num gesto enigmático suspirou
profundamente. A poeira e o mofo emprestavam aspecto de abandono e
mistério às folhas encardidas. Não desistiu e
nem se intimidou. Limpou-as bem.
Agarrou o precioso tesouro e percorreu com os olhos marejados toda
a sala. Com intimidade, absorveu as paredes e os outros móveis
há tanto tempo desprezados. Empurrou as imagens da janela e
da porta semicerradas. Prontificou-se a ler as antigas frases. Acariciou
os cabelos grisalhos, secou as lágrimas dos olhos serenos e
esfregou as mãos aquecendo os dedos e a alma.
Escurecia. Num gesto decidido pega a primeira página e busca
as anotações segredadas. Não as encontra. Num
pavor súbito, vasculha apressada, e depois lentamente, todos
os papéis e constata: não há nada. Aperta as
folhas entre os dedos, agora gélidos, e seus olhos encheram-se
de decepção e arrependimento.
As sensações foram logo substituídas por uma
outra mais intensa: o medo. Mal se refez da surpresa, quando ouviu
uma voz familiar dizendo:
- Mudei de lugar e de nome outra vez.
- Não pode ser. Você de novo?
-Sim. E afinal você veio. Estava à sua espera.
-Pra quê?
-Nada.
- Como nada? – Reclamou estarrecido com a resposta - Por que
se preocupa em criar enigmas e disfarces para perseguir-me?
- Antes que faça outras perguntas, como é o seu hábito,
já vou dizendo que sou único, não uso máscaras.
E, além do mais, como poderia lhe perseguir, se você
não se desgruda de mim? Você sempre surge em mim.
- Eu? Grudado em você? Está louco? Onde estão
as minhas anotações? Devolva-as, imediatamente. –
Gritou o infeliz.
- Não posso. – Disse calmamente.
- Pode sim, você não quer devolvê-las. –
Berrou desesperado.
Atirou-se sobre o incômodo ser que parecia divertir-se com seu
desespero. Nada encontrou. Ninguém. Não tinha corpo,
mas estava lá. Alguém. Sem saber o que fazer, se recorda
da janela e da porta entreabertas e tenta sair daquele lugar sufocante.
Estão cerradas. Vidro, madeira, ferro e grades estreitíssimas
e pontiagudas.
Amanhecia. Impotente e melancólico, ele olha através
da janela e vê, bem próximas à vidraça,
as suas folhas escritas sendo espalhadas lentamente pela brisa fresca
da manhã.
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