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Valmari
Santos Nogueira
Salvador
/ BA
A
alma penada
Acordei tarde da noite com a mão de um brutamonte sobre o meu
tórax. Era uma mão pesada e muito fria. Ainda meio sonolento
a senti deslizando sobre mim, deixando-me ofegante e espalhando um
rastro de gelo por onde passava. Após um breve susto, desperto,
atinei ser uma alma penada querendo me assustar. Enquanto eu pensava,
aquela enorme mão fria e pesada continuava a me atormentar.
Pensei em mil e um planos mirabolantes - exageros à parte -
para agarrá-la e, quem sabe, tornar-me o primeiro vivente a
ter o privilégio de, concretamente, agarrar uma alma.
O coração batia bastante acelerado e o temor do contato
real com um fantasma me fazia tremer feito vara verde. Enquanto isso
a monstruosa mão continuava me esmagando. A sensação
era que sobre a minha caixa torácica havia um corpo estranho
pesando mais de uma tonelada, tal a pressão exercida sobre
meu peito.
Refleti e falei comigo mesmo: vou dar um bote certeiro e segurar esta
danada! Agora sou eu ou ela! Vamos ver quem possui mais farinha no
saco! Como uma cobra espreitando a futura presa, me pus em absoluto
silêncio só quebrado pelo ressonar das minhas tias dormindo
no quarto contíguo ao meu. Estava preparado para o ataque.
Fui deslocando a mão direita lentamente em direção
à monstruosa mão do brutamonte a me comprimir. Fui levando
devagarzinho e vapt-vupt! Num só golpe agarrei com vontade,
segurando-a bem firme e gritando bem alto: - Tia Eulina! Tia Eulina!
- O que foi Vavo?
- Eu peguei uma alma! Chega rápido. Estou segurando a danada!
Chega rápido tia! Daí a pouco as tias Eulina, Neném
e Elvira, que dormiam no quarto ao lado, riscaram um fósforo,
acenderam o pavio do candeeiro e, rapidamente, partiram de lá
em meu socorro. Entraram no meu quarto e eu estava com a cara de bundão.
Amarelo, igual menino comedor de terra, segurando o próprio
braço, crente de estar segurando o braço de um fantasma.
Minhas tias começaram a gozar com a minha cara...
- Que alma que nada seu medroso! Você tá segurando é
o seu próprio braço - disse tia Neném. Onde já
se viu um menino com 12 anos, um rapazote, morrendo de medo do próprio
braço? Toma jeito de homem rapaz! - chamou-me à responsabilidade.
- Você é um homem ou um saco de pipocas?- perguntou tia
Elvira, tentando ferir os meus brios de homenzinho, encorajando-me
a continuar dormindo naquele quarto sozinho.
Não teve encorajamento certo. Naquele dia e noutros tantos,
eu dormi mesmo foi no quarto das tias. Não tava nem aí
se elas me chamavam de medroso ou coisa que o valha. A casa onde morávamos
contribuía para reforçar a minha fobia. Era imensa.
Somente quartos, havia sete. E fatos estranhos - embora eu nunca os
tenha presenciado -, como móveis sendo arrastados, grãos
jogados pelo soalho da casa, cachorros fazendo festa como se alguém
tivesse entrado na sala em plena luz do dia, elas comentavam ter acontecido.
O meu medo era justificável. As tias dormiam num só
quarto. E eu, um projeto de homem, aos 12 anos, tinha que provar a
adolescência precoce dormindo num quarto sozinho, enfrentando
assombrações de almas penadas. Isso não era justo!
Justo ou não o apoio das tias durou pouco. Logo trataram de
me expulsar do aconchego do quarto delas e tive de me contentar em
dormir sozinho no meu quarto, sujeito às lembranças
atemorizantes de seres do além. Os primeiros dias de retorno
aos meus aposentos foram difíceis. Não tive sossego.
O meu sono era constantemente interrompido. Bastava o farfalhar de
folhas no jardim, as pisadas dos cachorros na varanda, o ressonar
das tias no quarto ao lado, para despertar assustado. Entrei em paranóia.
Cobria-me todo, com minha "dorme bem" da cabeça aos
pés, mesmo sob o calor insuportável. Deixava apenas
a ponta do nariz de fora. Mal podia respirar.
Com o decorrer do tempo e por não ter outro jeito - fui sumariamente
expulso do quarto das tias - me acostumei a dormir sozinho e a enfrentar
as patacoadas fantasmagóricas. Aprendi a conviver com todos
aqueles fatores que me enchiam de medo. A conviver com os meus fantasmas.
Os fantasmas que construíram dentro de mim. Cheguei à
conclusão de que não existiam. A prova cabal das minhas
suspeitas foi ter me assombrado com a própria mão, adormecida
e gelada sobre o meu peito, por falta de circulação
do sangue para irrigá-la, devido ao mau posicionamento do meu
braço ao dormir.
Eu me assombrei com uma parte do próprio corpo! Tem cabimento
uma coisa dessas? Deve ter sido o mesmo que certo dia aconteceu com
tia Elvira. Ela acordou tarde da noite, assombrada, dizendo que alguém
estava lhe agarrando. Isso causou um alvoroço sem precedentes.
Todos nós acordamos, nos armamos das armas que dispúnhamos
no momento: faca, cabo de vassoura, facão e vasculhamos todo
aquele enorme casarão, cômodo por cômodo, debaixo
das camas, atrás das portas, nada encontrando.
Naquele dia ninguém conseguiu dormir mais. Passamos o restante
da noite em vigília, investidos de um misto de medo e determinação,
à espera do tarado, ladrão ou quem quer que fosse aparecesse
para o castigarmos severamente. Isto é, se o medo que falava
mais alto não atrapalhasse a consecução daquela
empreitada. Foi um resto de noite tenebroso. Amanhecemos o dia sem
pregar os olhos, em vão.
Concluí que tia Elvira passou por situação semelhante
à minha. Com a falsa impressão de estar sendo agarrada
por alguém. Quanta gente não deve ter passado pelos
mesmos dissabores e sai por aí, mundo afora, a difundir boatos
de já ter sido tocada por fantasmas? Você tem dúvidas
quanto a isto? Eu, que já passei por tal experiência,
não.
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