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André Leite Fernandes

Crato / CE

 

As ruínas do Crato


O ano era 2029. O Crato, assim como as cidades vizinhas padecia em meio à corrupção, falta de segurança, de água e de energia. A polícia vivia em guerra contra a população, os bandidos e ela mesma. Saques eram realizados em casas e lojas durante o dia e a noite. Os cidadãos usavam armas e criavam cães de guarda em casa. A cidade estava suja, ruas esburacadas, árvores morrendo nas praças, sem opções de lazer, sem vida social, as pessoas não se encontravam em lugares públicos para conversarem com medo de assaltos. Alguns supermercados grandes abriam a tarde cercados por seguranças, esporadicamente tendo tiroteios. Todos viviam com medo. A comunicação se dava mais por telefone celular e internet 3G, a rede de telefonia estava danificada. Os governantes não ligavam para o povo. Não havia água nas casas a não ser um dia por semana. Crimes e abusos eram costumeiros em todos os lugares da cidade.
Eu era professor universitário e morava em uma casa própria com minha esposa e meu filho, afastado da cidade. Criava três cães de guarda grandes. Prevendo esses acontecimentos, havia construído uma cisterna de 50 mil litros de água para captar da chuva e a energia era de placas solares. Tinha que manter segredo sobre minhas reservas para não entrar em conflito com os chefes da cidade. Minha casa era uma construção simples com três quartos e um vão unindo salas e cozinha. Eu tinha duas espingardas e andava com uma pistola em uma bainha presa na canela, por baixo da calça. Mudei o horário das aulas que dava para a manhã, pois à noite havia toque de recolher. Havia poucos alunos nas turmas. A educação tornou-se supérflua naquela época, o que interessava era sobreviver. A cidade estava pouco habitada. Metade da população havia se mudado ou morrido. Isso era um retrato de toda região Nordeste; desordem, fome, aviolência; o país perdeu o rumo do progresso e se entregou a mais cruel anarquia. Muitos cultivavam legumes em casa e criavam galinhas para ter alimentos.
Mudei meus pais para minha casa para protegê-los melhor. Esporadicamente fazia denúncias com fotos pela internet buscando ajuda internacional mas não recebia resposta. Foi realmente um pesadelo, uma premonição.
O Cariri é uma das regiões mais belas do Ceará hoje, mas se tornaria num campo de guerra.

 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010