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Hélio
Sena
Massapê
/ CE
Boneca
de pano
A boneca
era da minha irmã e, nossa!, como eu a temia...
“A tua irmã?”
“Não, a boneca!”
“Por quê?”
“Ela era de pano...”
“Só por isso?”
“Ela tinha uns olhos grandes, enormes...”
“...”
“Você já reparou alguma vez nos olhos das bonecas
de pano?”
“Nunca reparo nessas coisas, Leo, você sabe disso.”
“Pois repare, repare.”
“O que é que tem demais?”
“Todas têm olhos esbugalhados; como se estivessem vendo
assombração. É terrível, cara!”
“E isso te assusta?!”
“Assusta...”
“Quanto?”
“Muito!”
“Leo, você é esquisito, hem?”
...
Entrei no quarto e lá estava ela – a boneca – sobre
a cama. Esparramada. Pernas e braços abertos, moles. A cabeça
pendida para o lado. E os olhos querendo saltar das órbitas
e engolir tudo...
Recuei, apavorado. E esbarrei em minha irmã, que vinha entrando.
“O que você tá fazendo no meu quarto, Leo, posso
saber?”
Eu fiquei mudo. Um bolo tapava minha garganta.
“Leo, você tá pálido! Vou chamar a mamãe!”
...
Minha mãe chegou e eu continuava imóvel, mas o coração
acelerado, os olhos mais arregalados que os daquela maldita boneca...
Que estava ali, bem atrás de mim!
“Leo, fale comigo!”
“Hã?”
“O que você tem, meu filho?”
“Nada... Preciso sair daqui, mãe. Por favor...”
...
Fui então levado para a sala. O transe havia passado.
Minha mãe não me fez mais perguntas. Me preparou um
chazinho e se mandou para o encontro mensal das senhoras do bairro;
já estava um pouco atrasada...
Mas minha irmã insistiu:
“O que você queria no meu quarto, Leo?”
“Fui pegar aquele DVD que a vovó te deu...”
Ela ironizou:
“Você não acha que tá grandinho demais para
ver aquele DVD, não, hem?”
Me deu vontade de responder:
“E você, não tá grandinha demais pra ficar
brincando com... boneca de pano?”
Mas fiquei calado: eu tinha 15 anos, e Duda... 7, apenas!
...
Mais tarde, consegui perguntar a ela:
“Duda, quem te deu aquela... boneca?”
“Qual?”
“A de pano...”
“Ah, ganhei na escola. A professora sorteou. Não é
linda?”
Linda?!
Eu ia falar que era horrorosa, isso sim!, mas meu pai vinha chegando
e eu me concentrei na TV...
...
“Tá, Leo, mas agora você tem 36 anos! Não
vai me dizer que boneca de pano ainda te apavora, né?”
“Apavora... Sem brincadeira, eu prefereria ficar uma noite inteira
num cemitério abandonado a permanecer 30 segundos na mais simples
lojinha de brinquedos!”
“Cara, isso realmente é hilário!”
“Se eu soubesse que você ia fazer troça, não
teria vindo aqui te contar nada, Guilherme!”
“Não tô troçando de você, Leo.”
“Você por acaso não tem medo de nada, cara?”
“Tenho, sim, Leo. Da violência, por exemplo. Satisfeito?”
...
Minha irmã, felizmente, não tinha o hábito de
levar seus brinquedos para fora do quarto. Como lá eu não
voltaria a pôr os pés, aquela foi a primeira e a última
vez que deparei com a boneca...
...
É, nunca mais vi a coisa...
E olha que Duda a conservou durante muitos anos!
Até a metade da adolescência...
...
“Como você sabe disso, Leo?”
“Minha mãe. Um dia, eu a ouvi perguntar à Duda
o que ela fizera com a Maria...”
“Maria?”
“Sim, Maria, a boneca. Era este o nome dela.”
“E o que tua irmã respondeu?”
“Disse que tinha jogado no lixo. Fiquei tão aliviado,
cara!
...
O Gui achou estranho eu nunca ter contado a história da boneca
para meus pais, minha irmã, minha avó, minha esposa,
para ninguém. Eu não acho estranho coisa nenhuma! Com
certeza iam achar que eu estava ficando maluco...
Por isso guardei meu segredo tanto tempo...
E estava disposto a levá-lo para o túmulo – se
minha filhota, dia desses, não me faz aquele estranho pedido...
...
“Paizinho, me compra uma boneca nova!”
“Compro, amorzinho.”
“Mas eu quero uma boneca de pano, viu?”
“De pano...?!”
...
“E agora, cara, o que eu devo fazer?!?”
“Parar de bestagem e comprar a boneca pra menina.”
“Eu não posso...”
“Pode, sim. Eu te ajudo a escolher, tá bem?”
...
O Gui é um amigão. Fomos ao centro na mesma hora e ele
comprou a boneca. Eu a olhei o menos possível, mas me pareceu
que aquela ali não tinha os olhos tão grandes assim...
...
Antes de ir para casa – o Gui já voltara para o seu apartamento
–, passei num bar e tomei duas cervejas. Não consegui,
nem por um segundo, despregar os olhos do embrulho aos meus pés.
Ela estava ali dentro, toda encolhida. Presa, impotente. Não
poderia me fazer mal algum...
Bebi o último gole e sorri enquanto escorraçava uma
moscona que acabara de sentar toda pomposa na boquinha da garrafa...
...
Minha pequena adorou o presente. Abraçou a boneca, me abraçou
também e correu para o quarto.
O contato tufado do braço da boneca no meu me fez gelar um
pouco...
Tive vontade de vomitar.
...
Dias depois, minha esposa me contou que sonhara comigo se casando
com outra...
“Outra mulher? Com quem, meu bem?”
“Adivinhe!”
“Não faço a mínima ideia; não mesmo!”
“Com a boneca, Leo. A que você deu pra Samantha!”
Sob o olhar espantado de Rachel, me levantei do sofá (eu estava
vendo o noticiário) e corri para o quarto da nossa filha.
Abri a porta de uma vez, disposto a estraçalhar a boneca!
...
Mas
Samantha estava com ela no colo.
Quando me viu entrar, minha filhinha disse:
“Oi, papai!”
E, me mostrando a boneca, completou:
“Preciso dar um nome pra ela. Que nome que eu dou?”
Não pensei duas vezes...
“Maria!”, respondi.
“É um ótimo nome, querido!
...
Juro que,
por uma fração de segundo, cheguei a pensar que tinha
sido a boneca que havia falado!...
... Mas,
não: era apenas minha esposa que enfiara a cabeça porta
adentro – e nos convidava para o jantar.
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