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Paulo
Victor da Costa Ribeiro
Rio
de Janeiro / RJ
As
irmãs
A mente
de Yara parecia perturbada de uma maneira especial. Praguejava contra
sua irmã, a detentora de grande parte de sua indisposição
constante.
- Maldita, poderia sair daqui e nunca mais voltar. Eu preciso dormir
e ela não me deixa. Quero conhecer algum namorado e ela sempre
está presente. Não agüento mais.
As palavras, ditas em alto e bom som, ecoavam de forma fulminante
no quarto de teto alto, típico de um bairro antigo. Sua irmã,
Vera, resolvera não responder; tinha uma outra vocação.
Preferia chorar e rezar para amenizar a dureza da convivência
das filhas únicas de um casal de primos, que por conta da união
entre parentes dentro de uma família ultra conservadora, haviam
sido relegados ao afastamento do convívio.
O conforto de Vera vinha das visitas dos missionários de uma
igreja protestante, que distribuíam palavras de otimismo, sem
no entanto conseguirem repercussão positiva no coração
amargurado de Yara.
Os pais, pessoas de alma pura e coração bom, se desdobravam
para atenuar as dissidências que tornavam um inferno a convivência
das duas irmãs. Até conseguiram uma casa mais ampla,
a duras penas, o que não surtiu nenhum efeito minimizador dos
vocábulos infames da cantilena de ódio da infelicidade
eterna de Yara.
Aos trancos e barrancos, com ódios e amarguras, as duas conseguiram
completar quinze anos e uma festa foi providenciada para comemorar
a ocasião. A mãe gastou os seus quase últimos
fios de energia para fazer salgadinhos, docinhos e um bolo. E os únicos
convidados que compareceram foram os membros da igreja, que não
representavam nenhuma novidade para Yara, uma mulher ávida
por horizontes mais amplos. Além das figurinhas carimbadas
dos religiosos, uma vizinha que sempre ajudava a família fez
os vestidos das gêmeas, o que irritou muito Yara, que se negava
a ter mais uma semelhança com o grande estorvo da sua vida:
a irmã.
Vera, como sempre, aproveitou a noite após a festa para rezar.
Mas desta vez era um oração especial, quase que um hino
à vida fomentado por seu interior cheio de esperanças
de dias melhores. Agradeceu a data festiva, os comes e bebes, o vestido
novo e percebendo o leve roncar da irmã, agradeceu pela existência
de Yara, que a fazia todos os dias orar e se aproximar mais de Deus.
A fé inconteste lhe dera, até aquele momento, o combustível
indispensável para seguir adiante e tentar tirar lições
de sabedoria de uma condição pouco comum de vida: as
duas eram xipófagas.
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