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Ney
Chagas Pompeu
Rio
de Janeiro / RJ
Noite
mal dormida
Devido
ao racionamento de energia, a luz era cortada das 17h às 19h
em Guayaquil. Nesse intervalo, sentava-me no bar do hotel e tomava
uns Scotts, mais uns club's (cerveja) e mais próximo às
19h jantava um prato chamado camarão na prancha. Nesse dia,
após o jantar, peguei o elevador para o 13° andar, número
da sorte, fui para o meu quarto n° 1307, tomei um banho , coloquei
um short de seda e me deitei com uma lata de cerveja na mão.
Peguei o controle e passei a divertir-me com um filme que passava
na TV, em Espanhol, lógico.
Tomei toda a cerveja. Como o sono não chegava, levantei-me
e tomei mais um caubói. Deitei-me novamente, em um verdadeiro
deleite, sem a reprovação da senhora preguiça.
Repentinamente as cortinas começaram a se agitar. O abajur
e os quadros da parede balançaram. Minha cama parecia esta
no mar, em cima de uma onda. Neste momento não conseguia mais
me levantar. Pensei rapidamente: o anticristo entrou no quarto, é
a besta, é o capeta. O que faço? Qual caminho mais escondido
e rápido? Como fugir do todo poderoso, como enganá-lo?
Estou com medo, muito medo. O chão está balançando,
tudo está balançando. Já não tenho forças
para enfrentá-lo. Hercúleo, rápido e destruidor.
Estará retratando o juízo final? Sentar-me-ei no banco
dos réus no tribunal dos infernos? É uma visão
apocalíptica. Será o fim da minha vida?
Nunca declarei abertamente ódio ou desprezo, por atos ou palavras
a este ser cabeludo, assustador, o verdadeiro cramunhão. Sempre
fui polido e aberto às virtudes da espiritualidade, fugindo
dos conflitos ou dos pensamentos relativos a este sujeito.
Esse primeiro encontro exibicionista infernal, este estrelismo possuidor
dominador do demônio, por que esta punição tão
pegajosa? Logo eu!?
Olho a porta, miro bem, ouço alguns passos ... será
que o lúcifer vai me ver? Apronto-me sorrateiramente, neste
atormento desesperador, este tempo infinito de pavor , estes instantes
de terror.
Estou no corredor olhando uma escada. Não olho para trás.
Pulo os degraus, são muitos. Não vejo ninguém.
Continuo correndo escadas abaixo. Estou pensando se o satã
estará lá embaixo me esperando. E se já tiver
destruído tudo e a todos, e estiver agora de braços
abertos para o último combate frente a frente comigo, porquê
comigo?
Finalmente cheguei ao térreo. Não tem mais escadas.
Deparo-me com o lobby imenso e suas pilastras, dóricas ou jônicas.
Como perceber em qual vou me esconder? As pessoas correndo, gritando.
Não entendo bem o que falam, mas continua perigoso. O que faço?
Será que o anticristo está me procurando ou outro humano
qualquer lhe serve de comida?
Agora ando calmamente, acho que é o efeito do uísque,
o torpor agonizante, ainda não sei. As pessoas continuam a
correr e a se falarem entre si. Gritam "tremboles","
tremboles" retornem as suas habitaciones. Certamente não
sei o que isso significa. Estou usando short no lobby do hotel 4 estrelas.
As pessoas estão chegando com bagagens. Continuo a observar
todos os movimentos a meu redor. Parece-me que a balbúrdia
está terminando. Será que o demo fugiu? Levou quantos,
quais são os devorados? Aonde estão as babas, as coisas
chamuscadas de fogo?
Passa o tempo. Parece que estão me chamando. Que confusão
, não conheço ninguém neste lugar. Ninguém
me conhece aqui! Ei, Ei, pô meu primeiro nome é Ney.
Será que o capeta mandou me chamar, está uivando, grunindo?
Não sei... fui o escolhido, puta que o pariu.
O que será de mim agora? Lá vem o mensageiro do hotel
todo de preto com chapeuzinho redondo, em minha direção.
Vem me apontando o dedo, esse filho da puta, tá mal intencionado,
tá me escolhendo, vai me entregar para o rabudo, o satã.
Tô fora desta merda, tenho que fugir, correr, aonde vou me esconder?
Esse burburinho detestável, este ar contagiante de flor de
rosa, parece o final, basta descer o caixão, tô no cemitério,
este local lúgubre.
Saio correndo sem direção, vejo a rua: pessoas passando,indo
e vindo, eu de shorts pagando um mico, ou não. Realmente tô
me protegendo, este excomungado, ainda está me perseguindo,
como fugir de algo tão deslumbrante, perseguidor dos infernos?
Me deixa em paz1 Tenho família. Moro longe.
"Ei, Ei, retornas a tua habitacion!", vem o babaca do mensageiro
correndo atrás de mim. Acho que habitacion é meu quarto.
Estou mais lúcido, vou enfrentar o lúcifer. É...
realmente tudo está normal. Vou retornar, sou homem , tenho
que encarar este novo desafio.
Sorrateiramente, vagarosamente, pensando no estado natural, em tudo
a minha volta, temendo a Deus e não ao capeta, o feio, enfrentei
os desígnios do momento e retornei.
Para minha surpresa, estava tudo calmo e aparentemente tranquilo.
"Mr. Pompeu, por favor fique calmo!" Puseram-me um sobretudo,
fiquei condizentemente vestido naquele imenso lobby. "Tivemos
há pouco, um sério problema terrestre chamado de terremoto
em sua língua, nada mais, ok?"
Puta que o pariu, da onde saiu este satanás maldito sacudindo
todo o edifício, minhas pernas, meus sentimentos? Por um instante
quase voltei correndo a pé do Equador ao Rio de Janeiro sem
olhar para trás.
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