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Andala
Pereira da Silva
Olinda
/ PE
A
rã
Não
lembro exatamente o que iria fazer; se ia beber água na cozinha
ou estender alguma toalha na área de serviço... Quando
estiquei o braço para apertar o interruptor e acender a luz,
algo frio caiu em minha mão... "Ai! Que é isso?..."
Quando acendi a luz ela estava lá... Pálida, pequena,
com seus olhos destacadamente pretos, encolhida, grudada na parede
olhando fixamente para mim... "Quê? Uma perereca? Que nojo!
Como isso veio parar aqui no meu apartamento?" Só que
minha preocupação era saber como tirar aquilo do meu
doce lar, que invasão horrenda, detesto todos esses bichos;
formigas, baratas, aranhas, traças, minhocas, lagartixas, pulgas,
carrapatos, piolhos e isso inclui sapos também... Bati os pés
no chão ela nem se movia, fiz mais fortemente trupes, nada,
sacudi os braços na tentativa de espanta - lá... "Aaaa
sai daqui!!!" Olhei a vassoura pendurada pensei em pega-lá...
"Mais se ela pular em mim"? Mais gritos, mais sapateados,
mais batidas de palmas... "hueb, hueb!" Em vão, estava
como uma ventosa bem grudada no azulejo da minha cozinha... Passei
um tempão a olhando sem saber o que fazer. Já eram altas
horas nem o porteiro eu podia chamar para me socorrer daquela monstruosidade
que atrapalhava minha calma... Fui levantando o braço lentamente,
estiquei o dedo indicador em direção ao interruptor...
Achei que talvez apagando a luz ela fugisse... "hueb..."
Corri para o quarto tranquei a porta, me atirei na cama e me cobri
com a coberta da cabeça aos pés... "Como uma coisa
daquele veio parar aqui em cima, no meu apartamento?" Fiquei
a imaginar como ela teria chegado até ali... Adormeci... "hueb,
hueb, hueb..." Despertei do sono e a cantoria daquela bendita
rã foi ficando cada vez mais alto... Mais alto coaxava... "Hueb,
hueb..." Não sei como um bicho tão pequeno como
aquele tinha um coaxado tão alto... E perturbava, perturbava...
Assim se seguiram por todas as noites, a coisa me recebia quando chegava
do trabalho... Ora dava um salto que não sei de onde partia,
às vezes da janela, no armário, na parede, na porta,
no chão, ela sempre achava um jeito para me assustar... O porteiro
já tinha investigado todo o apartamento minuciosamente e não
a encontrara... Se não a visse, ela se anunciava perturbando
meu sagrado sono com seu poderoso coaxado... Enfim, passei a conviver
com aquele som que me "acalentava" na hora de dormir...
Mas já há algumas noites me encontrava diferente, não
sabia explicar bem o porquê, mas a solidão estava se
tornando maior que antes, estava me acordando durante a noite ou demorava
a adormecer... Acho que no segundo ou terceiro dia dessa angústia
não querendo mais que as lágrimas derramassem, lembrei
de um bolo de chocolate que comprei e ainda não tinha nem partido...
Abri lentamente a porta da geladeira o brilho das raspas de chocolate
me deu água na boca... Peguei aquela bandeja como a um troféu...
"Vou detonar você, queridinha... Ah! Meus deuses..."
Por detrás da bandeja da torta estava ela, morta, com todas
as patas bem esticadas, de pálida para cinza... "Coitada
morreu congelada..." Senti que meus olhos marejaram de lágrimas,
não sei quanto tempo fiquei de pé com a porta da geladeira
aberta olhando para ela, a rã, sem vida, sem coaxados, sem
pulos... Interfonei para a portaria... "trim... trim... trim..."
"Não acredito que farei isso sozinha!" Peguei o papel
toalha, repleta de nojo, minha mão suava e tremia... "Herg!
Deuses..." Segurei na pontinha do dedo de sua patinha e rapidamente
pisei no pedal do lixo a tampa abriu... "Não!..."
"Não? Você estava morta..." "Também
achei mas você me salvou..." "Eu te salvei?"
"Sim! Eu vivia sozinha na grama e desde que cheguei nesse apartamento
você foi minha companhia, todos os dias tentava falar com você,
mas me ignorava, era engraçado suas tentativas de me espantar,
você é bailarina?" "Eu bailarina?" "É,
você sapateia muito bem ou é axé que você
faz sacudindo os braços assim..." "Quê?"
"Como tentei falar com você, como não consegui,
então me restava cantar pra você dormir..." "Não,
não, isso não esta acontecendo, me morde para ver se
é verdade..." Então a danada deu uma dentada no
meu braço, quando olhei percebi que começou a jorrar
sangue, mas não era sangue vermelho não, era sangue
azul... Jorrou muito parecia uma cachoeira... "Vem!" A perereca
me pegou pela mão montada num pires de porcelana branco e começamos
a surfar sobre a cachoeira... "Huhuhu!" Surfamos por toda
a cozinha gargalhando, meu coração nunca esteve tão
acelerado e feliz... "Vê isto, olha o que eu consigo fazer"
Ela colocou seus dedinhos na tomada do café e ficou piscando
como luzes de natal... "Eu sabia que no dia que você me
entendesse poderíamos ser grandes amigos, você sempre
está só nesse apartamento, nunca recebi visitas, não
tem namorado?" "Chega isso é demais conversar com
uma rã, ninguém em sã consciência faria
isso, estou ficando louca..." "Você não está,
já provei isso, lhe mordi bem forte..." "Chega! Você
não é real! Sua perereca... eu tenho nojo de você!"
"Sou um sapo, e você não tem nojo de mim, não..."
Saltou para minha mão percebi que de cinza foi se transformando
num sapo verde, grande, maior do que eu, no meio do seu peito um coração
de rubi vermelho palpitava, estava com sapatos pretos bem lustrados,
de cartola e bengala, em suas costas asas prateadas batiam soltando
um pó reluzente... "Dá-me um beijo?" "Quê?
É loucura... vai se transformar num príncipe?"
"Beije-me e verás..." O beijei.
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