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Eritânia
Castro Machado de Sousa Brunoro
Rio
Branco / AC
A
lagoa
Todos
os dias pela manhã, ela caminhava às margens da lagoa
que ficava próxima à sua casa. Uma paisagem revelava-se
tão imponente circundando a região, igualando-se a uma
pintura feita a óleo como que saída das mãos
de um artista. Era mágico, ela sabia. Sempre que se sentia
triste e angustiada, andava por aquele lugar, escutando atentamente
aos sons do campo, um pássaro, uma folha caindo, um graveto
quebrando ao ser tocado por seus pés. Em dias ensolarados ou
em dias de chuva. Essa era a cena que repetia-se.
Em seus passeios, refletia sobre sua vida e os anos que passaram depressa.
Ainda era jovem nos seus 35 anos, porém sentia que não
havia feito nada de importante. Olhava para trás, para os anos
vividos e não encontrava grandes realizações.
Era solteira, tinha um bom emprego, alguns amigos que considerava,
gostava de ler, escrever, mas não era uma pessoa realmente
feliz, sentia-se só. Era uma mulher radical em suas atitudes,
muito rígida, cobrava excessivamente dos outros e de si mesma.
Porém, após ter se mudado para o campo por uma temporada,
afastara-se do tumultuado cotidiano das grandes cidades, iniciando
uma transformação em seus hábitos. Parar para
avaliar sua vida em um lugar mais tranquilo, foi a melhor decisão
que Lívia poderia ter tomado. Ela era o tipo da mulher que
não apreciava pequenos gestos. Mantinha sua atenção
voltada para situações mais elaboradas, era perfeccionista
e muito exigente. Seu trabalho, estressante, lhe exigia demais. "Não
posso, estou sem tempo, muitas coisas para fazer." - essa era
a frase que dizia todos os dias ao telefone quando alguma amiga lhe
ligava convidando para um passeio. Isolou-se! Não parava para
ouvir uma música, o som de um pássaro, nem mesmo para
dar um sorriso. E quando esboçava algo parecido com um, é
porque a situação lhe obrigava.
Num dos seus passeios matinais, sentou-se à margem da lagoa
onde repousavam algumas gaivotas. Deixou-se ficar ali, admirando.
Seus pensamentos viajaram para longe, lembrou-se de seus pais, de
sua infância e deixou escapar um pensamento: "Eu era feliz
e não sabia." Crescer tinha sido difícil, ser adulta
então, mais ainda: tomar decisões, conviver com pessoas
diferentes, preocupar-se com coisas do dia-a-dia... Os anos passavam
depressa e a vida era só aquilo. "O que me falta?"
- questionava-se. Falta ser feliz! Mas não é uma felicidade
qualquer, necessidade de uma alegria verdadeira, espontânea,
sincera. "E onde estaria isso?" - esse era o grande problema.
À beira da lagoa, de água tão clara, começou
a perceber o som muito sutil da água se movendo, como uma valsa.
Os pássaros, por vezes agitavam-se, e ela, então, sentiu
o ardor do sol na sua pele. "Que dia lindo, nem percebi como
tudo está tão iluminado hoje." "Faltava magia,
era isso! E onde estaria?"
Quando Lívia resolveu levantar-se da grama e retornar para
casa, avistou do outro lado da lagoa um homem. "Não me
lembro de tê-lo visto aqui." - pensou. Enquanto olhava
aquela imagem que mais parecia miragem, ele acenou, virou-se e foi
embora. Ela ficou intrigada, não lembrava-se dele. A curiosidade
aumentou enquanto andava, era um tipo interessante, alto, cabelos
negros. "De repente ele estará aqui amanhã e eu
poderei tentar contato."
A rotina alterava-se, pela visão, após aquele dia. Ele
não aparecera novamente. Ela agora ia até a lagoa não
mais para pensar, e sim, para esperar por alguém que nem mesmo
sabia quem era, mas que depertava-lhe certa inquietação.
Duas semanas passaram-se e nada. Um dia Lívia estava novamente
à beira, atirando pedrinhas na água. Ouviu um barulho,
como um arrastar entre folhas secas, ficou terrivelmente paralisada,
um medo súbito lhe subiu, "poderia ser uma cobra!",
não conseguia se mover. Depois de alguns segundos, num movimento
brusco, o ruído aumentando, chegando cada vez mais perto, ela
assustou-se e gritou.
- Meu Deus! - respiração forte, toda a adrenalina em
seu sangue, quase caiu.
- Perdoe-me. Não queria assustá-la. Você fica
muito distraída aqui. Se fosse uma cobra teria lhe picado.
- falou o homem segurando seu braço e sorrindo gentilmente.
Ela, ainda assustada, olhos arregalados, não pôde dizer
nada. Apenas olhar bem dentro dos seus olhos negros.
- Eu não vi você chegar. A propósito, você
mora por aqui? - Lívia foi se acalmando e sentando-se na grama,
fazendo sinal para que lhe acompanhasse.
- Sim! Mudei há pouco tempo, menos de um mês. Ah! Desculpe-me,
eu não me apresentei. Roberto, e o seu? - disse estendendo
a mão em sinal de cumprimento.
- Lívia. - apertou sua mão e sentiu um calor subir-lhe.
Ele era muito interessante e tinha um olhar diferente.
Inciaram uma conversa que durou horas, sobre tudo, todas as coisas.
Ele tinha impressões simples da vida. E à medida que
o diálogo ia avançando, parecia que ele a conhecia muito
bem. Era como se a desvendasse, mesmo que não dissesse muito
sobre si.
- Sou uma pessoa feliz! Olhe à sua volta! Tudo isso que está
vendo é motivo para ser muito feliz, quantos momentos assim
já teve em sua vida? - ele perguntava e continuava sua explanação.
Este silêncio, estes pássaros, as folhas caindo das árvores,
tudo isso Lívia, é mágico. Do que mais você
precisa? - ela não sabia ao certo. Você foge do seu passado,
esqueça-o! O importante é o que você pode fazer
agora por você, e só você pode!
Ela passou uma tarde toda ouvindo ele dizer como a vida podia ser
maravilhosa se observasse mais as pequenas coisas. Um estranho, que
parecia ser um conhecido de muito tempo, fez sentir a magia dentro
de si. À medida em que os dias iam passando, percebia como
eram importantes as tardes em que observava a paisagem e ouvia Roberto
explicar como precisava-se de pouco para ser feliz. Bastava que ela
colaborasse consigo mesma, deixasse que as oportunidades chegassem
em sua vida, abrindo seus olhos e seu coração.
Aqueles dias foram muito felizes, mágicos. Acreditava que um
anjo havia descido à Terra para fazer-lhe companhia. Ao voltar
para a cidade, Lívia já não era mais a mesma,
e a vida agora fazia todo o sentido.
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