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Sergio
Tavares
Rio
de Janeiro / RJ
Olhos
de ressaca
Pensou
ter ouvido os gritos de uma criança.
Colocou o "Dom Casmurro" que lia sobre a escrivaninha e
refletiu.
Tomou mais um copo de vinho tinto suave, não sabia a marca
nem a procedência. Isto pouco importava se servia para afogar
mágoas e pensamentos inoportunos.
Estava só, e para sua angústia, os gritos do menino
silenciaram. Preferia ouvir vozes, mesmo que fossem frutos de sua
imaginação. O silêncio o atormentava. Alguém
sapateava no apartamento do andar superior, ouvia passos, provavelmente
da vizinha. Tinha certeza, era ela... apressada.
Imaginou para onde ela iria, e pensou que poderia ser feliz ao seu
lado. Ah! Encontrar a felicidade nos braços de uma desconhecida,
mas isto lhe pareceu uma idéia muito superficial. A felicidade
era algo quase inatingível para ele, pelo menos, naquele momento.
Vislumbrou ser feliz, mas sentiu-se amargurado. Não! Definitivamente,
a felicidade não era algo feito para ele.
Bebeu mais um gole, e sentiu-se embriagado. O apartamento começou
a girar, as paredes brancas foram perdendo a cor... girando cada vez
mais rápido... o mundo ficou cinzento...
Paulo caminhou pela praia em busca de uma resposta. Na verdade tinha
muitas perguntas. A vida era sempre assim, inúmeras indagações,
e quase nenhuma solução patente. Caminhava sem rumo,
queria pensar. Foi até à areia da praia e aproximou-se
o mais que podia das ondas. Estava cansado depois de um dia inteiro
de trabalho. Sentou-se.
Raramente visitava àquelas bandas, mas achou que a orla seria
o melhor lugar para meditar sobre a vida. O destino pregara-lhe uma
de suas peças, quando foi abandonado pela mulher.
Casou-se cedo, jovem ainda, seguira seus impulsos. Foram dez anos
de um casamento acomodado. Primeiro a paixão, depois o amor...
a amizade, as brigas e, agora, a separação. Vitória
se foi com quase tudo que havia no interior do imóvel. Deixou-lhe
um colchão velho, uma mesa, um sofá, algumas panelas,
e utensílios miúdos. O mínimo para sua sobrevivência.
Vitória havia sido a lembrança de mais uma de suas grandes
derrotas. Pensou alto, e riu de si mesmo. Achou hilário o trocadilho.
Todavia, esse não era o principal motivo de sua infelicidade...
apenas um deles.
O escritório do trabalho causava-lhe repugnância. Os
problemas diários, o lugar, as pessoas, o serviço, enfim,
era toda uma aura que o envolvia de forma negativa. Uma psicosfera
desanimadora. Lógico, tinha outros imbróglios mais prementes,
que lhe tiravam do sério, mas a rotina o angustiava.
Não percebeu a aproximação de um menino, que
vagava sem rumo pelas praias.
- Moço, me dá um trocado.
Assustou-se. O coração palpitou e o acordou do estado
de letargia que o envolvera. Olhou para a criança e revirou
os bolsos das roupas que vestia.
- Estou sem dinheiro - respondeu com um grunhido.
Depois de alguma insistência, o garoto se foi. Ouviu o marulhar
que se quebrava na arrebentação, e percebeu a beleza
do crepúsculo. O céu vermelho, emoldurado pelas montanhas
que se perdiam no horizonte.
Anoitecia. Era uma noite de lua cheia e do outro lado podia antever
a face lunar inquieta para ascender aos céus.
Alguns pescadores começaram a chegar. Um casal acomodou-se
nas proximidades, trocando carícias, sem se darem conta de
sua presença.
Ouvia vozes ecoando distantes:
"- Paulo, eu vou embora dessa casa! Não aguento mais viver
ao teu lado... preciso ser feliz!" - foram as últimas
palavras de Vitória.
Ela se foi sem dizer adeus. Virou-se depois de lhe dar um beijo na
face - e entre as lágrimas que vertiam, fechou a porta atrás
de si. Nada mais.
Recordou-se que, nesse dia, visitou sua falecida mãe. Chorava
feito uma criança, entre soluços abafados pelo ar que
lhe faltava. Sua genitora passou-lhe a mão sobre a cabeça
e perguntou:
- O que houve meu filho? Por que você está chorando?
- Vitória me abandonou mamãe. Estou sozinho nesse mundo.
O que será de mim agora? - perguntou sem olhar nos olhos dela.
- Não chora meu filho. Deus vai lhe ajudar a ser feliz - disse
enquanto o acariciava.
Depois do funeral de sua mãe, emergiram as lembranças,
repercutiram as palavras, sucederam-se os dias sem a presença
dela para lhe confortar nos momentos difíceis.
Retornou para casa. Precisava tirar aquela roupa do corpo e tomar
um banho quente.
- O tempo urge - pensou.
Ao chegar em casa, abriu uma garrafa de vinho. E logo, abriu a segunda.
E entre uns goles e outros o tempo foi passando, como se tomasse uma
anestesia para suas dores. A bebida balsamizava seu corpo, deixava-o
amortecido.
- Eis o néctar dos deuses, ou melhor, de Baco - disse.
Alguém bateu à porta...
Verificou no "olho-mágico" - antes de abrir - que
era a vizinha. Estava linda, com um vestido estampado acima do joelho.
Não pôde deixar de olhar para suas pernas bem torneadas.
Tinha olhos profundos, tragando-o para dentro de si. Ela entrou sem
cerimônias. Ele ouviu o barulho dos saltos, que comumente ouvia
no piso de cima. O coração disparou. Paulo achou estranha
a atitude dela, mas quem se importaria?! Era uma mulher linda, e podia
fazer o que quisesse... apesar de ser casada...
Conversaram horas seguidas, e depois se amaram no tapete da sala que
girava...
Paulo perguntou-lhe o nome:
- Já esquecestes? Meu nome é Capitu! - disse com uma
voz sensualíssima.
- Capitu?! Capitolina... do Bentinho?! - indagou.
- Exatamente! Em carne e osso... - disse maliciosamente.
O apartamento ainda rodava... Extasiado, Paulo percebeu que Capitu
estava indo embora. Correu até a porta tentando impedi-la de
partir... mas era tarde demais! Ela partira...
Acordou.
Percebeu que dormira horas seguidas. A cabeça doía-lhe.
Lembrou-se da ilustre visita que recebera. Correu atônito, a
fim de inspecionar todos os cantos do apartamento, tentando encontrar
algum vestígio dessa mulher enigmática. Mas não
havia nada... nem sinal de seu perfume.
- Não! Definitivamente, não foi Capitu. Também
não foi a vizinha - refletiu.
- Deveras, - concluiu - foi o resultado dos "olhos de ressaca".
Bruxarias Machadianas.
- Ressaca de vinho... - disse em frente ao espelho - desse "tinto"
barato, mas deliciosamente reconfortante...
Deu um sorriso... sentia-se melhor. Toda a angústia que o envolvera
no dia anterior extinguira-se.
- A felicidade não é algo tão inatingível
assim... Ou será? - perguntou-se.
E deu uma estupenda gargalhada ao ouvir novamente passos na laje.
Era o peculiar sapateado da vizinha, que retornava de suas andanças
da noite anterior.
- Mas bem que poderia ser a Capitu! - exclamou Paulo, olhando para
o "Dom Casmurro" sobre a escrivaninha.
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