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Letícia
Faria Conde
Bauru
/ SP
A
morte de Karem
Ele matou
Karem. Foi um golpe perfeito, desses de mestres que lutam a vida inteira
contra o monstro que criam dentro de si mesmos. Quase oriental. Um
tiro no útero.
Primeiro ele conheceu Amanda, menina certa, de família do interior,
não se ajustava muito bem à cidade grande, mas tinha
os requisitos de boa namorada. Claro que nessa época ele só
tinha cinco anos. Mas foi assim, amor à primeira vista. Não
teve sucesso, muito cedo para começar algo; sofreu desmedidamente
e prometeu nunca mais chorar por mulher - como se soubesse dessas
coisas do coração.
Aos dezessete, durante uma noitada com os amigos, foi apresentado
com muito prazer para Silvia. Simples, discreta, de olhar profundo,
porém espírito fraco. O sexo era maravilhoso. Ela era
mais velha - vinte - mas isso não o intimidava. Aprendeu com
os três anos de diferença que mulher gosta mesmo é
de se sentir cortejada.
Meses passaram-se só na cama, namoro não era possível.
E quando o coração bateu mais forte ela o dispensou
como quem abre uma lata em conserva e deixa no ar até criar
ferrugens. Ele não chorou!
Aos seus vinte finalmente namorou. Certamente após muitos outros
nomes dos quais nem lembrava mais - todos descobertos durante viagens
por todo o país: Mato Grosso, Piauí, Pipa, Fortaleza,
Salvador, Maranhão e São Paulo. De volta em casa manteve
as coisas na calmaria. Ela era a certa: Suzana. Quase como música
country (que para seus ouvidos eram terríveis), fingiu durante
todo o tempo que ela fora jazz.
O sexo era bom, a conversa razoável, o corpo delineado... Talvez
fossem os bons anos. Casaram-se. Então depois do acontecido
o sexo se tornou vulgar, quase desleixado, a conversa monótona
e o corpo engordado. Abriu a porta novamente para novas letras.
Viagens vieram, trabalho fora, carro independente, celular inalcançável,
tornou-se um marido quase invisível. "Estou grávida."
Aquilo foi um choque. Primeiro veio o menino, depois uma menina, e
se filhos fossem solução todo o problema tinha terminado.
Tudo continuou. As novas camas que visitou não tiravam o frio
que sentia, mas aconchegavam bem a solidão. Ana, Maria, Alexia,
Letícia, Luciana... Nem memória de computador seria
tão ágil.
No fundo todos sabiam, era Karem quem ele procurava.
Passou anos reservado como vinho que envelhece bem. Claro que sempre
sendo degustado. E degustando. Mesmo casado as outras apareciam e
ele as regava, como flores.
Aos quarenta quis Alicia. Alicia era diferente, mas igual - daquelas
que não se sabe muito bem que gosto esperar, mas valia a pena.
Então ficou, ou melhor, subiu ao seu apartamento. A filha dormindo
sendo embalada pela empregada o deixou tanto quanto desconfortável,
mas seu sofá era macio o suficiente para assentar a dor.
Da primeira vez foi só bobagem. Da segunda um pouco menos de
cordialidade. Ela questionava se seria feia ou gorda para ele não
a ter atacado. Penso que as mulheres sejam verdadeiras lobas, mas
o próprio tinha certeza - afinal Tereza contou - de que são
gazelas: lindas criaturas saltitantes que aguardam pacientemente e
anseiam pelo ataque masculino.
Ele atacou. Ela se contorcia de prazer ao ser daquele ser viril sem
que precisasse se enroscar nas armadilhas do amor. Talvez ela não
se apaixonasse, mas ele certamente iria. Ficou certo tempo obcecado
com a idéia: era ela! Mas a coragem lhe faltava e a fragilidade
saltava ao colo, como cão sarnento que teima em deixar o companheiro
doente também.
Ausente com todas, com todos, consigo mesmo, caminhou sem rumo pensando
se seria a decisão certa a de ficar no casamento já
estável e desagradável. De certo não tão
ameno quanto parecia - ele também amava a esposa, mas sabe,
homens também são flores, afinal, para se ter um jardim,
só pode-se chegar a essa conclusão.
Foi visitar Alicia. Ela estava na sacada do prédio arrancando
as ervas daninhas que cresciam em suas violetas. Fato curioso, tanto
quanto perverso. Para ele aquela foi a expressão máxima
de que deveria sair dali, seguir a vida, deixar de trair, cortar o
mal pela raiz! E assim se foi, sem despedir. Ela lamenta sua ida até
hoje - provavelmente não prometeu não chorar por alguém.
Karem. Ela ainda estava em suas entranhas. Aquela voz gritante ressoando
falas e músicas estranhas, baladas de dormir, levando e trazendo
comida... Provavelmente dali teria tirado o gosto por cozinhar. Passou
o resto da vida visitando cozinhas.
Era insuportável. Aquela situação de uma jornada
inteira sendo duas pessoas e vivendo com muitas parecia incabível
até certo ponto, queria mudar, mas o fantasma daquela jovem
sorrindo o perturbava. Com os dias foi planejando o que todos os terapeutas
já esperavam: ela, afinal, era a raiz de sua erva daninha.
Comprou uma arma e foi testar. Na fazenda longe de sua casa deu alguns
tiros sem que nenhum vizinho percebesse sua real intenção,
ficou admirando as latas voarem alto e as garrafas de vidro estilhaçarem
- até que ele levava jeito -, tornava a encher o cartucho e
mirava, imaginava como seria a cara que ela faria ao vê-lo finalmente
libertar-se daquele cordão que o prendia como uma corda que
sufoca ao enforcar.
Tocou a campainha... Um homem grisalho e baixo atendeu: "Olá,
meu filho!" Ele não respondeu, entrou correndo, pegou
aquela figura que tanto o atormentava e tratou de levá-la para
o carro. Fechada a porta, enfiou o pé no acelerador e seguiu
rumo ao parque central que costumava ir quando pequeno. A areia continuava
fina, mas agora era um pouco mais morta, sem cor.
Carregando nos braços a Karem querida colocou-a no balanço
de madeira que sempre o fascinou - aos cinco a primeira desilusão
aconteceu ali, ao ver sua amada beijando as bochechas de outro amigo.
Não empurrou e ela ficou lá sem se mover naquele banco
alto.
Já a uns 15 metros de distância sacou a arma, mirou certeiro
com um olho só, ainda pensou duas vezes e na segunda teve certeza:
"A culpada é você, Karem!" E sem recear deu
o tiro bem no centro, despedaçando a urna de mármore
que seu pai havia comprado para colocar as cinzas de sua mãe.
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