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Ismar Carpenter Becker
Rio de Janeiro / RJ



A peleia no reino dos galináceos


Era uma vez a história que num terreiro qualquer havia galináceos a ciscar à procura de minhocas, milho, insetos a serem consumidos por essas aves de voo curto. Neste cenário ao ar livre havia um peru vermelho, garboso com seu glugluglu, e um galo com uma deficiência visual numa das vistas, fruto de uma briga outrora numa rinha clandestina, que deixara sequelas; mas mesmo assim este galo enxergava bem e vigiava suas galinhas com rédeas-curtas; já o peru era solitário e viúvo, pois sua fêmea morreu ao cair de um caminhão numa curva de estrada sinuosa.
O peru não estava morto, e começou a dar em cima de uma jovem galinha carijó, formosa, com suas penas brilhosas que tranquilamente ciscava sem nenhuma preocupação. Foi aí então que o peru solitário atacou a jovem penosa no terreiro, depois de cercá-la num canto. E pimba!, beijou a jovem franguinha; o galo então ficou roxo, vermelho de raiva, e correu atrás do peru, era um cocoricó para lá e para cá e um gluglugl! também. Foi quando os dois se embolaram na terra vermelha, levantando poeira, penas para todos os lados, o peru por cima e o galo cego por baixo e vice-versa, as galinhas nervosas gritavam "o galo vai acabar com o peru, vai rasgá-lo ao meio", outras diziam "o peru não vai aguentar a luta aviária!"
E a peleia continuava, os pintinhos mudos e assustados corriam para debaixo das asas da mãe fugindo da briga, e a luta continuava ,o peru já mole se revigora após um gole de água e vinha duro em cima do velho galo, que por sua vez bicava a cabeça do peru dando voltas no ar. Enquanto isto algumas galinhas gritavam para o galo, "chute o peru, dê uma pernada nele dê uma gravata no peru!" Em outro canto do terreiro, algumas galinhas desprezadas pelo galo torciam pelo peru, "vamos lá, dê uma tesoura voadoura no galo, soque o seu fígado!", e a luta continuava. O peru, duro na queda, já estava cambaleando; o galo mancava, sangrava. Depois de horas o peru cansou caiu no canto, desfalecido, e o galo rouco caiu de lado. Vieram então as galinhas enfermeiras e massagearam os brigões tentando reanimá-los. Mas nada...
O peru acabou virando ceia de natal e o galo, caldo para o jantar, pois o dono do terreiro estava constipado.

 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010