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Marcela
Cristiane da Silva
Brasília
/ DF
A
presa
Enxerguei
uma saída pela fresta. A parede trincada me mostrava que já
era dia. Tudo escuro. Apenas uma tentativa... Apurei meus ouvidos
para ver se havia mais alguém do outro lado. Nada. Sim eu poderia
tentar. Fui cavoucando lentamente, sem muita esperança boca
seca e uma vontade imensa de beber alguma coisa. Mas não tinha
nada. Me agarrei àquela pequena claridade como se fosse minha
última chance.Meus dedos foram ganhando força e mesmo
quebrando unha a unha fui tirando um pouco daquela parede que me tirava
a liberdade.Passaram-se horas e eu naquele exercício de cavoucar.Levei
um susto ao escutar um barulho do lado de fora.Eram eles.Ou seria
um deles?Às vezes aparecia só um. Tornei a tentar escutar
mais do que me era permitido naquele momento. Mas meu coração
batia loucamente e parecia que eu iria morrer de tanto medo. Escutei
barulhos, mas ninguém abriu a porta. Tornei a cavoucar a terra
desta vez com mais cuidado pra não ter barulho. Minha boca
seca, minha vontade de urinar...
... Tive a ideia de fazer xixi naquela parede pra terra ficar mais
mole. Cheguei até o tijolo. Deu pra sentir. Então comecei
a empurrar o tijolo com os pés. Fiquei remexendo freneticamente
até que um pedaço se rompeu e apareceu boa parte do
lado de fora. Sim era dia. Então pude ver o lado de fora. Coloquei
meu braço pra fora e dei com uma pedra do tamanho de um punho
fechado. Tornei a tentar escutar barulhos do lado de dentro - se tinha
alguém, estava dormindo. Vi que eu estava em um lote cheio
de mato e que era grande. Dali também vi que tinha casas de
frente... Com a pedra nas mãos comecei a quebrar o tijolo,
as pontinhas... Aos poucos. Se alguém abrisse a porta eu estaria
perdida. Então apressei o ofício até que o espaço
fosse suficiente para minha fuga. Mal pude acreditar quando finalmente
vi que o buraco era bom o bastante. Enfiei primeiro a cabeça
pra fora, depois fui arrastando o corpo. Estava entalada e no desespero
impulsionei meu corpo pra fora de qualquer jeito ralando as costas,
os seios e os joelhos. Enfim, corri me embreando no mato com medo
de olhar para trás e ver um deles. O terreno tinha parte do
muro quebrado então passei por ele. Dei de cara com crianças
que brincavam de bola. Eles se assustaram com minha aparição
súbita, além de suja e ferida. Eu só disse a
eles "Corram que eu estava presa naquela casa, lá só
tem bandido". Correram todos menos um de uns sete anos que me
afirmou ser aquela casa de seu pai. Enquanto o menino corria rumo
ao meu cativeiro eu corri no meio da rua chorando e gritando pra não
deixar eles me pegarem. Dei de cara com um senhor de idade que me
disse "Calma... eu vou te levar pra casa". Ele me levou
pra uma mercearia e ligou. A polícia chegou em uns 15 minutos
nem sei. Tinha muita gente ao meu redor e uma mulher me dando água,outra
tentando me limpar .De onde estava, já nas mãos da polícia,
ouvi tiros e soube depois que morreu o pai daquele menino que sem
saber já tinha entrado no mundo do crime.
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