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Morgana
Gazel
Salvador
/ BA
A
Caipora e Joaninha
Joaninha
acordou com os gritos de D. Nazinha; pareciam vir da cozinha:
- Levante, menina! Vá cumprá o leite! Tá ficano
tarde!
Sentou-se na cama, atordoada, sua impressão era de que o lençol
lhe dizia: "Sai não, Joaninha!"
Mas D. Nazinha entrou no quarto a reclamar:
- Cê inda taí, Joaninha?! Cê inda taí?
Joaninha levantou-se e saiu de má vontade. Além do sono,
não gostava de se afastar sozinha de casa. Tinha medo de cobras,
o que a ninguém confessava; esforçava-se em ser corajosa
como o pai. Caminhava, bocejando e recordava a D. Nazinha do tempo
em que era apenas sua tia. Ah, quantos mimos ela lhe fazia! Porém,
após a morte da mãe de Joaninha, o pai juntou-se à
cunhada Nazinha, que logo passou a imitar da irmã falecida
aquilo com que a menina mais se aborrecia: "Já se banhou?...
Vá passá o pente no cabelo, Joaninha!... Venha varrê
o terreiro, que eu vou cuidá do de comer..." A menina
não via mais nenhuma graça na vida. Sentia saudade de
quando era bem pequena e sua mãe era viva. Nessa ocasião,
tanto a mãe como a tia faziam tudo que ela necessitasse e nada
lhe exigiam.
De tão absorta, passara do portão do curral, entrara
numa trilha do lado oposto e se embrenhara no mato. Abundavam ali
cajueiros, umbuzeiros, ouricurizeiros... tudo ressuscitado depois
das últimas chuvas. Não estava perdida; sabia que se
retornasse pelo mesmo caminho, logo estaria em casa, tomando café
com cuscuz de milho, molhado com leite fresco de vaca. No entanto,
Joaninha não fez nada disso. Ainda sonolenta, sentou-se à
sombra de uma árvore mais frondosa, aconchegou-se entre raízes
salientes e dormiu.
Ao acordar, viu uma mulher de pé em sua frente. Ela mirava-a.
Tinha olhos escuros, penetrantes, cabelo também escuro, liso,
curto, cheio de pontas, tez morena, uma só perna e vestia uns
trapos que pareciam tecidos com fibras agrestes. Sem abrir a boca,
falou dentro da cabeça de Joaninha: "Menina, vem, eu mostrar
a mata!" Joaninha seguiu-a. Adentraram a vegetação.
Apesar de não haver trilhas, a mulher caminhava com destreza,
esgueirando-se, agachando-se, suas mãos a auxiliar o já
habilidoso pé. Joaninha imitava-a como se aqueles movimentos
lhe fossem usuais. Chegaram a um riacho em que, no alto, ramos de
árvores se entrelaçavam. A luz penetrava, difusa, o
teto de folhagem. A mulher afastou-se. Joaninha ouvira, novamente
dentro da cabeça, que devia esperar. Respirou três vezes,
a outra voltou, trazendo uma cabaça aberta, cheia de suculentos
umbus, pinhas carnudas e araçás. Comeram e trocaram
algumas palavras silenciosamente. Joaninha enfim aprendeu o estranho
modo de se comunicar.
Ao finalizar a refeição, a mulher segurou uma das mãos
de Joaninha, deu um grande salto, levando-a consigo. E tudo se apagou.
Quando Joaninha voltou a si e ao mundo, as duas eram criaturas minúsculas
em meio a gigantes formigas. A menina agarrou-se à mulher com
medo de ser devorada por aqueles monstros. A mulher explicou que somente
o tamanho delas havia mudado; estavam menores, mas invisíveis
às formigas. Joaninha desesperou-se; chorou e pensou, aos gritos:
"Estou menor do que uma formiga?! Não! Quero meu tamanho!"
A mulher respondeu, silenciosa e animada: "Vem! Eu mostrar formigas.
Engraçadas, vem! Você boba! Depois eu devolver nosso
tamanho!"
A menina, acalmou-se e, curiosa, se pôs ao lado da mulher a
observar as formigas. Uma fileira delas seguia na direção
de um buraco, carregavam pedaços de folhas maiores que elas.
Outra fileira retornava sem nenhuma carga. A mulher ria, como se fosse
a melhor coisa da vida estar entre aqueles insetos. A menina acompanhou-a,
quando ela resolveu entrar no formigueiro. À porta, um grupo
de formigas patrulhava. Lá dentro, Joaninha viu uma bem maior,
a rainha e, em outra câmara, deparou-se com larvas que eram
vigiadas por formigas com jeito de babás. Na câmara seguinte,
formigas trituravam os produtos coletados, formando montes iguais,
alguns dos quais já recobertos por uma substância esbranquiçada.
Joaninha estava tão entretida a admirar a divisão de
tarefas, que a mulher precisou pensar bem alto para ela ouvir que
era hora de irem embora. Quando saíram, o sol podia ser visto,
fulgurante, no alto, através das árvores.
A mulher repetiu a mágica, e as duas retornaram ao riacho e
ao tamanho normal. De novo beberam água e comeram frutas. Depois,
voltaram a caminhar através da mata. A mulher falava a língua
dos animais. Embora não compreendesse os sons, a menina ouvia
na cabeça os significados. E teve de acompanhar, temerosa,
um diálogo, entre a mulher e uma cobra venenosa:
- Eu ir embora. Nossa mata ficar perigosa! - disse a cobra.
- Outra maldade? - perguntou a mulher.
- Sim. Caçadores. Agora muitos. Eles matar minha irmã.
Eles fazer pam... pam... Ela morrer.
- Você morder?
- Não. Eles querer me matar. Fim de mundo!... nossa mata perigosa...
Você ir embora?
- Não. Criaturas dessa mata precisar de mim.
- Ah... eles matar minha irmã... Você longe - a cobra
lamentava.
- É... eu longe. Se eu aqui, eu cantar, caçador ir embora.
Apesar de seu medo de cobras, Joaninha quase chorou, penalizada.
Quase noite, chegaram a uma caverna. A pedra que fechava a entrada
rolou em obediência ao estranho canto da mulher. Do teto pendiam
estalactites fosforescentes. A lua cheia iluminava o espaço
através da entrada que a mulher deixara aberta. As duas dormiram
sobre esteiras de folhas de ouricurizeiro.
Ao acordar, Joaninha percebeu, perplexa, que se encontrava entre as
raízes salientes da árvore onde se deitara para descansar.
Mas não teve tempo de pensar. Viu seu pai parado a olhá-la,
parecendo petrificado. Ele se mexeu, agachou-se e a abraçou.
E foram para casa.
D. Nazinha gritou ao vê-la:
- Onde ocê estava, menina? Quase me mata do coração
- e acrescentou a chorar - Está toda lapeada. Que aconteceu
com ocê?
Joaninha só pôde contar que andara pela mata com uma
mulher; os detalhes desvaneciam-se, rápidos, em sua mente.
D. Nazinha exclamou:
- Coitadinha! Foi encantada pela caipora.
No dia seguinte, Joaninha levantou-se cedo, bem-disposta, e foi comprar
o leite.
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