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Luciana Arrieta Volpato
Santana do Livramento / RS



O homem de negro


Era um dia nublado de outono, quando eu e uma amiga saímos pra fazer nossa caminhada diária. O sol já estava se pondo, em breve iria escurecer, então decidimos fazer nosso exercício físico do outro lado da fronteira. Moro na divisa do Brasil com o Uruguai e o lado uruguaio além de ser mais iluminado, tem mais carros e gente transitando, então seria mais seguro.
Nos empolgamos com a caminhada e passamos do horário previsto. De modo que na volta, a cidade já estava um tanto "morta" e talvez porque a noite estivesse úmida, havia uma névoa no ar.
Estávamos passando na frente do cemitério, quando senti uma presença nas minhas costas. Olhei pra trás e vi um homem pra lá de sombrio: muito alto, magro, pele morena, olhos verdes, vestido de preto dos pés a cabeça. Falando assim, você, caro leitor, até pode pensar que era um homem bonito, mas não era. Pra dizer bem a verdade, quando olhei pro rosto dele pensei que tivesse "se batido com o diabo", de tão feio.
Minha amiga, que vinha muito distraída, falando até pelos cotovelos, não percebeu a presença do homem. Disfarçadamente, em meio de conversa, eu ia acelerando a caminhada e costurando a rua, atravessando pra lá e pra cá, tentando despistá-lo. Ela continuava sem perceber nada, falando sem parar sobre um ex-namorado. Eu não queria fazer alarde, o homem poderia estar armado, eu precisava tomar distância pra poder contar a ela, em voz baixa, que estávamos sendo seguidas. Porém, ele apressava e diminuía o passo de acordo com o meu e eu não conseguia me afastar o suficiente.
Num dado momento, quando o homem já estava quase colado nas minhas costas e não havia mais ninguém na rua além de nós três, minha amiga finalmente olhou pra trás e tomou um susto. Só então ela parou de falar. Olhou pra mim com cara de medo e fez um sinal com a cabeça pra que eu caminhasse mais depressa. Quando percebeu que era inútil, fez ainda um outro sinal e começamos a correr. Ele correu também.
Depois de umas cinco quadras de maratona, com a graça dos Deuses, do evangelho, de todos os santos e de todos os orixás, avistamos uma oficina mecânica, que estava aberta e com um monte de pessoas paradas em frente. Pelo que pudemos ver, estavam fazendo um churrasco. Corremos até lá e quando chegamos bem na porta da oficina, eu me abaixei, como quem vem fazendo cooper e pára pra amarrar os tênis. O homem se viu obrigado a passar reto.
Nós chamamos um táxi pelo celular e ficamos esperando ali, paradas ao lado da festinha. Enfim, fomos pra casa.
Alguns dias depois, minha amiga estava no salão de beleza, quando comentou com o cabeleireiro o fato ocorrido. Um policial uruguaio, que estava esperando pra cortar o cabelo, ouviu a conversa e disse:
- Que loucura! Pela descrição que você fez, o homem que as perseguiu é um estuprador que o povo chama de Homem de Negro. Estamos atrás dele há meses e não conseguimos prendê-lo. Da última vez, ele fugiu saltando pelo telhado de uma casa.
Depois dos fatos ocorridos, eu procurei saber mais sobre o assunto e descobri que além dos estupros cometidos, também havia uma série de boatos e crendices sobre essa figura. De acordo com o que o povo contava, ele parecia ser uma mistura de lobisomem com Batman e Homem Aranha. Diziam que ele usava uma capa preta, que seus olhos brilhavam no escuro, que ele corria numa velocidade incrível, saltava pelos telhados à noite, uivava pra lua e que ninguém conseguia alcançá-lo.
Bem, o homem que nos perseguiu, felizmente, não era tudo isso. Mas que o susto foi grande, isso foi.

 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010