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Vicência Maria Freitas Jaguaribe
Fortaleza / CE



Os fantasmas da galeria


- ...preparado!
- ...sofrimento.
- ...vida.
-... vida.
O eco de algumas palavras e a sensação de que havia alguém dentro de casa me acordaram. Sentei-me na cama e esperei. Não queria me levantar. Corria o risco de não tornar a dormir. Ouvi, então, um som parecido com psiu, um arrastado de pés e leves batidas na parede, que julguei virem do corredor.
Moro em um apartamento de três quartos, separados dos demais aposentos por um corredor curto e estreito. Nas paredes desse pequeno espaço, que chamo minha galeria, distribuí fotos da família e de amigos: mortos e vivos.
Meu prédio não tem isolamento acústico, de modo que, às vezes, juramos escutar, dentro de casa, sons que vêm dos outros apartamentos. Ouço o rangido enjoado de um armador e a tosse de alguém; escuto o arrastado da chinela e o toque de um telefone; percebo uma respiração que penso ser a de minha mãe, morta há três anos. Acostumada, pois, a esses pequenos episódios, não tive medo de me levantar e abrir a porta do quarto. Acionei os dois interruptores que ligam as duas lâmpadas desse aposento. Uma claridade não muito forte espalhou-se pelas paredes e pelo assoalho, acentuando a escuridão que parecia aderir aos demais aposentos. Não vi nada de anormal. Já voltava ao quarto, quando alguma coisa que alterara a perspectiva que tinha do local - mas que eu não sabia o que era - atalhou meu gesto. Olhei as paredes, o assoalho, o teto. Nada. Estava tudo em seu lugar. Espere! Disse a mim mesma. Olhei a parede à minha direita, e estava lá o que incomodara meu senso de simetria e de equilíbrio: a fotografia de uma tia, juntamente com um filho - ambos falecidos -, prestes a cair. Quebrara-se o ganchinho de sustentação da moldura, segura agora, precariamente, por um pequeno pedaço do gancho que ainda não se havia soltado da madeira. No outro dia o levaria ao conserto.
Não entendia como aquele gancho se quebrara. Mas supus ter sido o mau jeito da faxineira, que fizera limpeza no dia anterior. Já ia novamente entrar no quarto, quando observei que algumas molduras estavam tortas. O vento! Deixara a porta do outro quarto aberta. Nem sequer quis confirmar essa hipótese. Ajustei as molduras e fui dormir. Sonhei com meus mortos - os mortos dos retratos - e depois com minha irmã me fazendo a pergunta que sempre me faz: Que é que vou fazer com esse monte de retrato quando tu morreres? E, antes de acordar, dei-lhe a resposta: Chame todo mundo e mande que cada um leve o seu.
Pela manhã, lembrei-me vagamente do episódio, mas não disse nada a ninguém. E esqueci-o. À tarde, mandei mudar o gancho de sustentação da moldura e a recoloquei no lugar.
Naquela noite, na mesma hora da noite anterior, acordei com uma sensação de claridade no corredor. Alguém havia ligado as luzes. Quando consegui libertar-me do torpor do sono, tive a impressão de ouvir pessoas falando. Levantei-me devagar e, sem acender a luz do quarto, encostei o ouvido na porta. Ouvi algumas frases que pareciam fazer parte de um diálogo.
- Ao contrário da senhora, eu fui cedo demais. Não estava preparado!
- Não reclame. Sua viagem prematura livrou-o de muito sofrimento. Além do mais, o que o mundo oferece aos vivos, hoje, não é mais vida.
- É, mas, mesmo assim, gostaria de estar vivo. Eu amava a vida.
O som vinha do corredor, inequivocamente. Mas quem conversava?! Quem conversava àquela hora, se eu estava sozinha em casa?! Com cuidado, para não fazer barulho, abaixei-me e olhei pelo buraco da fechadura. O que vi estarreceu-me. Só podia estar sonhando! Aquilo não tinha cabimento! Não tinha lógica! Era coisa de cinema! De história de suspense, de terror... sei lá! Minha avó, minha tia e seu filho haviam descido das molduras e conversavam em pé, no meio do corredor. Os outros retratados pareciam atentos à conversa: balançavam a cabeça em sinal de aprovação ou de desaprovação; projetavam os braços para fora da moldura; passavam as mãos nos cabelos.
Apavorada com o que acreditava estar vendo e ouvindo, tremendo, e com os pelos dos braços eriçados, voltei para a cama. A conversa lá fora do meu quarto continuou por uma boa meia hora, após o que as luzes apagaram-se, e o silêncio voltou a reinar dentro do apartamento. É claro que não mais conciliei o sono. Somente quando o dia clareava é que consegui cochilar. E, nesse cochilo, tive um pesadelo: sufocava coberta pelos retratos de minha galeria, que alguém jogara em cima de mim. E, de repente, os vidros das molduras, em meio a grande estrondo, se quebravam, todos de uma vez, e os retratados, vivos e mortos, começavam a gritar, dizendo que estavam livres novamente.
Acordei molhada de suor e chorando. Levantei-me e não pude deixar de pensar novamente em se eu vira e ouvira o que pensava que vira e ouvira, ou se tudo não fora impressão ou sonho. Tomei banho e saí do quarto. Esbarrei em alguma coisa que não sabia o que era. Olhei para o assoalho e vi algumas molduras quebradas, com os vidros despedaçados. Olhei para as paredes e percebi a falta das fotografias dos meus mortos. De todos eles. Então, entendi: eram as molduras deles - as dos seus retratos - que jaziam despedaçadas no chão. E as fotografias não estavam lá. Tinham sumido. Sentei no chão e comecei a chorar: de medo, de pena, de remorso, de saudade? Não sei. E foi assim que a empregada me encontrou.
Ainda nessa manhã, falei com um padre amigo e contei-lhe tudo. Ele empalideceu, mas não tentou nenhuma explicação. Somente se ofereceu a ir ao meu apartamento fazer uma espécie de exorcismo e dar-lhe uma bênção. Aceitei. Terminado o ritual, eu senti-me mais calma. A noite foi tranquila, como foram e continuam sendo tranquilas as outras noites. Não desisti de minha galeria. Mas de uma de suas paredes, por sugestão do padre amigo, pende um crucifixo.
Nunca contei os detalhes desse episódio a ninguém, porque eu mesma não sei o que realmente aconteceu, embora o padre a quem pedi ajuda tenha demonstrado, em sua reação, absoluta certeza sobre o fato.

 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010