Regulamentos Como publicar Lançamentos Quem somos Edições anteriores Como adquirir Entrevistas

 
Antologia on line
 
     
Volta Página Principal
 


Silvio Luiz Dias Pontes
Santo André / SP



Romaria noturna


O explorador Rene Ruber e amigos se preparam para uma nova expedição em uma caverna com dimensões imensas no oeste baiano.
Informados com os nativos da região onde estavam as fendas nas rochas que pudessem ser usadas como entrada, eles saem numa manhã de sol escaldante.
Eles são acompanhados por um sertanejo que interrompe a caminhada de seu jegue que atende pelo nome de Zoião a alguns passos de uma entrada.
Zurió é nascido e criado entre os lajedos de calcário, touceiros secos e mandacarus da região, ele conhece aquele buraco desde menino, mas receoso diante das lendas que falavam sobre as cavernas como sumidouros de pessoas, jamais tivera coragem de avançar além do halo de luz da entrada, nem ele, nem nenhum outro morador, mas para os exploradores, essa grande caverna era uma das poucas ainda inexploradas, era um silêncio e uma escuridão total, eles planejavam revelar sua beleza e história para o mundo, mas para Zurió, eles não deveriam entrar.
Rene e seus amigos checam os instrumentos, vestimentas, capacetes, botas, mochilas e cordas, o objetivo era topografar a maior extensão possível da caverna.
Enquanto isso, Zurió tirava da algibeira o fumo de corda, olhando de soslaio como quem finge desinteresse pelo acontecido e antes da primeira baforada no cigarro de palha, os exploradores somem caverna adentro.
Rene orienta o grupo munidos de equipamentos básicos para rastrear um terreno colhendo medidas e coordenadas que depois permitirão confeccionar uma planta detalhada da caverna.
As cavernas são um grande desafio natural, mas é aí que está a razão que move estes aventureiros, entrar em lugares jamais vistos e descobrir as entranhas da terra, mas dias depois o pior aconteceu, todos os exploradores desapareceram assim como Zurió e seu jegue.
Renam Ruber, filho de Rene, assistia a TV, eles comemoravam a chegada do homem a lua, este acontecimento simbolizava a maior conquista no último século do milênio. Para onde iremos agora?
Aquela frase deixou Renam pensativo, seu desejo agora era ir ao encontro de seu pai e por isso, vai atrás dos fatos no intuito de descobrir o que ocorreu com aquela trágica expedição e o estranho guia sertanejo que dela acabou fazendo parte.
Duas décadas haviam se passado sem que a mata ouvisse as pegadas que castigavam aquele chão árido, tanto que ela foi lentamente engolindo as pedras escorregadias até apagar do mapa qualquer traço do antigo caminho que rasgava aquelas terras.
Espeleólogos liderados por Renam e observados pelo filho de Zurió, voltam a perturbar a quietude do lugar, depois de anos abandonada, eles resolvem desenterrar a trilha para trazer à luz um pedaço esquecido da história, checam os instrumentos, colocam os macacões, botas, mochilas, cordas de náilon e rádios comunicadores, acendem os capacetes e marcham rumo ao desconhecido.
Seguindo um rio subterrâneo, Renam vê surgir à sua frente próximo a uma parede branca e nua de um grande salão, uma escultura rochosa de grandes proporções, ele viu que as silhuetas formavam os exploradores, isso incluía seu pai com a expressão de espanto retratado nas figuras de pedra e ao lado deles outra silhueta de uma pessoa com a cabeça inclinada, cachimbo na boca que Renam acredita ser Zurió e seu animal, mas como eles vieram parar ali?
Renam batiza-a como "A Muralha dos Gigantes" e o mais impressionante é que, mais cem metros, eles encontraram um rico acervo arqueológico cujos desenhos e inserções retratam aos primórdios da história do homem, os estudos realizados estimam em seis mil anos as figuras desenhadas em alto relevo, nas rochas estão esculpidas desenhos variados representando pássaros, répteis, frutas tropicais, figuras humanas e constelações.
Renam refaz em sua mente o que realmente aconteceu: Os exploradores se depararam com um enorme bloco de pedra intransponível, resolveram explodi-la, só que não contavam que a explosão acordaria a gigante adormecida e selaria suas vidas.
Em contraste com o achado histórico, Renam olha para a figura daquele homem simples em todos os seus pormenores e seu animal caracterizado pelo extremo impulso de auto ajuda após ouvir a explosão. É impossível idear-se cavaleiro mais xucro e deselegante faltando-lhe bojo para executar a tarefa que se propôs, tronco pendido para frente e oscilando à feição da andadura dos pequenos cavalos do sertão, desferrados e maltratados, mas resistente segue acompanhando morosamente o passo pela escuridão.
Colado ao dorso de Zoião, Zurió confunde-se com ele graças a pressão dos jarretes firmes, emergindo nas clareiras, caminhando esquecido de si sob insólitas paisagens subterrâneas sempre agarrado ao animal, o valente Zurió e seu jegue, ultrapassam todos os obstáculos sem se perder nunca.
Zoião e Zurió que não esmoreceu pelo bem de seus semelhantes, seguiram em sua romaria noturna até encontrá-los, terminando sua refrega como se fora buscar uma rês de seu rebanho, e nisso outra explosão acontece eternizando-os em pedra.
Zurió caído de cabeça inclinada sobre o lombo de seu jegue desgracioso e inerte com a aparência triste de um inválido esmorecido e no momento transformado.
Renam ao sair da caverna, encontra-se com o filho de Zurió totalmente adaptado a uma natureza que o encanta, a luta pela vida não lhe assume um caráter selvagem naquela terra árida.
Renam apenas se entristece com a devastação e a miséria, um quadro de absoluta pobreza do solo calcinado e exaurido por um sol bravio.
O filho de Zurió não se preocupa com o futuro que é sempre uma ameaça, mas desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa.
Valente e despreocupado tem o trabalho como diversão que lhe permite as disparadas domando as distâncias, nas pastagens planas.
Renam relata detalhadamente a viagem para a Sociedade Geográfica Nacional. Os exploradores, Zurió e seu fiel amigo Zoião estão prontos para o seu momento de glória.

 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010