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José
Luiz da Luz
Ponta
Grossa / PR
Transplante
de rosto
Séfora
era uma dessas sublimes feminis fanáticas pela beleza, em cujos
anseios reinava a louca busca pela perfeição do seu
corpo. Não importavam os muitos tratamentos estéticos,
nem horas de academia, nem o mais hábil maquiador, nada a deixava
satisfeita.
"Nem o ingênuo Quasímodo na sua horrenda figura,
se encantaria por mim." Pensava sempre que fitava seu rosto no
espelho. "Ademais, aquele farrapo de Victor Hugo se encantou
pela cigana Esmeralda, não teria olhos para mim." Via
o espelho como uma horrível tela na parede.
Nascida na bucólica Itaiacoca, mas foi instruída desde
criança nos melhores colégios de Curitiba, sendo aprovada
na Universidade Federal do Paraná. Foi aprendiz de pintura
em casa de Mestre Zamilian, onde se tornou exímia nos segredos
de Da Vinci, e outros clássicos. A mesma perfeição
dos mestres do passado, ela exigia para o seu próprio corpo.
O nome de sua mãe? Cristália! Um nome apenas, que soava
como uma lenda.
Desde a morte da genitora no instante do parto, seu pai Astor, que
era um libertino viciado, delirou: chorava e sorria ao mesmo tempo,
morreu logo depois enlouquecido pela dor e remorso, com as mãos
sobre a face escondendo as vergonhas.
Séfora cresceu em casa dos padrinhos que não podiam
procriar. Providos de fortuna, tentaram saciar todas as fomes e sedes,
como filha do próprio corpo.
Uma moça pálida, de cabelos louros, os olhos azulados
escondiam uma tristeza recôndita; sua pele era branca, mas quando
a timidez a envolvia, duas maçãs argentinas lhe avermelhavam
a face.
Sua voz desde a adolescência era melancólica, havia um
profundo trauma naquela que fazia brotar uma vaidade, mas que era
a expressão de uma fuga.
A juventude vinha dramática nos salões dos cabeleireiros.
Folhava as revistas e sentia que era capaz de dar a metade da vida
que lhe restava, para ter o rosto de Barbara Hellen nos episódios
de Jeannie é um Gênio, o rosto de Keira Knightley em
Piratas do Caribe.
-Oi querida, o que queres hoje? - O cabeleireiro sempre repetia a
mesma pergunta. Por mais que ele se esforçasse, sempre parecia
ficar tudo do mesmo jeito!
Séfora mesmo sendo linda aos olhos dos transeuntes, seus olhos
só viam um rosto cheio de miasmas, em espelhos que mostravam
a imagem que ela fazia de si mesma.
-Quero ficar como Marilyn Monroe. - Respondia na maioria das vezes:
"jamais este farrancho saberá fazer um cabelo igual ao
dela".
Seis meses demorou Séfora nas aulas de pintura, para a sua
cópia de Monalisa ficar pronta e ser aprovada pelo Mestre Zamilian.
Eram meros exercícios para aprender os segredos das expressões
faciais, cores, estilos...
Monalisa de Séfora ocupou um lugar de destaque na sala, sempre
vencia a disputa da atenção com a televisão.
Aquele sorriso enigmático parecia lhe dizer algo:
"Talvez no recôndito dos lábios, vagam palavras
de piedade por mim, presas nos lábios como pássaros
na gaiola." Os olhos de Séfora lacrimejavam sem brilho.
Numa fúria, a jovem pegou uma tesoura e recortou o rosto da
tela, transformou numa máscara e colocou em seu próprio
rosto. Diante do espelho vociferou:
-Eu sou a bela dos séculos! - Um arrepio horrível correu
em sua pele, e os nervos se retorceram como serpentes. Sentiu como
se fosse o seu próprio rosto. As lágrimas mescladas
com a maquiagem borraram aquela máscara, formando perfeitamente
uma rosa. Seria um sinal? Um código trazido por algum espírito
piedoso?
Passou muitos dias pensativa, tentando decifrar aquele estranho sinal:
"Pode significar que devo fazer uma operação plástica."
Essa hipótese surgiu como uma brilhante idéia, já
que as rosas são lindas...
"Teus lábios mais finos ficaram belos" Eram os comentários,
mas ela se entristecia, pois não admitia que percebessem as
intervenções. Sorria um sorriso mentiroso, porque guardava
as lágrimas verdadeiras dentro do peito.
Depois de mais de uma dezena de intervenções, ela não
entendia, no seu quarto frente ao espelho ainda via miasmas em seu
rosto, ainda se via horrível!
"Não passou de um borrão! Que tédio acreditar
em sinais." Agoniada ela pegou. uma toalha, com a face úmida
de um suor copioso e se enxugou com violência, como se tentasse
desgrudar uma máscara horrenda feita de sua própria
carne.
Os pais adotivos sentiam que Séfora sofria. Um passeio para
Itália seria bom, tentaram encher de vida aquela que se definhava.
Foram para Pizza:
-Séfora! Como esta Torre de Pizza está pendida, vemos
tua alma curvada, falta-lhe o que, filha? - Simeon e Alete, perguntavam
com seus olhos orvalhados.
-Há um vazio! - Respondeu. - Dormem? Lógico que não!
Escuto os meus pais de sangue cantarem no silêncio, outras vezes
afogarem-se em soluços. Desde que soube na infância que
morreram, senti a falta das mãos da minha mãe me acariciando,
me arrumando, e sua voz me dizendo que eu estava linda. Alete! São
mornas as tuas mãos e tua voz. Nunca fiquei bela.
O passeio fora como uma taça de vinho, onde o efeito das delícias
logo passaria.
O seu curso de Farmácia e Bioquímica estava nos últimos
dias. Após o último trabalho sobre transplantes, corria
de mão em mão uma revista científica que trazia
uma matéria sobre Isabelle Dinoire, uma francesa que fez um
transplante parcial de rosto, após ter seu rosto destroçado
por um cão labrador.
-Andar com o rosto de uma morta? Que horror! - Séfora falou
para o professor.
-Escolheste o rumo da ciência, terás que se acostumar
com o que verás pelo caminho. - Respondeu o professor Walsk
- Afinal, a ciência revela frutos que parecem macabros, mas
depois todos se acostumam e se fartam dos seus sabores.
Aquele rosto transplantado a deixou impressionada. Depois de uma semana,
ela encontrou novamente o professor nos corredores, e voltou a tocar
no assunto.
-Lembra-te de Isabelle? Queria que existisse uma clínica avançada,
que tivesse uma vitrine com vários tipos de rostos, onde pudéssemos
escolher a gosto para transplante, como se troca uma roupa, um sapato.
O professor fitou os olhos dela e se calou, parecia esconder algo.
O curso findou, e na noite da formatura veio o professor acompanhado
por um homem estranho, porquanto era noite, e ele usava óculos
escuros e um terno preto.
-Parabéns pela conquista. - Falou o professor Walsk visivelmente
emocionado. - Este é o Doutor Austin.
A jovem sentiu um arrepio: "que homem túrgido, como as
cavernas do inferno!"
-Muito prazer! - Apresentou-se o doutor Austin com sotaque americano.
- Sou pesquisador na área genética, células tronco,
transplantes, etc... soube do teu interesse em transplantes de rosto,
foste indicada para trabalhar conosco nos Estados Unidos da América.
Foram meses de dúvidas e medo: "Transplante de rosto?
Criar órgãos? Eu me transformar num Victor Frankenstein?
Que horror!
-Pensei muito, eu aceito. - Séfora falou trêmula ao telefone.
-Parabéns pela decisão. - Respondeu o doutor Austin.
A despedida dos pais adotivos foi morna. Só uma lágrima
a custo desceu dos olhos de Séfora. Simeon e Alete, sim, choraram
lágrimas sentidas.
Na chegada ao estado de Nevada, Séfora foi levada por montanhas
inóspitas, até chegar num imenso galpão. Na sala
de recepção recebeu as primeiras informações:
-Estás no lugar mais secreto do planeta, aqui é a Área
Secreta. Se parece com um simples galpão, mas por dentro a
ciência prepara frutos que os leigos não estão
preparados para saber.
Pouco a pouco as portas foram sendo abertas, era tudo impressionante
e horrível:
-Parece a visão do inferno! - Bradou a jovem às primeiras
visões das pesquisas: animais manipulados geneticamente com
feições estranhas; animais com membros transplantados,
órgãos humanos vivos em incubadoras... clones...
-Séfora, agora conhecerás o setor que irás trabalhar,
o de transplantes. - Falou o doutor Austin com a voz calma, de quem
já se acostumara com aquelas figuras.
Era uma sala branca: Havia alguns rostos extraídos de cadáveres
dentro de uma caixa de vidro, ligados por muitos fios e dutos a uma
máquina computadorizada. Estavam dispostos na superfície
de uma espécie de bexiga, mantidas vivas, mas pálidas
como a aparência de um cadáver. Eram pesquisas que ela
deveria se inteirar.
Mesmo vendo Séfora chocada, o doutor Dick lhe revelou ainda
mais:
-Aqui aprimoramos a tecnologia de transplante de face.
Aquela novata se esvaia naquela torrente negra que manipulava a vida,
mesmo assim, não morreram seus traumas, viu nos transplantes
uma solução para si. Pensou muito e chamou o doutor
Dick.
-Um transplante de rosto eu quero para mim! Vê minha face cheia
de miasmas?
-Não sabes do drama que é um transplante de rosto? São
para necessidades e não por vaidades. Teu rosto lindo carrega
os lírios da juventude, não precisas de transplante.
Aquela recusa lhe causou uma vertigem. Era capaz de jogar tudo para
o alto se não fosse atendida. Diante dos delírios, o
doutor Dick mesmo contrariado disse:
-Amanhã cedo! Na sala de cirurgia esteja pronta.
Ela escolheu o rosto mais lindo, e na mesa de cirurgia se apagou.
Passou uma semana no centro de terapia intensiva sob efeitos de calmantes...
-Olha-te no espelho. - O doutor Dick lhe pediu quando despertou.
-Vejo uma beleza plástica e pálida, traços de
mortalha, não sei mais quem sou!
Séfora chorou, pois viu que o Doutor Dick não fez o
transplante, mas aplicou fortes doses de calmante. Logo ela começou
a ver os antigos miasmas que pareciam brotar de dentro dela.
Um ano se passou, e em férias voltou para Curitiba. Numa tarde
saiu sem destino, e logo estava no Parque Barigui. De longe ouviu
deliciosos sorrisos! Lá estava uma menina de quinze anos brincando
com outras crianças.
"Pobre coitada!" Pensou. De longe identificou que era portadora
do Sindrome de Proteus. Uma doença congênita que lhe
causou um crescimento exagerado e patológico do rosto por inúmeros
tumores subcutâneos. Era horrível aos olhos de Séfora!
Tinha os ossos do crânio irregulares. Era um absurdo ela estar
sorrindo, pois deveria estar afogada inundada nas lágrimas,
presa dentro do quarto esperando a morte.
-Por que sorris? Como consegues? - Perguntou Séfora de forma
rígida.
-Por que não haveria de ser? - Respondeu a menina. - A vida
é bela, o mundo é belo, eu sou bela. Olha os pássaros
que brincam e cantam, as borboletas que sorriem...
Séfora viu o máximo da contradição. Não
podia admitir que ela fosse feliz.
-Qual o teu nome?
-Meu nome é Rosa!... Rosa porque meus pais amam as flores.
-Mas... o teu rosto? Sabes do problema do teu rosto? - Perguntou,
pois pensara que ela poderia ser cega, talvez não tivesse consciência
do problema.
-Sim, conheço meu rosto! - Respondeu Rosa. - Tens que aprender
um segredo: a verdadeira beleza não está no corpo, mas
no espírito. Está dentro de nós!... O que é
um corpo, senão uma beleza que derreterá no túmulo,
mas o espírito sempre é belo.
Séfora empalideceu. Aquelas eram as palavras certas que ela
precisava ouvir em toda a sua vida, que nem as academias, nem as maquiagens,
nem mesmo a ciência souberam lhe dizer.
Naquele exato momento, Séfora decifrou o significado daquela
mancha em forma de rosa na máscara de Monalisa.
-Obrigada Rosa... - Séfora agradeceu sorrindo. Sorriu pela
primeira vez na vida.
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